Palavras-chave
História da educação; Gênero; Trabalho
Autores
1 INTRODUÇÃO
Este artigo insere-se no campo da História da Educação, com ênfase nas experiências de mulheres educadoras em contextos rurais nordestinos ao longo do século XX, e no campo da História das Mulheres, ao analisar as contribuições de figuras femininas para o desenvolvimento social e educacional. Analisa a trajetória de Maria de Souza Campos (1919–2007), conhecida como Dona, figura emblemática da cidade de Japaratuba/SE. Dona atuou como professora por mais de sete décadas, mesmo com formação formal limitada, consolidando uma autoridade pedagógica pautada na disciplina, religiosidade, afetividade e cultura popular.
O objetivo desse texto é compreender a trajetória da professora Dona, e analisar como ela construiu autoridade pedagógica e prestígio moral por meio de suas práticas, desafiando estruturas patriarcais e tornando-se um símbolo de liderança educacional e comunitária em Japaratuba/SE.
A investigação busca, assim, compreender como Dona articulou práticas tradicionais com valores morais e comunitários, afirmando-se como liderança educacional em um cenário marcado por desigualdades de gênero. O estudo também dialoga com os contextos históricos em que ela viveu: da Primeira República à redemocratização, passando por regimes autoritários e políticas educacionais centralizadoras.
Nossa pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, fundamentada em informações obtidas via comunicações e dados existentes tais como informações de Jorge Ramos, ex-aluno e curador da página @japa_retro_com_jorgeramos, com dados obtidos via sua conta no Instagram e comunicações privadas em 2025. A análise se alicerça nos referenciais da história das mulheres (PERROT, 1998; DEL PRIORE, 2014) e dos estudos de gênero e educação (BEAUVOIR, 1980;)
É nesse cruzamento entre política e cultura que se desenha a paisagem na qual Maria de Souza Campos lecionou, sua prática pedagógica, ainda que tradicional em muitos aspectos, foi marcada pelas influências de um contexto autoritário e moralizante, como também por sua sensibilidade à cultura local e ao vínculo comunitário.
2. CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL NO BRASIL DO SÉCULO XX: POLÍTICA, MORAL E REPRESENTAÇÕES FEMININAS
No Brasil, o século XX foi marcado por profundas transformações políticas e culturais que impactaram a educação, as relações de gênero e a forma como as mulheres eram representadas nos espaços públicos, especialmente pela imprensa. A trajetória de Maria de Souza Campos insere-se nesse contexto, marcado pela tensão entre tradições locais e os efeitos de projetos nacionais de modernização.
Nascida em 1919, Dona viveu sob os efeitos da Primeira República (1889–1930), período caracterizado pela concentração de poder nas elites rurais, altos índices de analfabetismo e forte vínculo entre Igreja, família e moralidade. A modernização republicana mostrou-se seletiva: enquanto o discurso oficial defendia o progresso, grande parte da população permanecia excluída da cidadania. Para as mulheres, predominavam expectativas de obediência, silêncio e dedicação ao espaço doméstico.
Nesse contexto, a educação feminina não era concebida como instrumento de autonomia, mas de funcionalidade social. Como destaca (FREITAS apud SANTOS, 2022, p. 55), a educação das mulheres estava vinculada à modernização da sociedade, à higienização da família e à formação de futuros cidadãos. A escola, portanto, desempenhava um papel duplo: formar sujeitos úteis ao projeto social e, ao mesmo tempo, reforçar papéis tradicionais de gênero. A imprensa sergipana, majoritariamente masculina, também contribuía para essa construção, ao representar o feminino a partir de um olhar que o restringia ao espaço privado (SANTOS, 2022, p. 117).
Mesmo quando participavam como leitoras ou autoras, as mulheres enfrentavam controle moral e limitações temáticas, sendo frequentemente direcionadas a escrever sobre religião, maternidade e vida doméstica. Aquelas que abordavam política, educação ou cidadania desafiavam normas culturais e encontravam resistência. Com a ascensão de Getúlio Vargas em 1930 e a instauração do Estado Novo (1937–1945), consolidou-se um projeto autoritário de nacionalidade, no qual civismo, ordem e trabalho se tornaram centrais, reforçando o papel disciplinador da educação na formação de identidades.
