Palavras-chave
violência na escola; mediação de conflitos; cultura de paz
Autores
A Constituição Brasileira (art. 205) identifica os responsáveis pela educação e formação cidadã das crianças e adolescentes, sendo do próprio Estado, a família e a sociedade essa responsabilidade. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB – 9394/96) também traz à luz as responsabilidades da família em primeiro lugar, seguida do Estado, porém, sem mencionar a sociedade (art. 2º). O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – 8069/90), também versa sobre os direitos da criança e adolescente, os deveres da família e sociedade, responsabilizando os deveres do Estado ao atendimento educacional em diversos níveis, modalidades e condições (art. 53).
O exercício da cidadania é citado em todos esses documentos como meta para a educação brasileira. Reforça a formação para o trabalho, de forma que está intrínseca nos sistemas de educação pública, em suas metas e na execução efetiva dos seus Planos de Educação. Seja qual for a instância e/ou entes federativos, os Planos de Educação têm o dever de zelar pela formação cidadã de crianças e adolescentes, como corresponsáveis pela formação dessa população infantojuvenil.
A escola pública, por sua vez, representa o poder do Estado na efetivação das políticas de formação básica da criança e do adolescente, sendo a gestão democrática escolar um princípio fundamental da educação que visa envolver ativamente as famílias na formação discente. No entanto, sua efetivação pode ser complexa e exige formação e dedicação no enfrentamento a desafios como conflitos e desigualdades de todas as formas, sobretudo, sociais e culturais.
É papel da escola, através da gestão democrática escolar promover o envolvimento das famílias na educação de seus filhos e as estratégias eficazes para superarem as dificuldades dessa interação. A gestão democrática não apenas fortalece o papel das famílias na escola, mas também enriquece o ambiente educacional, promovendo uma parceria construtiva entre educadores, estudantes, famílias e toda a comunidade envolvida.
No ambiente escolar, entretanto, há inúmeros temas geradores de conflitos e que poderão proporcionar enriquecimento cultural e contribuir para a formação educacional dos estudantes. Contudo, temas conflitantes podem ser tensos e algumas vezes, até desencadear reações agressivas e/ou desrespeitosas no ambiente escolar, considerando as diversidades representadas nesse espaço, tais como gênero, religião, grupos étnicos, sociais etc.
A escola poderá contribuir na formação crítica e cidadã sobre a mediação de conflitos inerentes aos choques culturais, religiosos, sexistas, de gênero, entre outros com a mediação e participação dos envolvidos de forma pedagógica, contribuindo para a formação a partir do respeito às diferenças e valorização das diversas formas de perceber o mundo com novas perspectivas. O diálogo poderá ser uma ferramenta fundamental para o respeito mútuo e a formação da cidadania, não apenas dos envolvidos em cada conflito, sobretudo, para a formação coletiva e o fortalecimento da comunidade escolar.
A partir da reflexão de frequentes casos de violência escolar exemplificados pelas mídias, nos dispomos a pesquisar sobre esses conflitos, apontando possibilidades de mediar e buscar soluções dialéticas com a valorização das diferentes perspectivas e culturas. Trazemos para o foco da discussão, a figura do mediador de conflitos, figura neutra, respeitosa, que passa a ouvir e proporcionar a escuta de ambas as partes. mediador de conflitos. Para tanto, neste trabalho, objetivamos analisar essa figura que prioriza o diálogo como estratégia para minimizar os casos de violências na condução de uma Cultura de Paz para o ambiente escolar e a partir desta análise. Nesse sentido teremos tivemos como etapas: 1. classificar tipos de violências já identificadas no ambiente escolar; 2. apontar estratégias para intervir nos conflitos e violências insurgentes no ambiente escolar, visando uma Cultura de Paz.
1 DESENVOLVIMENTO
1.1 Referencial teórico
Neste trabalho, fizemos uma revisão bibliográfica que aborda o campo temático acerca dos conceitos de violência na escola, mediação de conflitos, cultura de paz e gestão escolar. Autores como Silva, Almeida e Almeida, 2022; Silva, 2017; Spengler, 2021; Eller: 2019; Freire, 1994 e 2024 entre outros, já discutem sobre violência na escola, mediação de conflitos, cultura de paz e gestão escolar, nos trazendo experiências importantes a serem discutidas sob a perspectiva da inclusão social.
