Palavras-chave
Ludicidade; Educação Ambiental; Educação Infantil
Autores
Na infância, o brincar ocupa um papel central no desenvolvimento integral da criança. É por meio das atividades lúdicas que ela descobre o mundo, interage com o outro e constrói conhecimentos de forma prazerosa e significativa. Segundo Luckesi (2011), quando o ser humano age ludicamente, ou seja, quando participa de atividades que envolvem o imaginário, o prazer e a criatividade, ele vivencia uma experiência plena. Isso significa que, ao brincar, a criança está envolvida com atenção, curiosidade e emoção.
Diante dos desafios socioambientais enfrentados pela sociedade contemporânea, torna-se urgente inserir, desde os primeiros anos escolares, uma formação voltada à consciência ambiental. Nesse sentido, é possível trabalhar a Educação Ambiental (EA) de forma lúdica, objetivando conectar as crianças com a natureza e potencializar o desenvolvimento de atitudes sustentáveis de maneira significativa e prazerosa. Assim, unir ludicidade e EA configura-se como uma estratégia didática potente, capaz de contribuir para a formação de cidadãos críticos, responsáveis e sensíveis às questões ambientais, ao mesmo tempo em que respeita as características da infância e potencializa o processo de ensino e aprendizagem.
A abordagem do presente trabalho justifica-se pela relevância de integrar a ludicidade como estratégia pedagógica na Educação Infantil (EI), especialmente no ensino da EA. Considerando que o brincar é a principal forma de expressão e aprendizagem das crianças, utilizar atividades lúdicas para abordar questões ambientais torna o processo educativo mais atrativo, significativo e adequado à realidade infantil.
A inserção da EA desde os primeiros anos escolares torna-se essencial para construir uma base sólida de valores e comportamentos voltados à preservação do meio ambiente. Neste sentido, a pesquisa busca contribuir com o campo educacional ao oferecer subsídios teóricos que incentivem educadores a promover práticas educativas mais criativas, contextualizadas e eficazes, que articulem o lúdico ao desenvolvimento de uma consciência ecológica crítica e transformadora, desde a tenra infância.
A EA surge como um caminho necessário para despertar valores e atitudes sustentáveis, mas enfrenta desafios em sua inserção prática no contexto infantil. Nesse sentido, a ludicidade revela-se uma estratégia pedagógica eficaz, por estar alinhada à natureza da infância e por possibilitar aprendizagens significativas, prazerosas e conectadas com o cotidiano das crianças. Assim, a presente pesquisa tem como questão norteadora: de que forma a ludicidade pode contribuir para o ensino e aprendizagem da EA na EI? Esta pesquisa tem como objetivo geral
analisar, a partir de uma revisão de literatura, como a ludicidade vem sendo incorporada ao ensino e aprendizagem da EA na EI. Especificamente, busca-se: (i) analisar o papel da ludicidade como estratégia pedagógica e (ii) identificar potencialidades e desafios da EA para o público infantil.
O referencial teórico deste estudo tem como objetivo fundamentar a importância da ludicidade na EI e sua articulação com a EA, considerando os marcos legais e pedagógicos que orientam a prática educativa no Brasil.
2.1 A ludicidade na Educação Infantil
A ludicidade é uma característica intrínseca da infância, sendo o brincar uma das principais formas de expressão da aprendizagem das crianças. Na EI, o lúdico não apenas entretém, mas também desempenha um papel fundamental no desenvolvimento das crianças em vários aspectos. Assim, o lúdico pode ajudar a construir significados, assimilar papéis sociais e valorizar as relações afetivas para a construção do conhecimento (Silva; Barros; Rodrigues, 2021).
A ludicidade não deve ser tratada como um recurso secundário, mas sim como elemento estruturante do processo educativo na infância. Quando integrada de maneira consciente ao planejamento pedagógico, a ludicidade proporciona aprendizagens significativas, favorece a construção do conhecimento e fortalece o vínculo entre a criança, o educador e o ambiente escolar. As atividades lúdicas, quando bem planejadas e orientadas, contribuem positivamente para o desenvolvimento integral da criança, abrangendo aspectos psicológicos, cognitivos, físicos, motores e sociais, além de favorecer a construção de valores éticos (Bacelar, 2009).
