Palavras-chave
Relação com o Saber; História e Filosofia da Luz; Ensino de Física
Autores
Ao longo da formação do autor no curso de Licenciatura em Física, a História e Filosofia da Ciência, como propõe Matthews (1995), revelou-se um elemento de grande potencial para a mobilização intelectual, uma vez que ela permite a humanização e contextualização do conhecimento científico. Nesse sentido, a abordagem rompe às concepções da ciência como verdade pronta e imutável, além de permitir a identificação dos estudantes como cientistas. Dessa forma, possibilitou ao autor a atribuição do sentido em aprender e ensinar física, permeando a relação professor-aluno e criando condições de aprendizagem com sentido que favoreçam a aproximação do estudante com o saber.
O Ensino de Física na educação básica, tal qual no ensino superior, ainda enfrenta dificuldades significativas relacionadas à aprendizagem conceitual e à formação de uma visão crítica sobre a ciência. Como propõe Barreto (2021), os conteúdos de física, e os de óptica, em especial, costumam ser trabalhados de forma fragmentada e descontextualizada, o que limita a compreensão dos fenômenos físicos e reforça uma concepção da ciência como um corpo de verdades prontas e distantes da realidade dos alunos, como discute a teoria da Transposição Didática de Chevallard (1985). Mobilizar a turma através de atividades intelectuais que sigam a Transposição Didática favorece a contextualização do fazer ciência. Isto é, o Ensino de Física tende a se reduzir à memorização de fórmulas e leis, sem promover uma reflexão sobre o processo histórico e humano de construção do conhecimento científico.
Uma das possibilidades para superar esse quadro é a abordagem histórico-filosófica da ciência, que permite compreender a ciência como uma atividade social, permeada por debates, erros, revisões e construções conceituais. Ao reconstruir o percurso das ideias sobre a luz, o Ensino de Física ganha um caráter mais dinâmico e significativo.
Dessa forma, o presente estudo busca responder à seguinte questão: como uma sequência didática fundamentada na abordagem histórico-filosófica da ciência contribui para a aprendizagem significativa do conceito de luz e para a construção de uma visão contextualizada e humanizada da ciência? Parte-se da hipótese de que a inserção da História e Filosofia da Ciência no ensino de óptica pode facilitar a aprendizagem conceitual e modificar a percepção dos alunos sobre a ciência, ao evidenciar sua dimensão humana e coletiva.
O objetivo geral desta pesquisa é apresentar as contribuições de uma sequência didática fundamentada na abordagem histórico-filosófica da ciência para a aprendizagem do conceito de luz e para a construção de uma visão da ciência como prática social e humana, em uma turma do 2º ano do Ensino Médio de uma escola do Alto Sertão Sergipano.
O referencial teórico baseia-se na utilização da História e Filosofia da Ciência como abordagem para o ensino de Física, compreendendo a ciência como uma construção histórica, social e em constante transformação. Além disso, apoia-se no conceito de Relação com o Saber, entendendo a aprendizagem como um processo de atribuição de sentido pelo estudante, influenciado por seu contexto e suas experiências. A articulação desses elementos sustenta a proposta de um ensino mais contextualizado, significativo e humanizado.
A pesquisa possui abordagem qualitativa, com análise fundamentada na Análise de Conteúdo. A intervenção consistiu na aplicação de uma sequência didática estruturada em três módulos, envolvendo conteúdos de óptica, abordagem histórico-filosófica e a produção de cordéis. No primeiro módulo foram abordados tópicos envolvendo a História e Filosofia da Luz; no segundo módulo, os alunos integraram as ideias historicamente construída com os fenômenos e princípios ópticos; por fim, no terceiro e último tópico, os estudantes apresentaram cordéis acerca do conteúdo abordado nos módulos anteriores em um sarau literário na escola. A aplicação foi realizada em uma turma do 2º ano do Ensino Médio (2º C), contendo 22 alunos, em sua maioria na situação de baixa renda, isto é, cuja renda é menor ou igual a um salário mínimo, distribuídos entre os municípios do alto sertão sergipano, permitindo analisar o desenvolvimento conceitual dos estudantes ao longo da proposta. Os dados foram coletados por meio de questionários de pré-teste e pós-teste, desenvolvidos nos módulos 1 e 3, atividades escritas, observações em sala e produções dos estudantes.