1.1.1 As diferentes formas de conflitos e violências na escola
Iniciaremos por analisar os conflitos e as manifestações de violências no espaço escolar que há muito tempo é objeto de discussão. Para tanto, faremos uma reflexão acerca das estratégias pedagógicas e da própria gestão escolar, considerando a repercussão dos conflitos internos e externos à escola que, porém, repercutem dentro dela e podem refletir seus desdobramentos sociais, das diferenças, da violência, disputa de territórios, tráfico etc.
Nesse cenário, as violências geram e intensificam incertezas, impulsionam desgastes nas relações de convivência e as sufocam, sendo materializadas de várias formas, como agressões, insultos diversos, danos e depredações do patrimônio público. Quando não, os(as) estudantes se desmotivam, fazendo valer comportamentos que os(as) aterrorizam e os(as) maltratam, reverberando em atitudes que afastam a sociabilidade e comprometem o próprio processo de ensino-aprendizagem (Silva, Almeida e Almeida, 2022, p.304).
Como bem contextualizam as autoras, as diversas formas de materialização das violências afetam o desenvolvimento das aprendizagens e desestabilizam o ambiente escolar. Isto causa insegurança e desmotivação dos estudantes, professores e toda a comunidade escolar, pois fragiliza o trabalho de ordenamento das atividades, sejam administrativas ou pedagógicas.
Sabemos que os estudantes precisam se identificar com a escola, já que a inclusão social perpassa pelas relações étnico-raciais, sexistas, de gênero e de várias outras possibilidades. No convívio democrático e saudável, o exercício do respeito e valorização das diferentes culturas são partes da práxis do cotidiano escolar. Por isso, há que se buscar um sentimento de pertencimento para que os estudantes possam sentirem-se parte da escola.
A escola é o espelho da comunidade e por isso, pode também, se tornar um ambiente hostil, caso não haja a integração e o sentimento de pertença. É preciso uma ação eficaz com intervenção e, sobretudo, mediação dos conflitos insurgentes. Um grande desafio para a gestão e coordenação pedagógica que deverá lidar com as diferenças tanto quanto com as diversas culturas que coabitam o ambiente escolar.
Lançar olhares sobre a escola é partir do pressuposto de que ela é um espaço dinâmico, um lugar sociocultural que abarca duas dimensões: por um lado, é uma instituição pautada por regras e normas que a tornam um sistema escolar; por outro, é constituída por sujeitos imersos em redes de relações, tramas sociais de acordos, confrontos e interesses, espaços de apropriação constante de práticas e saberes entre a instituição e os indivíduos. A escola é, portanto, um espaço sociocultural (Silva; Almeida; Almeida, 2022, p.303).
Significa, portanto, que é fundamental que a gestão escolar perceba quais grupos sociais compõem a comunidade escolar e quais são suas origens e seus costumes. É interessante que a gestão esteja atenta para as reproduções culturais desses grupos que repercutem no convívio escolar. Haja vista que, quando esses grupos convivem em um mesmo espaço, poderão ou não estabelecer novas regras de convivência e novos desafios, também. Um olhar atento acerca dessas experiências poderá contribuir para a mediação dos conflitos que emergem justamente dos choques culturais e do convívio social.
À escola, cabe compreender os conceitos de conflitos escolares, e identificar as inúmeras maneiras de classificar os conflitos, a fim de contribuir com o entendimento do problema, conduzir a mediação como alternativa potente e viável para a diminuição da violência escolar e, identificar questões que devam ser consideradas quando a escola se propõe a implantar um programa de mediação escolar do conflito.
A grande maioria desses conflitos evoluem para classificações de violências. Estas possíveis de serem identificadas,
Para isso, discriminam-se as diversas situações existentes de violência dentro das escolas, como: violência contra a pessoa, expressa verbal ou fisicamente; as ameaças, brigas, violência sexual, a coerção mediante o uso de armas; violência contra a propriedade: furtos, roubos, assaltos; violência contra o patrimônio, especificamente o vandalismo e a depredação das instalações escolares. (Silva, 2017. p. 34).