A ludicidade, ao possibilitar que a criança aprenda de forma espontânea e prazerosa, também favorece o desenvolvimento da autonomia. Ao escolher como brincar, com quem brincar e o que usar no jogo simbólico, a criança exercita sua capacidade de decisão, sua iniciativa e seu senso de responsabilidade. Essa autonomia, construída desde a primeira infância, é essencial para formar sujeitos mais críticos e conscientes, inclusive em relação às questões ambientais. Como destaca Oliveira (2012), o brincar possibilita à criança agir com liberdade e explorar o mundo a seu modo, criando sentidos próprios e construindo sua identidade.
Por meio do brincar coletivo, as crianças aprendem a lidar com regras, a dividir, a esperar sua vez e a resolver conflitos. Essas situações favorecem o desenvolvimento da empatia,
da cooperação e do senso de justiça, habilidades fundamentais para a convivência social e para a construção de uma cultura de cuidado com o outro e com o meio ambiente. A ludicidade também tem grande potencial para enriquecer o repertório cultural das crianças. Brincadeiras tradicionais, cantigas, histórias contadas e dramatizações permitem que elas entrem em contato com diferentes expressões culturais, promovendo o respeito à diversidade e o reconhecimento de outras formas de ver e viver o mundo. Por fim, é importante destacar que a ludicidade não deve ser vista como "tempo livre" ou "recreação sem finalidade". Quando bem planejado, o brincar se torna um recurso pedagógico potente, capaz de integrar diferentes áreas do conhecimento e de promover aprendizagens significativas. Jogos que envolvem cores, formas, números, sons e movimentos podem ser articulados com objetivos curriculares de linguagem, matemática, ciências e artes, sem que a criança perceba essa estruturação.
2.2 Sobre a Educação Ambiental
A EA pode ser definida de diferentes formas, mas seu fundamento sempre será o mesmo: desenvolver na sociedade a capacidade de preservar e conservar o meio ambiente. Assim, a EA é um processo contínuo que visa promover mudanças de atitude, despertando a consciência sobre a importância da preservação dos recursos naturais e da sustentabilidade do planeta.
A EA pode contribuir para a construção de sociedades sustentáveis ao promover uma formação crítica e participativa, que estimula a conscientização sobre a interdependência e diversidade das relações sociais e ecológicas. Ela busca gerar responsabilidades individuais e coletivas, tanto em níveis locais quanto planetários, e transforma a relação dos sujeitos com o ambiente. Além disso, a educação ambiental deve ser um processo contínuo de aprendizagem que afirma valores e ações voltadas para a justiça social e a preservação ecológica (Tozoni Reis, 2006; Carvalho, 2020).
A Educação Ambiental, quando pensada para a infância, precisa considerar não apenas os conteúdos a serem trabalhados, mas principalmente o modo como esses conteúdos são apresentados às crianças. Assim, o cuidado com o meio ambiente deixa de ser um discurso distante e passa a fazer parte da vivência concreta das crianças no ambiente escolar. Guimarães (2004) destaca que, muitas vezes, os projetos ambientais nas escolas se limitam a transmitir informações ou esperam mudanças de comportamento isoladas, sem levar em conta o contexto em que a criança vive.