Nesse período, a educação assumiu função estratégica na construção da identidade nacional, promovendo o controle do corpo, da fala e do pensamento, enquanto o papel feminino permanecia limitado à maternidade e à manutenção da moral familiar. Apesar da conquista do voto em 1932, a participação política das mulheres continuou restrita. Ao mesmo tempo, práticas culturais e religiosas foram mobilizadas como instrumentos de difusão de valores nacionais, ainda que manifestações populares locais persistissem. Esse cenário ajuda a compreender o contexto em que educadoras, especialmente em áreas rurais de Sergipe, atuaram como mediadoras entre valores tradicionais, religiosidade e as contradições entre o projeto nacional e a realidade social.
3. DA INFÂNCIA EM CAPELA/SE À CONSTRUÇÃO DE UMA EDUCADORA EM JAPARATUBA/SE
A trajetória de Maria de Souza Campos teve início na cidade de Capela, interior de Sergipe, onde nasceu em 1919 e viveu uma infância marcada pelas duras condições da vida rural e pelo trabalho precoce. Ainda menina, sofreu um grave ferimento na perna enquanto trabalhava com um facão na roça, episódio que evidencia tanto a precariedade das condições materiais quanto a naturalização do trabalho infantil nas zonas rurais, em um contexto em que a sobrevivência familiar dependia da inserção precoce no trabalho. O tratamento do ferimento, realizado com borra de café e plantas medicinais, além de deixar marcas físicas permanentes, revela práticas de cuidado próprias de contextos de escassez, como narrado por seu irmão (ROCHA, 2010, p. 25).
Esse cenário dialoga com as reflexões de Simone de Beauvoir (2019), especialmente no capítulo "A infância", ao evidenciar que a socialização feminina, desde cedo, é orientada por normas de obediência, recato e cuidado. No meio rural, tais características são ainda mais intensificadas, como aponta Michelle Perrot (1998), ao destacar que as mulheres se encontram imersas em estruturas patriarcais que limitam sua visibilidade histórica e suas possibilidades de ação. Nesse sentido, a infância de Dona não apenas revela um contexto de privação material, mas também a inserção em um sistema simbólico que delimita papéis e expectativas de gênero.
Foi no espaço escolar que Maria de Souza Campos recebeu o apelido de "Dona", em função de sua postura firme, vigilante e pouco submissa, como registrado por Rocha (2010, p. 25). Tal denominação, que posteriormente se consolidaria como marca de respeito, evidencia a construção de uma autoridade feminina que tensionava os padrões de docilidade esperados para as mulheres. Esse traço torna-se ainda mais significativo quando analisado à luz de sua decisão de fugir sozinha para Japaratuba, após um episódio socialmente interpretado como ameaça à sua honra, rompendo com normas que restringiam a mobilidade e a autonomia feminina (ROCHA, 2010, p. 26).
Já estabelecida em Japaratuba, Dona constituiu sua vida conjugal com Francisco da Rocha e, inicialmente, dividiu-se entre os afazeres domésticos e o trabalho na zona rural. Posteriormente, passou a ensinar nos fundos de sua residência, prática que se consolidou como uma iniciativa comunitária e deu origem ao Educandário Santa Terezinha. Embora o casamento estruturasse sua posição social, sua atuação educacional, nesse momento inicial, não era formalmente reconhecida, o que evidencia as limitações impostas às mulheres, mesmo quando desempenhavam funções socialmente relevantes. Como analisa Beauvoir (2019), o casamento, ainda que revestido de afetividade, insere a mulher em uma estrutura que reforça sua posição de dependência e serviço.
A viuvez, em 1971, constitui um ponto de inflexão em sua trajetória, ao possibilitar maior autonomia e dedicação integral à educação. Sem filhos, Dona passou a exercer simultaneamente as funções de professora e diretora, consolidando sua atuação no campo educacional (ROCHA, 2010, p. 33). Posteriormente, concluiu o Magistério em Regime Especial, em 1976, ampliando sua formação e reconhecimento profissional (ROCHA, 2010, p. 64). Sua trajetória evidencia que, mesmo inserida em um contexto marcado por limites estruturais de gênero, foi possível construir, por meio do trabalho e da atuação comunitária, uma posição de autoridade pedagógica e prestígio moral. Assim, Dona não apenas se tornou professora, mas consolidou-se como uma liderança feminina cuja trajetória revela, em meio às permanências da tradição, processos cotidianos de construção de autonomia e liberdade.