Cabe à gestão e à coordenação escolar, lidar diariamente com algumas dessas diversas questões de violência que variam de escola para escola a depender de outras variantes como: a geográfica, econômica, social, cultural e de outras origens. Gestão e coordenação escolar concentram inúmeras funções que muitas vezes se distanciam de suas atribuições pedagógicas para priorizar metas, desempenhos de proficiência e outras cobranças sociais que se tornam prioridades à convivência e as relações interpessoais.
Os diversos tipos de violências podem ser identificados em diferentes escolas e variam entre as ameaças às formas mais graves, como infelizmente, já foram registradas em algumas situações mais extremas. As ameaças, por exemplo, podem se apresentar de diferentes, formas, em diferentes contextos, em diferentes níveis de gravidade, até a concretização do objeto ameaçado. Podem ser relatadas entre estudantes, famílias, estudantes e professores, professores e estudantes, inclusive com envolvimento de terceiros, gerando constantemente, um clima de insegurança a todos os envolvidos, causando tensões constantes.
Infelizmente, as brigas têm se tornado eventos corriqueiros em algumas realidades escolares, caminhando para a banalização e, em determinadas situações, compreendidas como forma de mediação. Silva, 2017, ao analisar elementos e dados acerca de pesquisa sobre violência escolar realizada em três escolas, com coleta de depoimentos de estudantes, professores e membros da comunidade escolar em duas escolas municipais e uma estadual do Estado do Ceará, relata:
Vale enfatizar, portanto, que os dados quantitativos e qualitativos sugerem a prevalência, entre os alunos, de um padrão de comportamento, que descarta o recurso à autoridade policial ou à ajuda familiar em favor do exercício privado da violência, praticada em grupo, o que pode estimular a disseminação de atitudes favoráveis a novos confrontos. Esse padrão de reação a agressões e/ou enfrentamentos violentos entre terceiros, parece ser um importante componente de uma cultura que incorpora a própria violência ao universo dos alunos, manifestando-se, seja como prontidão ou estado de alerta diante das ocorrências, seja como efetivo envolvimento nos eventos violentos (Silva, 2017. p. 38).
É notório que a cultura da violência tem ganhado espaço nos ambientes escolares, dando lugar ao medo e às tensões. O clima de insegurança é fomentado por constantes intrigas, ameaças e brigas tanto nas salas de aulas, nos espaços coletivos, corredores, pátios e em qualquer dependência das escolas, assim como, no entorno delas. Os resultados das análises retratam, principalmente escolas periféricas, onde o poder público se abstém de políticas preventivas e de repressão às diversas formas de violência. Muitas vezes, seguidas de crimes e/ou iniciações para outras formas de ilicitudes.
Também podemos identificar situações constrangedoras, insinuações, olhares de diversas formas que configuram violências sexuais, como identificou a autora:
Nesta pesquisa, enfatiza-se como violência sexual, todas as formas de intimidação sexual, como: olhares, gestos, piadas, comentários obscenos, exibições e de abusos, como: propostas, insinuações, contatos físicos aparentemente não intencionais e também, fofocas, frases, desenhos nas carteiras e banheiros (Silva: 2017 p. 39).
Situações como estas, na maioria das vezes, são banalizadas e normalizadas por todos/as, inclusive por professores e gestores. É importante trazer à luz ações e atitudes sexistas que intimidam e expõem, principalmente, meninas às diversas formas de violências sexuais e vexatórias que perpassam pelas discriminações e violências materializadas de diversas formas, contribuindo para as violências de gênero e sexistas nas escolas.
Assim, de alguma forma, reproduzem-se a cultura da violência sexista e que se perpetua nos espaços escolares. Sobre essas questões, Silva (2017 p. 39) nos diz que "brincadeiras e comentários jocosos", podem ser dirigidos pelos alunos aos professores e vice-versa, dando continuidade a observações e comentários sobre atributos físicos, feitos durante as aulas". Além de diferentes formas de situações inconvenientes e intimidadoras, há um local predominantemente propenso às diversas formas de violências sexuais: o banheiro escolar. Um ambiente que originalmente deveria proteger e proporcionar conforto e segurança, tem sido cada vez mais citado como inseguro e propenso à diversas formas de exposição e vulnerabilidade. Os banheiros de meninos e meninas são inseguros e podem tornar-se ambiente indesejado para evitar desde um simples constrangimento às mais intimidadoras violências sexuais.