2.3 Aspectos metodológicos
Esta pesquisa possui abordagem qualitativa, por permitir a compreensão de significados e interpretações construídas a partir das perspectivas dos autores analisados, conforme propõe Yin (2016). Trata-se também de uma pesquisa de natureza bibliográfica, desenvolvida a partir de materiais já publicados, como livros, artigos científicos e trabalhos acadêmicos, conforme definido por Gil (2002). A finalidade é investigar de que maneira a ludicidade tem sido abordada no processo de ensino e aprendizagem da EA na EI
Para isso, foram considerados como critério de seleção artigos científicos completos que abordassem, de forma articulada, os temas da ludicidade, EA na EI, produzidos prioritariamente na última década (2014 a 2024). Inicialmente, foi utilizada a base de dados da plataforma SciELO Brasil. No entanto, não foram encontradas publicações que incluíssem os três descritores simultaneamente — "ludicidade", "Educação Ambiental" e "Educação Infantil". Diante disso, recorreu-se ao Google Acadêmico, onde foram localizados 50 trabalhos, entre artigos científicos, dissertações e teses. Após análise criteriosa, foram selecionados 10 artigos científicos que atendiam aos critérios temáticos propostos nesta pesquisa, formando o corpus do estudo. Os critérios de exclusão adotados foram: dissertações e teses, por não se tratarem de artigos científicos completos, e trabalhos fora do recorte temporal estabelecido.
Os dados desta pesquisa foram analisados com base no Ciclo de Análise de Robert Yin (2016), que compreende cinco fases interdependentes: compilação, decomposição, recomposição, interpretação e conclusão, conforme demonstrado na Figura 1, a seguir. Figura 1 – Etapas do processo de análise de dados em estudos qualitativos
Fonte: Yin (2016, p. 183).
A primeira etapa - compilação, consiste na organização e classificação dos documentos obtidos durante a coleta de dados. Em seguida, ocorre a decomposição, momento em que os dados são reorganizados com base em temas e similaridade semântica, permitindo a separação
em temáticos. A recomposição representa a terceira fase, sendo um procedimento de reestruturação das informações previamente decompostas. Na fase de interpretação, os dados recompostos são analisados em busca de significados relevantes para a pesquisa. Por fim, a etapa de conclusão envolve a extração dos principais achados e considerações do estudo. Essa estrutura tem como finalidade identificar o papel da ludicidade como recurso pedagógico no contexto da EA voltada ao público infantil, analisando suas potencialidades e desafios. Portanto, pretende-se compreender de que forma as práticas lúdicas podem contribuir para a formação de sujeitos conscientes e comprometidos com a preservação do meio ambiente desde os primeiros anos escolares.
2.4 Resultados e discussão
Com base nos artigos selecionados, a presente análise foi estruturada em torno de quatro eixos principais: ludicidade como estratégia pedagógica, destacando seu papel na facilitação da aprendizagem de conteúdos ambientais. Em seguida, discutiremos como o lúdico contribui para o desenvolvimento integral das crianças e para seu engajamento nas práticas educativas. Na sequência, são exploradas as potencialidades da Educação Ambiental (EA) na Educação Infantil, considerando sua capacidade de despertar valores, atitudes e vínculos afetivos com o meio ambiente. Por fim, são apresentados os principais desafios para a efetivação da EA nesse contexto, como a formação docente e a integração curricular. Esses subtemas permitem compreender, de forma articulada, como a ludicidade pode potencializar as práticas em EA voltadas ao público infantil, revelando caminhos e limitações ainda presentes na produção acadêmica sobre o tema. A organização das categorias e subcategorias está demonstrada na Figura 2, a seguir.
Figura 2 – Organograma com as categorias e subcategorias analisadas

Fonte: Elaborado pelas autoras, 2025.
2.4.1 A ludicidade como recurso pedagógico
A ludicidade, quando compreendida como parte integrante do processo educativo, revela-se um recurso pedagógico potente, especialmente na Educação Infantil. Mais do que entreter, o brincar envolve formas singulares de expressão, comunicação e aprendizagem, conectando-se diretamente às formas pelas quais as crianças percebem, exploram e atribuem sentido ao mundo ao seu redor. Nessa perspectiva, o lúdico não atua de maneira acessória, mas como eixo estruturante das práticas pedagógicas, favorecendo a construção ativa do conhecimento. Como apontam Nascimento e Dantas (2020), "a ludicidade, como prática pedagógica, revela-se fundamental para a construção do saber", pois facilita não apenas a aprendizagem conceitual, mas também aspectos sociais e afetivos, como a criatividade e a socialização. Assim, ao integrar intencionalmente jogos, brincadeiras e experiências lúdicas ao cotidiano escolar, o educador amplia as possibilidades de aprendizagem, tornando o processo mais sensível, participativo e significativo para as crianças.