4. DISCIPLINA E AFETO: A CONSTRUÇÃO DE UMA PRÁTICA PEDAGÓGICA SINGULAR
A trajetória educacional de Maria de Souza Campos, conhecida como professora Dona, evidencia práticas pedagógicas que articulavam disciplina, religiosidade e afeto, elementos fundamentais para a construção de sua autoridade pedagógica em contextos nos quais a educação formal se entrelaçava com saberes culturais locais. Sua atuação teve início no Educandário Santa Terezinha, organizado como casa-escola, onde já se observava um modelo disciplinar rigoroso, no qual o uso da palmatória, amplamente legitimado pelas famílias, integrava o processo formativo (RAMOS, 2025).
Posteriormente, na Escola Marechal Ademar de Queiroz, fundada em 1970, Dona consolidou-se como referência moral e pedagógica em Japaratuba (RAMOS, 2025). A partir da década de 1980, observa-se uma reconfiguração de suas práticas disciplinares, com a substituição da palmatória pela régua de madeira. Tal mudança não implicou o abandono do rigor, mas sua adaptação às transformações socioculturais, mantendo a autoridade docente. Práticas como a "sabatina", com ênfase em exercícios de aritmética e punições simbólicas, evidenciam um modelo pedagógico no qual disciplina, controle e reconhecimento social se articulavam (RAMOS, 2025).
Esse rigor coexistia com práticas de cuidado e valorização dos alunos, expressas por meio de incentivos ao desempenho escolar e da presença marcante da religiosidade, como nas orações coletivas diárias. Esse equilíbrio entre disciplina e afeto contribuía para a construção de vínculos entre professora, alunos e comunidade, reforçando sua legitimidade como educadora (RAMOS, 2025).
Tal configuração encontra paralelo nas práticas das Irmãs Militão, analisadas por Silva (2022), nas quais castigos físicos e relações ambivalentes de respeito, medo e afeto eram naturalizados e legitimados pelas famílias (SILVA, 2022, p. 99). Nessas experiências, a escola se configurava como extensão do espaço doméstico, e o ensino ultrapassava a alfabetização, incorporando saberes voltados à coesão comunitária (SILVA, 2022, p. 107).
Dessa forma, as práticas pedagógicas de Dona, assim como as das Irmãs Militão, evidenciam uma cultura pedagógica local em que disciplina, religiosidade e cultura popular se articulavam na formação dos sujeitos. Inseridas em contextos socialmente desafiadores, essas educadoras construíram espaços de atuação e liderança, nos quais a educação se configurou como instrumento de pertencimento, regulação social e transformação comunitária.
5. CULTURA ESCOLAR E PEDAGOGIA DA FESTA: A ATUAÇÃO DE DONA NO CONTEXTO CÍVICO-ESCOLAR
A prática pedagógica de Maria de Souza Campos pode ser compreendida à luz do que Patrícia Batista dos Santos (2023) define como práticas pedagógicas: um conjunto de expressões e atividades produzidas no interior da escola que, ainda que nem sempre sistematizadas em documentos oficiais, são fundamentais para a transmissão de saberes, valores e condutas. No cotidiano escolar conduzido por Dona, essas práticas se materializavam por meio de símbolos, rituais e gestos que atuavam diretamente na formação dos sujeitos. Nesse processo, festas, hinos e eventos cívicos assumiam papel estruturante na organização da experiência educativa.