O uso de armas também está entre os mais graves registros de violências e têm significados que nos fazem refletir sobre os rumos da própria sociedade e culturas que se desenvolvem nos convívios sociais:
(...) é comum na literatura que, o uso de armas, ganhe significado de símbolo de poder com marcas de gênero, ou seja, de demonstração de masculinidade. Mas registra-se principalmente que as armas são usadas no ambiente escolar para intimidação física e, segundo alguns alunos, "para defesa" (Silva: 2017. p. 40).
É notório que o uso de armas de qualquer tipo, como: punhais, facas, estiletes, ferros pontudos, tesouras, armas de brinquedo, e até mesmo, armas de fogo, têm um significado simbólico que objetivam intimidar a partir da demonstração de força. A violência simbólica impera muitas vezes e a subjetividade de mostrar ou insinuar o porte de uma arma de qualquer tipo gera uma suposição de poder ou superioridade que, na maioria das vezes está diretamente ligada à demonstração machista e, portanto, sexista como símbolo fálico da suposta superioridade.
1.1.2 Concepções de mediação de conflitos
Segundo Fagundes Cunha (in Gênesis, 2016, p. 240), "no decorrer do período monárquico e nos primórdios da República, o direito brasileiro conheceu, pois, a busca da prévia conciliação entre as partes visando a preservação da paz e o afastamento da eternização das lides judiciais". O que nos indica que na história do Brasil, a tendência para buscar alternativas já nascia junto com a noção de nacionalidade.
Mergulhados em diferentes formas de conflitos e violências identificadas nos espaços escolares, propomos a busca de formas de abordagens e diferentes ferramentas que possibilitem lidar e coibir as violências insurgentes cada vez mais nos ambientes escolares e propomos uma discussão sobre as formas de mediação de conflitos.
O Direito tem tratado os conceitos de mediação proveniente do latim das concepções de formulação do próprio Direito Civil enquanto ciência e instrumentos de arbitragem e também nas discussões de Direitos Humanos. Cada vez mais esse conceito tem tomado outros rumos e outros campos de aplicação com a ideia de inclusão de uma terceira parte nas questões conflituosas nas quais as partes iniciais não conseguem consenso.
O termo "mediação" procede do latim mediare, que significa mediar, intervir, dividir ao meio. Derivada da palavra mediare é também a expressão mediatione e toda uma série de outras palavras. A palavra mediação evoca o significado de centro, de meio, de equilíbrio, compondo a ideia de um terceiro elemento que se encontra entre os conflitantes, não sobre, mas entre eles. Por isso, a mediação é vista como um processo em virtude do qual um terceiro (o mediador) ajuda os participantes de uma situação conflitiva a trata-la, o que se expressa em uma solução aceitável e estruturada de maneira que permita ser possível a continuidade das relações entre as pessoas involucradas no conflito (Haynes, 1993 apud Spengler, 2021, p. 20).
A autora nos traz à luz do Direito sobre a qual a expressão surge e se emprega até hoje. É importante definirmos as concepções pelas quais nortearemos o diálogo sobre a mediação como estratégia de litígio, de forma conciliadora e propondo aos autores dos conflitos a refletirem sobre as demais perspectivas do mesmo tema conflituoso. O mediador de conflitos na escola tem o dever de conduzir as partes de forma não autoritária, respeitando as decisões das partes, garantindo os princípios democráticos de uma gestão de conflitos.
(...) uma forma consensuada de tratamento do litígio, uma vez que o terceiro mediador tem um "poder de decisão limitado ou não autoritário, e que ajuda as partes envolvidas a chegarem voluntariamente a um acordo, mutuamente aceitável com relação às questões em disputa" (Spengler, 2021, p 21).