Com base nos artigos analisados, é possível identificar também uma abordagem recorrente que reconhece a ludicidade como um recurso pedagógico essencial na Educação Ambiental voltada ao público infantil. Trabalhos como os de Câmara (2017), Nascimento e Dantas (2020), e Machado (2021) reforçam que jogos, brincadeiras e atividades práticas contribuem para que as crianças atribuam significados aos conteúdos ambientais, desenvolvam ideias, pratiquem a cooperação, e construam valores aprendizagem agradável, eficiente e divertido por meio da aprendizagem de conceitos científicos, ações pedagógicas intencionais,
e que tenha como resultado da mediação lúdicas a resolução de conflitos, partilha, desenvolvimento emocional, aprendizagem de conteúdo, a criatividade e a interação. As experiências descritas destacam que o lúdico não se limita ao entretenimento, mas atua como mediador intencional do processo educativo, promovendo criatividade, imaginação e participação ativa. Além disso, estudos como os de Klein, Locatelli e Zoch (2019) e Furtado et al. (2019) apontam que o uso de brinquedos e jogos facilita a aprendizagem de conteúdo, fortalece habilidades psicossociais, e promove o desenvolvimento integral das crianças. Observa-se também que a ludicidade favorece a construção de saberes e a consolidação de processos cognitivos, como ressaltado por Silva e Cavalcanti (2020). Por fim, ao envolver as crianças de forma afetiva, simbólica e ativa no processo de ensino, as práticas lúdicas contribuem para o fortalecimento da autonomia, da consciência crítica e do engajamento com as questões socioambientais, evidenciando a relevância dessa abordagem na formação de sujeitos sensíveis e comprometidos com o meio ambiente desde os primeiros anos de vida.
2.4.2 A ludicidade como facilitadora da aprendizagem de conteúdos ambientais A ludicidade, quando integrada às práticas pedagógicas, revela-se uma estratégia eficaz para promover aprendizagens significativas na EI. Os artigos analisados indicam que as atividades lúdicas, como jogos e brincadeiras, não só tornam o processo de ensino aprendizagem mais prazeroso, como também facilitam a apropriação dos conceitos e valores ambientais pelas crianças, tornando o aprendizado mais concreto e significativo. Câmara (2017), ressalta que as atividades lúdicas possibilitam que as crianças façam relações e atribuam significados próprios aos elementos ambientais, promovendo o desenvolvimento criativo e profundo de ideias e conceitos. A autora destaca que "Cabendo o uso de atividades e ações que permitam às crianças fazer relações e atribuir significados àquilo com que toma contato nas situações de ensino aprendizagem. Atividades que ofereçam oportunidades de desenvolver suas ideias e seus conceitos dos elementos ambientais devem ser utilizadas" (Câmara, 2017, p. 70). Essa afirmação deixa claro que o lúdico ultrapassa a simples diversão, configurando-se como um meio intencional de construção do conhecimento e formação de valores.
Machado (2021) chama atenção para a importância das brincadeiras e jogos como formas de tornar o aprendizado mais atraente e eficiente. A autora observa que "as atividades lúdicas para crianças, da educação infantil, podem significar além da aprendizagem, prazer e divertimento" (Machado, 2021, p. 6). Aqui, o lúdico é percebido não apenas como recurso
pedagógico, mas também como fonte de bem-estar emocional, o que reforça a importância de práticas que unem o ensino ao prazer e à diversão.
Nascimento e Dantas (2020) enfatizam que a ludicidade favorece a construção do saber ao estimular não só a aprendizagem conceitual, mas também aspectos sociais e afetivos da criança, como a socialização e a criatividade. Os autores afirmam que "a ludicidade, como prática pedagógica, revela-se fundamental para a construção do saber" (Nascimento; Dantas, 2020, p. 4), indicando que o lúdico promove um ambiente propício para o desenvolvimento integral e participativo do educando.