Para além do ensino formal, Dona incorporou à sua prática pedagógica diversas manifestações culturais e religiosas da comunidade japaratubense. Entre suas iniciativas mais expressivas, destacam-se a criação do Maracatu Nação do Pavão Dourado, em 1980, as quadrilhas juninas Asa Branca e Chuva de Prata, bem como o coral Canarinhos do Ademar. Além disso, promovia dramatizações religiosas e novenas, evidenciando uma integração profunda entre escola, cultura e religiosidade local (RAMOS, 2025). Dessa forma, a escola configurava-se não apenas como espaço de instrução, mas como um ambiente de produção e circulação de práticas culturais, fortalecendo o sentimento de pertencimento e a valorização da identidade comunitária.
Nesse contexto, a entoação de hinos escolares e cívicos constituía uma prática recorrente, responsável por reforçar valores como civismo, religiosidade, respeito e consciência ambiental. Entre os hinos mais frequentemente entoados estavam o Hino de Tiradentes, o Hino do Descobrimento, o Hino da Árvore e o Hino do Município de Japaratuba, cada qual mobilizando elementos simbólicos associados à construção da identidade nacional e local (RAMOS, 2025). Tais práticas evidenciam a centralidade da cultura cívica no cotidiano escolar, articulando memória, identidade e formação moral.
Essas ações dialogam diretamente com o conceito de pedagogia da festa, desenvolvido por Santos (2023), que compreende o uso ritualizado de comemorações, cantos, encenações e símbolos como instrumentos de disciplinamento e construção de identidades coletivas. Conforme a autora, no contexto da ditadura civil-militar (1964–1985), as atividades musicais escolares desempenharam papel relevante na conformação sociopolítica, ao conciliarem o prazer estético com mecanismos de vigilância e controle (SANTOS, 2023, p. 134). Nesse sentido, o ato de cantar hinos ultrapassa sua dimensão musical, constituindo-se como prática de integração simbólica, na qual sujeitos compartilham experiências e valores comuns, aproximando-se da noção de comunidade imaginada proposta por Anderson (apud SANTOS, 2023, p. 122).
No caso de Japaratuba, a prática pedagógica de Dona ressignifica esse modelo ao articular civismo, cultura popular e religiosidade de forma integrada ao cotidiano escolar. Ao participar ativamente de rituais públicos, desfiles e eventos oficiais, a professora não apenas reproduzia valores institucionais, mas também os reinterpretava à luz das dinâmicas comunitárias (RAMOS, 2025). Tal movimento aproxima-se do conceito de tradições inventadas, formulado por Hobsbawm (1997), ao evidenciar como práticas simbólicas são continuamente recriadas para consolidar formas de pertencimento e autoridade.
Dessa maneira, a prática pedagógica de Dona revela que, mesmo inserida em um contexto marcado por tendências normativas e disciplinadoras, foi possível produzir experiências educativas que extrapolavam a lógica estritamente institucional. Seus hinos, festas e rituais não apenas transmitiam conteúdos escolares, mas contribuíam para a formação de sujeitos vinculados à sua história, à sua cultura e à sua comunidade, evidenciando uma pedagogia que conciliava controle, pertencimento e produção de sentidos.
7. MULHER, EDUCADORA E LIDERANÇA EM CONTEXTO RURAL NORDESTINO: ENTRE LIBERDADES POSSÍVEIS E RESISTÊNCIAS COTIDIANAS
A presença de Maria de Souza Campos na história da educação em Japaratuba não pode ser compreendida apenas como o testemunho de uma professora que marcou gerações. Trata-se de reconhecê-la como parte de uma linhagem de mulheres que, situadas frequentemente nas margens sociais, enfrentaram de forma direta ou indireta as estruturas patriarcais que historicamente conformam as práticas escolares, as relações de gênero e as possibilidades de inserção feminina no espaço público.
Ao lado de figuras como Maria Rita Soares de Andrade, objeto de análise em nossa dissertação, Dona representa uma forma específica de resistência feminina, caracterizada menos pelo confronto explícito e mais por estratégias cotidianas de transformação. Trata-se de uma resistência que se constrói por meio da educação, do exercício da autoridade pedagógica e da mediação entre disciplina e afeto. Em contextos distintos, mas social e geograficamente próximos, ambas ocuparam espaços de saber, produziram intervenções significativas e deixaram marcas que desafiam o apagamento histórico das experiências femininas.