Desta forma, segundo a autora, no campo do direito, há uma grande atenção com a mediação. O mediador preocupa-se com as condições, o bem-estar e com os próprios mediados. Só assim, plenamente compreendendo a situação conflituosa, os mediados terão capacidade para refletir, dialogar e negociar sobre o próprio conflito no qual estão inseridos. A cooperação passa pelo respeito às diferenças e culturas dos envolvidos. A garantia de direitos dos envolvidos é fundamental para a credibilidade do mediador, assim como da confiança pelas partes envolvidas da garantia dos princípios democráticos.
1.1.3 A mediação de conflitos no ambiente escolar para a cultura de paz
Tendo em vista os quatro pilares da educação apresentados pelo relatório de autoria de Jacques Delors (2003), à UNESCO: aprender a ser, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a aprender a escola tem um imenso desafio de dialogar entre essas diferentes dimensões de aprendizagens. A escola tem um imenso desafio de além das concepções pedagógicas e dos conceitos científicos de diferentes áreas do conhecimento humano, dos Componentes Curriculares e das proficiências, desenvolver essas dimensões que estão muito além do currículo escolar e das matrizes curriculares de ensino. Para além de tudo isso, fomos também convidados a vivenciar a Cultura de Paz.
A Assembleia Geral das Nações Unidas, reunida em Paris para a celebração do 50º Aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1999, um grupo de prêmios Nobel da Paz, redigiram o Manifesto 2000 por uma Cultura de Paz e Não-Violência que proclamou o ano 2000 como o Ano Internacional por uma Cultura de Paz. A UNESCO foi a responsável pela coordenação das atividades de comemoração do Ano Internacional por uma Cultura de Paz. Para isso, os princípios de respeito, liberdade, justiça, democracia, Direitos Humanos, tolerância, igualdade e solidariedade são prerrequisitos mínimos para pensarmos em Cultura de Paz que, no entanto, nos distanciamos cada vez mais.
No ano de 2023 houve registro de aumento expressivo de registros de violência no ambiente escolar. Segundo os dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), "por meio do Disque 100, registrou 9.530 denúncias – um aumento de cerca d+96e 50% em comparação ao período anterior, quando mais de 6,3 mil denúncias aconteceram. (Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania" (MDHC, 03/11/2023).
A escola tem cada vez mais absorvido conflitos internos e externos que naturalmente estão sendo introduzidos ao ambiente escolar e que impactam no desempenho, na aprendizagem e nas relações afetivas dos que convivem no ambiente e na comunidade escolar. Desta forma,
Cabe ressaltar que o conceito da paz não é o contrário da guerra, mas a prática da não violência para mediar conflitos, a prática do diálogo na relação entre os indivíduos, a postura democrática diante da vida, que implica na dinâmica da cooperação planejada e no movimento constante da instalação de justiça. Uma cultura de paz pressupõe esforço para modificar o pensamento e a ação das pessoas, no sentido de sua efetivação (Eller: 2019 p. 19).
Portanto, a mediação, o diálogo, a escuta e compreensão dos fatores que conduzem à violência e aos conflitos de forma geral, perpassam pelo ato de ouvir, perceber os indivíduos, valorizar as ações e respeitar as falas. A Cultura de Paz é um ato de não-violência! É a recusa pela barbárie e pelas ações impensadas e desrespeitosas dentro de um ambiente que visa o crescimento e o desenvolvimento humano.
Além disso, a mediação faz-se necessária para que crianças e jovens aprendam a conviver em diferentes contextos, com diferentes concepções e na diversidade de pensamentos, escolhas e vivências. Tudo transita pelo respeito mútuo das vivências e das escolhas de cada um. As diferenças sempre existirão, portanto, respeitá-las é uma maturação da convivência social.
Desta forma, a mediação transita pelo diálogo, pela escuta e pela aceitação do outro. Sobre isso, compreendamos o diálogo segundo Paulo Freire:
E que é o diálogo? É uma relação horizontal de A com B. Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade (Jaspers). Nutre-se do amor, da humildade, da esperança, da fé, da confiança. Por isso, só o diálogo comunica. E quando os dois polos do diálogo se ligam assim, com amor, com esperança, com fé um no outro, se fazem críticos na busca de algo. Instala-se então, uma relação de simpatia entre ambos. Só aí há comunicação. (Freire, 1994, p.115).