O uso da ludicidade como facilitadora da aprendizagem ambiental também permite maior contextualização dos conteúdos, conectando o conhecimento científico à realidade concreta das crianças. Klein, Locatelli e Zoch (2019) defendem que, ao utilizar jogos e dinâmicas lúdicas para abordar temas como reciclagem, cuidado com a água e preservação da natureza, os educadores tornam o conteúdo mais acessível, despertando o interesse e a participação ativa dos alunos. Segundo as autoras, "o recurso lúdico permite a aproximação do saber ambiental com o cotidiano infantil, promovendo envolvimento e aprendizagem efetiva" (Klein; Locatelli; Zoch, 2019, p. 229). Essa proximidade entre o conteúdo e a vivência da criança favorece o aprendizado por meio da experiência, consolidando valores ecológicos de forma significativa e duradoura.
2.4.3 A ludicidade como promotora do desenvolvimento integral e do engajamento Da mesma forma, Santos e Cavalcante (2019) destacam que o lúdico é um instrumento institucional capaz de estimular o gosto pelo aprendizado e consolidar processos cognitivos importantes para a formação significativa. Segundo eles, "o lúdico como instrumento institucional efetivo [...] instiga a uma predisposição ao gosto pelo aprendizado" (Santos; Cavalcante, 2019, p. 3). Esse destaque revela que a ludicidade, ao incentivar o interesse e a imaginação, pode transformar a relação da criança com o conhecimento, tornando o aprendizado uma experiência desejada e prazerosa.
Já Furtado et al. (2019) aponta para o papel fundamental dos brinquedos e jogos no desenvolvimento psicomotor, afetivo e intelectual das crianças. Os autores concluem que "a atividade lúdica é, seguramente, uma das maneiras mais eficazes para o pleno desenvolvimento da criança" (Furtado et al., 2019, p. 7). Reforçando a ideia de que o lúdico não é apenas um complemento, mas um componente essencial na educação infantil, atuando de maneira integrada no crescimento global da criança.
Os estudos analisados apontam para a ideia de que a ludicidade é uma ferramenta pedagógica poderosa na Educação Infantil, que vai muito além da mera transmissão de conteúdos. Ao ser integrada intencionalmente às práticas pedagógicas, ela promove o desenvolvimento integral das crianças, abrangendo dimensões cognitivas, socioemocionais, motoras, éticas e expressivas, fundamentais para a formação de sujeitos conscientes, participativos e sensíveis.
A ludicidade contribui para que a criança compreenda o mundo de forma ativa e investigativa, possibilitando a experimentação, a curiosidade, o diálogo e a criatividade. Além disso, o êxito das práticas lúdicas está diretamente relacionado à intencionalidade do educador. Quando planejadas com propósito pedagógico claro, as atividades lúdicas tornam-se espaços de vivência, troca e construção de significados, contribuindo não apenas para o domínio de conteúdos, mas para o fortalecimento de valores, autonomia, criatividade e imaginação desde os primeiros anos de vida.
Conforme destaca Oliveira (2012), ao brincar com liberdade e autonomia, a criança constrói significados, testa hipóteses, expressa sentimentos e interage com o mundo de forma criativa e investigativa. Essa liberdade de ação contribui para o fortalecimento da identidade, do senso de responsabilidade e da capacidade de tomar decisões, habilidades essenciais para o exercício da cidadania ambiental desde a infância. Nesse sentido, o ambiente educativo que valoriza o lúdico se torna um espaço de escuta, diálogo e construção conjunta do conhecimento.