Após a coleta das respostas aos questionários, foi feito uma categorização dividida em: Categoria 1 - Alunos que apresentaram somente uma visão de senso comum, relacionando a luz com a sua função social, ou que, além da visão do senso comum, apresentaram algum conceito físico correto para classificar a luz; Categoria 2 - Alunos que apresentaram conceitos físicos totalmente ou parcialmente corretos ao classificar a luz sem uso do senso comum; Categoria 3 - Alunos que apresentaram uma visão conceitualmente incoerente ou fisicamente inconsistente a respeito da luz. Dos principais resultados da análise da distribuição categórica, tem-se: i) uma redução de aproximadamente 33% no número de estudantes enquadrados na Categoria 1, associada a um aumento de cerca de 20% na Categoria 2, indicando um avanço na incorporação de elementos conceituais fisicamente consistentes; ii) um aumento no número de estudantes classificados na Categoria 3, mesmo após a aplicação da sequência didática. Esse resultado pode ser interpretado como um indício de conflito conceitual, no qual os estudantes, ao entrarem em contato com diferentes modelos explicativos da luz, passaram a elaborar formulações híbridas ou incoerentes, ainda em processo de reorganização conceitual. Os resultados indicam uma evolução nas concepções dos estudantes sobre o conceito de luz, evidenciada pela comparação entre o pré-teste e o pós-teste. Observou-se uma redução de respostas baseadas no senso comum e um aumento de formulações que mobilizam conceitos físicos. Além disso, foram identificadas mudanças na relação dos alunos com o saber, com maior envolvimento e compreensão do conhecimento científico como um processo de construção, quando construiu-se a equação pedagógica reinterpretada por Nascimento (2022) da turma, sendo ela: Atividade Intelectual - Análise mais crítica e reflexiva das teorias científicas, com capacidade de interpretar fenômenos ópticos em um contexto histórico, filosófico e científico mais amplo; Sentido - O sentido do aprender aparece de forma mais elaborada, associado à compreensão da ciência como construção humana e como instrumento para interpretar o mundo e os fenômenos naturais; Prazer - O prazer está ligado à compreensão intelectual e ao engajamento reflexivo com as teorias, indicando satisfação em entender o raciocínio científico e filosófico; e Afetividade - A afetividade aparece de forma mais implícita, sustentando o diálogo, a confiança no processo pedagógico e a participação crítica, favorecendo maior autonomia intelectual.
Desse modo, o estudo pretende contribuir para o campo da formação de professores de Física, ao propor uma sequência didática que não apenas aborda o conceito de luz, mas também estimula a reflexão sobre o próprio processo de construção do conhecimento científico, a valorização da cultura regional e o papel do professor como uma ponte da relação entre o aluno e o saber.
Contudo, apesar dos avanços observados, faz-se necessário reconhecer que a pesquisa apresenta limitações, como o tempo restrito de aplicação da sequência didática e o número reduzido de turmas envolvidas. Esses fatores podem explicar a permanência de algumas concepções híbridas ou inconsistentes mesmo após as intervenções, como algumas manifestações do pós-teste evidenciam. Todavia, os resultados obtidos apontam para o potencial significativo da abordagem histórico-filosófica, somada a práticas pedagógicas que atribuam sentido ao objeto de conhecimento, como estratégia consistente para o Ensino de Física no ensino básico.
Por fim, espera-se que esta pesquisa contribua para reflexões acerca das práticas docentes no Ensino de Física, de modo a incentivar a elaboração de propostas didáticas que considerem o estudante como sujeito ativo do processo de aprendizagem e como um ser social imerso em vivências únicas que os diferenciam de outrem, em consonância com uma educação científica crítica, contextualizada e socialmente significativa.
Abstract
This study aims to present the contributions of a didactic sequence grounded in the
historical-philosophical approach to science for the learning of the concept of light and for the
construction of a view of science as a social and human practice, in a second-year high school
class at a school located in the Alto Sertão region of Sergipe, Brazil. This is a qualitative,
exploratory study, in which the author assumed the role of teacher-researcher and developed a
three-module didactic sequence based on Teaching through the Pedagogical Equation
(ENPEP), including the implementation of a literary sarau involving the production of cordel
booklets. To analyze the data, Bardin’s (2016) content analysis was employed. The theoretical
framework was based on the ideas of Charlot (2000) and Freire (1996). The results indicate a
significant reduction in formulations based exclusively on common sense or symbolism and
an increase in responses that mobilize, albeit partially, physically consistent concepts, as well
as changes in students’ relationship with knowledge.
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