Percebemos pela experiência de Freire que a dialogicidade pode nos render bastante. Nos faz crescer como seres humanos e humaniza a educação. O diálogo como parte fundamental da mediação de conflitos e da Cultura de Paz. Ouvir e ser ouvido são condições para mediar qualquer conflito e, portanto, indispensável para qualquer experiência neste sentido.
A mediação dos conflitos requer regras que devam coexistir com os padrões de respeito às partes envolvidas, tornando-a impossível sem o devido olhar para ambas as partes, considerando o objetivo de manutenção da pacificação. Todos devem ser ouvidos e respeitados em seus diferentes pontos de vista, respeitando, também, às regras de convivência e a legislação vigente.
O/a mediador/a de conflitos é uma figura ímpar que dialoga, obedecendo a todas as regras de convivência, respeito às diversidades e às linguagens trazidas por todos da comunidade escolar, visando o bem comum, respeitando os Direitos Humanos e a Cultura de Paz.
1.1.4 Concepções de Gestão Escolar
Consideremos as diferenças dos termos que designam o dirigente escolar variável, de acordo com suas concepções e recortes históricos. Contudo, suas terminologias têm se aproximado das mesmas que designam dirigentes de empresas, não por acaso. Isso é importante ressaltarmos para compreendermos essas aproximações e significados de terminologias do campo empresarial na administração escolar. Contudo, termos diversos foram e são utilizados concomitantemente, dependendo das influências conceituais que orientam determinadas escolas e/ou sistemas de ensino.
Há ao longo da história da educação, oscilações dos usos dos termos administrador escolar e gestor escolar e por isso, faz-se necessário compreendermos suas diferenças.
Para pensarmos a lógica atual da Gestão Escolar, retomamos o termo inicial dado a esse profissional 3 Administrador Escolar. A terminologia da administração configurava em seu escopo a capacidade de controle, de agir com autoridade, visando obter o melhor resultado. As evidências da utilização desse termo se fizeram presentes desde o Egito antigo, antes mesmo de se pensar em empresas e organizações. (Dias, 2002 in Paschoalino, 2025 p. 82).
Portanto consideremos o administrador, o responsável pela condução e controle de forma autoritária, visando o melhor resultado, mesmo que vise resultados e produtividade, incluindo estratégias administrativas e conceitos de organização. Todos espelhados em metologias administrativas.
Matos e Pires (2006) destacaram que a Administração começou a se constituir como ciência a partir de Frederick Winslow Taylor (1856-1915), na segunda Revolução Industrial. Taylor (1978) apresentou sua teoria de administração alicerçada na racionalidade, na hierarquia, na padronização, fragmentação das tarefas com a intenção de buscar a máxima produtividade (Paschoalino, 2025 p. 82).
Taylor considerava que motivações salariais, com prêmios financeiros motivariam melhor os trabalhadores. Essa teoria ganhou espaço também na educação que espelhou a proposta da administração em incentivos de diversas formas, assim como, também financeiro. A escola ficou cada vez mais parecida com as empresas, espelhando sua disciplina, organização e hierarquia. Contribuindo e acrescentando à ideia de Taylor, também a teoria clássica de Fayol contribuiu para a concepção de administração:
A Teoria Clássica de Fayol complementou o trabalho de Taylor, substituindo a abordagem analítica e concreta de Taylor por uma abordagem sintética, global e universal. Propôs a racionalização da estrutura administrativa e a empresa passa a ser percebida como uma síntese dos diversos órgãos que compõe a sua estrutura. A preocupação maior de Fayol é para com a direção da empresa dando ênfase às funções e operações no interior da mesma. Estabeleceu os princípios da boa administração, sendo dele a clássica visão das funções do administrador: organizar, planejar, coordenar, comandar e controlar. (Matos; Pires, 2006, p.509 in Paschoalino, 2025)
Juntas, as concepções expressam a ideia da administração, focada no desdobramento das funções de produção. Assim como na linha de montagem. Na fragmentação dos corpos para a montagem final do produto. A concepção de administração escolar e administração pública ganhava corpo cada vez mais a partir das divisões de tarefas com o único objetivo de finalizar um "produto" com qualidade.