2.4.4 Potencialidades e desafios da EA para o público infantil
A ludicidade, quando integrada de forma intencional às práticas pedagógicas, apresenta inúmeras potencialidades na Educação Ambiental voltada ao público infantil. Os estudos demonstram que jogos e brincadeiras favorecem a construção de conceitos ambientais, promovem a criatividade, estimulam a imaginação e contribuem para o desenvolvimento de valores como a cooperação, o respeito e a solidariedade (Câmara, 2017; Machado, 2021). Além disso, a mediação lúdica possibilita experiências educativas que ampliam percepções, incentivam o diálogo e despertam a participação ativa das crianças no processo de aprendizagem. No entanto, apesar desses benefícios, desafios persistem. A pouca valorização do brincar no contexto escolar, a falta de formação dos educadores para planejar ações pedagógicas lúdicas e a visão limitada do lúdico como mero entretenimento ainda comprometem sua aplicação efetiva (Furtado et al., 2019). Para que essas potencialidades se concretizem, é essencial que a ludicidade seja compreendida como ferramenta estruturante da
aprendizagem, capaz de promover não apenas o domínio de conteúdos, mas também o desenvolvimento integral e a consciência ecológica desde a infância.
Segundo Nascimento e Dantas (2020), o lúdico não apenas facilita a assimilação de conhecimentos, mas também estimula o desenvolvimento da afetividade, da socialização e da criatividade, contribuindo para a formação de sujeitos críticos e sensíveis ao meio ambiente. Além disso, atividades como jogos e contação de histórias despertam o encantamento e o interesse, elementos fundamentais para o engajamento infantil nas questões ambientais.
A ludicidade mostrou-se uma aliada poderosa da Educação Ambiental na EI, pois respeita a linguagem e as formas de aprendizagem da criança. Brincadeiras, jogos, atividades práticas e narrativas simbólicas tornam-se estratégias eficazes para promover valores ecológicos, desenvolver a curiosidade e fortalecer vínculos afetivos com o meio ambiente. A presença do lúdico não apenas facilita a assimilação de conceitos científicos, como também favorece o desenvolvimento integral da criança, abrangendo aspectos cognitivos, emocionais, sociais e motores.
Entre os principais desafios identificados, destaca-se a formação dos professores, que muitas vezes não recebem preparo teórico-metodológico suficiente para articular ludicidade e EA em sua prática pedagógica. Essa lacuna formativa repercute na adoção de abordagens conteudistas e pontuais, que pouco dialogam com a vivência das crianças e reduzem as possibilidades de construção de uma consciência ecológica crítica. O fortalecimento da formação inicial e continuada dos educadores é, portanto, um passo essencial para a consolidação de uma EA mais lúdica, participativa e transformadora na infância.
Outro obstáculo recorrente é a baixa institucionalização da EA nos currículos da Educação Infantil. Muitas práticas ambientais ainda se restringem a datas comemorativas ou ações isoladas, o que compromete a continuidade e profundidade do trabalho com a temática. Para que a EA cumpra seu papel formativo, é necessário que esteja integrada ao planejamento pedagógico de forma transversal e contínua, considerando a realidade e os saberes infantis, bem como a valorização do território e da cultura local.
Por fim, conclui-se que investir na articulação entre ludicidade e Educação Ambiental na Educação Infantil é investir na formação de sujeitos mais sensíveis, críticos e comprometidos com a sustentabilidade. A infância, enquanto etapa formativa por excelência, representa uma oportunidade privilegiada para cultivar valores de cuidado, empatia e respeito ao meio ambiente. Cabe, portanto, à escola, aos educadores e às políticas públicas fortalecer essa
integração, ampliando o repertório de experiências significativas que contribuam para a construção de um futuro mais justo, ético e ambientalmente responsável.
Abstract
This study aims to analyze how playfulness can contribute to the teaching and learning of Environmental Education in Early Childhood Education, based on a review of scientific articles. The research adopts a qualitative approach, with an emphasis on content analysis, through the categorization of data extracted from ten scientific articles selected according to previously defined criteria. The analysis revealed that the use of playful activities, such as games, storytelling, songs, and play, significantly contributes to the construction of environmental values, as well as to the development of attitudes of care, empathy, and respect for nature among children. In addition, it promotes active participation in the educational process. The results show that playfulness, when intentionally integrated into the Early Childhood Education curriculum, enhances the teaching of Environmental Education, fostering meaningful learning. The study also highlights the need for continuing teacher education so that educators are prepared to use playful practices grounded in both pedagogical and environmental principles.
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