As divergências de pensamentos também refletiam as diferentes concepções políticas de como deveria ser a administração pública. As ideias de liberdade e democracia, direitos e partilha de deveres, ao mesmo tempo que permeavam as concepções políticas dos poderes públicos, também começaram a incomodar agentes da administração pública, assim como nas influências e concepções da práxis da administração pública.
Sobretudo, na efervescência dos anos 1980, com os rompantes da democracia, da eleição para presidente, também se discutia a eleição para gestores escolares, inclusive, com o uso do termo gestor em diversas esferas da administração pública. O termo gestão fora cada vez mais utilizado de forma a ampliar as concepções de administração pública para a compreensão de diálogo e aspectos democráticos dessa administração, inclusive, a partir da etimologia da palavra:
[...] levar sobre si, carregar, chamar a si, executar, exercer, gerar. Trata-se de algo que implica o sujeito e um dos substantivos derivado deste verbo nos é muito conhecido. Trata-se de gestatio, ou seja, gestação isto é: o ato pelo qual se traz dentro de si algo novo e diferente: um novo ente. Ora, o termo gestão tem sua raiz etimológica em ger que significa fazer brotar, germinar, fazer nascer. Da mesma raiz provêm os termos genitora, genitor, gérmen. A gestão, neste sentido, pode, por analogia, ser comparável àquela pela qual a mulher se faz mãe ao dar a luz a uma nova pessoa humana (Cury, 2009, p.21 in Paschoalino, p. 88).
Considerando um termo que representa não apenas uma concepção, mas sobretudo, uma filosofia que é a democracia que na sua realização, concretiza-se na práxis do diálogo, da escuta, do respeito, dos direitos respeitados e do fazer coletivamente, o termo gestor escolar já engloba por si só todas essas concepções. Nele está contido o conceito de liderança através do diálogo e respeito às diferenças étnicas, de gênero, políticas, religiosas etc.
1.2 Metodologia
Realizamos uma pesquisa qualitativa com abordagem interpretativa, através de revisão de bibliografia, pela plataforma da Biblioteca Virtual Minha Biblioteca - UPE e o acervo da biblioteca física através do portal Pergamum a partir das palavras-chaves: conflitos, violência na escola, mediação de conflitos, cultura de paz e pelo google acadêmico com grande disponibilidade de artigos afins.
Utilizamos a pesquisa qualitativa com abordagem interpretativa que, por sua vez, é "realizada em áreas na qual há pouco conhecimento acumulado e sistematizado. Por sua natureza de sondagem, não comporta hipóteses que, todavia, poderão surgir durante ou ao final da pesquisa" (Vergara, 2009, p. 42).
Uma lista preliminar de aspectos da pesquisa qualitativa:
* Apropriabilidade de métodos e teorias
* Perspectivas dos participantes e sua diversidade
* Reflexibilidade do pesquisador e da pesquisa
* Variedade de abordagens e de métodos na pesquisa qualitativa
(Flick, 2009. p. 23).
Observamos que os critérios da pesquisa qualitativa objetivam verificar se as descobertas estão pautadas em material empírico, ou se a metodologia foi selecionada e aplicada de forma adequada, dando relevância às descobertas e à flexibilidade dos procedimentos. Mais importa, desenvolver descobertas a partir de teorias empíricas que testar teorias já desenvolvidas.
A partir das leituras de experiências já vivenciadas e da revisão bibliográfica, analisamos os posicionamentos de diferentes autores acerca da temática discutida. Os diálogos entre eles com uma abordagem analítico-discursiva com destaques e abordagens ao tema mediação de conflitos para uma Cultura de Paz. A proposta é trazer ferramentas que possam ser úteis na dissolução de violências com a figura do mediador de conflitos com ênfase à dialética, contribuindo para uma Cultura de Paz.
2 CONCLUSÃO
Para uma gestão escolar, os desafios e os conflitos são parte significativa do trabalho diário, sobretudo, para algumas realidades e contextos culturais de forma que é inegável que o/a gestor/a e/ou coordenador/a escolar estejam atentos para os conflitos e diferenças sociais, culturais e econômicas. Esses são alguns dos principais motivadores dos conflitos insurgentes no ambiente escolar. As diversas formas de diferenças sociais, étnicas, físicas e culturais devem ser motivo de atenção incansável das equipes pedagógicas e administrativas da escola.
Várias áreas do conhecimento já versam sobre a temática, sobretudo o Direito Judiciário e os Direitos Humanos. Afinal, os conflitos escolares são reflexos das vivências sociais, culturais, entre outras, portanto, já estão presentes nas comunidades e relações sociais dos nossos estudantes. Os conflitos, por sua vez, são inerentes à condição humana e por si só, compõem elementos saudáveis e importantes para percebermos as diferenças socioculturais.
Os conflitos não estão alheios ao convívio dos que constroem a comunidade escolar. Ao contrário, todos os envolvidos estão e são parte deles de alguma forma. Portanto, a escola não deve marginalizar os atores conflitantes, mas sim, acolhê-los, convidá-los e torná-los participantes do convívio e da práxis escolar, construindo novos caminhos e novas perspectivas para uma Cultura de Paz. A partir dos conflitos, encontramos novos caminhos e novas soluções. Com essa perspectiva, uma política de mediação de conflitos pode contribuir para uma melhor forma de convidar as partes envolvidas para uma reflexão acerca dos próprios atos, na construção e exercício da cidadania, contribuindo para uma política de Cultura de Paz nos espaços escolares.
O/a mediador/a pode trazer uma visão apaziguadora, sendo ele/a alguém com uma linguagem equilibrada, e sobretudo, apartidária. Importante também, reforçar que a abordagem e a escuta são fundamentais para que essa importante ferramenta – a mediação, seja respeitosa a ambas as partes e que a todos sejam dadas oportunidades de fala e escuta. Um exercício de cidadania e respeito mútuo, como deve ser o papel da educação escolar. A mediação nos ensina o respeito aos turnos de fala, à visão do outro e ao direito à defesa de cada uma das partes.
É importante nos reportarmos aos quatro pilares da educação para o século XXI, à UNESCO (Delors, 2003) no qual nos são apresentados os quatro pilares para a educação básica: aprender a ser, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a aprender. Um aprendizado constante para eles e para nós que precisamos redefinir alguns conceitos e condutas diante de dificuldades gigantescas como promover uma Cultura de Paz para o ambiente escolar. O que não significa uma utopia de acreditar na ausência de conflitos.
Quando compreendermos que as divergências podem, inclusive contribuir com a formação daquilo que somos e com a construção da cidadania, encontraremos um caminho para a consolidação de uma educação para o respeito, e formação de jovens e adultos aptos a lidar com diferenças e conflitos de forma madura e equilibrada.
Abstract
This text addresses an approach to conflict mediation in the school environment. The objective is to research these conflicts, pointing out possibilities for mediation and seeking dialectical solutions that value different perspectives and cultures. The methodology consists of a bibliographic review, using a qualitative approach to concepts that permeate the theme, highlighting the possibilities of interventions in the school environment. As an analysis strategy, we start from the idea of reflecting on conflict mediation, considering that this concept is based on the principle of dialogue as a mediation tool, respecting differences and providing opportunities for diversity. We will bring to the discussion the authors: Silva, Almeida and Almeida, 2022; Silva, 2017; Spengler, 2021; Eller: 2019; Freire, 1994 and 2024. This dialogue will lead us to the perspective of the Culture of Peace proposed by the UN. The result indicates that mediation is an effective strategy that makes it possible to find efficient paths from a democratic perspective and with human respect, in the construction of citizenship and intellectual growth.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: texto constitucional promulgado em 5 de outubro de 1988, com as alterações determinadas pelas Emendas Constitucionais de Revisão nos 1 a 6/94, pelas Emendas Constitucionais nos 1/92 a 91/2016 e pelo Decreto Legislativo no 186/2008. – Brasília: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2016. 496 p.
BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). Disque 100: 2023 registra aumento de cerca de 50% para violência nas escolas. Publicado em 03/11/2023. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202311/disque-100-2023-registra-aumento-de-cerca-de-50-para-violencia-nas-escolas Acesso em 30/01/24.
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