A reflexão de Simone de Beauvoir (1980), ao afirmar que "não se nasce mulher, torna-se mulher", adquire novos sentidos quando articulada à trajetória de Dona. Sua constituição como sujeito não se deu apenas pela condição biológica, mas pelas escolhas que realizou e pelas práticas que desenvolveu em contextos adversos. Sua atuação pedagógica marcada pela combinação entre rigor disciplinar e cuidado pode ser interpretada como expressão de um saber construído na experiência, no qual a autoridade feminina se estabelece por meio do equilíbrio entre firmeza e sensibilidade.
Esse processo de constituição do sujeito feminino também se evidencia na trajetória de Maria Rita Soares de Andrade. Conforme analisado em nossa dissertação, sua produção intelectual e sua inserção no campo educacional expressam uma consciência crítica acerca do lugar social das mulheres e dos limites impostos à sua atuação. Sua tese de 1929, ao afirmar a potência do "querer é poder", configura-se não apenas como exercício acadêmico, mas como enunciação de um projeto de emancipação feminina (ANDRADE apud SANTOS, 2022, p. 96).
No diálogo entre Dona e Maria Rita, observa-se a convergência de trajetórias que reconhecem a educação como instrumento de transformação social. Conforme Beauvoir (1980, p. 599), o trabalho constitui elemento fundamental para a construção da autonomia feminina, perspectiva que se concretiza nas experiências dessas mulheres. Enquanto Maria Rita enfrentou institucionalmente as barreiras do campo jurídico e educacional, Dona, em seu contexto, construiu uma autoridade reconhecida socialmente, ressignificando os limites impostos à atuação feminina.
Esse movimento também pode ser interpretado à luz das reflexões de Robles (2019), ao destacar que os arquétipos femininos historicamente foram mobilizados como formas de controle do comportamento das mulheres. Maria Rita e Dona produzem deslocamentos significativos: a primeira, ao reivindicar a mulher como sujeito produtor de conhecimento; a segunda, ao romper com a imagem da professora rural passiva, assumindo o papel de liderança pedagógica e cultural em sua comunidade.
Nesse sentido, o reconhecimento contemporâneo de Maria de Souza Campos, materializado na nomeação de uma instituição escolar, ultrapassa a dimensão simbólica de homenagem individual. Trata-se do reconhecimento de trajetórias femininas historicamente invisibilizadas, cuja atuação foi fundamental para a constituição da educação em contextos locais. Assim, as trajetórias de Maria de Souza Campos e Maria Rita Soares de Andrade, embora situadas em espaços distintos, convergem ao evidenciar que a construção da autonomia feminina não é um dado, mas um processo histórico, tecido cotidianamente por meio da educação, da resistência e da atuação no espaço público.
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo propôs uma análise da trajetória de Dona, investigando sua atuação como figura educacional e moral em Japaratuba/SE. O estudo demonstrou sua capacidade de conciliar rigor, disciplina e afeto, bem como religiosidade e valorização da cultura popular, em um contexto histórico brasileiro do século XX marcado por restrições de gênero e políticas educacionais.
A pesquisa indicou que, desde sua infância em Capela/SE, passando por sua mudança para Japaratuba e sua viuvez, Dona enfrentou desafios sociais e patriarcais, desenvolvendo sua autonomia e autoridade. Suas práticas pedagógicas, caracterizadas pela alternância entre a disciplina e o cuidado, foram relevantes para a formação de seus alunos, conectando-os com suas raízes culturais e valores comunitários.
Além disso, o estudo sublinhou a "pedagogia da festa" e a integração de elementos cívicos, religiosos e folclóricos no ambiente escolar, o que permitiu a Dona ir além do currículo formal, contribuindo para uma cultura escolar dinâmica e adaptada à realidade local. Por fim, o artigo situou Dona como uma figura que exemplifica resistência e possibilidades de agência, em diálogo com outras mulheres, como Maria Rita Soares de Andrade, que, através da educação e da escrita, atuaram para superar as limitações de seu tempo.
A trajetória de Dona oferece uma análise relevante sobre a participação feminina na história da educação rural brasileira, ressaltando a importância de considerar as narrativas de mulheres que, muitas vezes de forma discreta, contribuíram para suas comunidades e para transformações em suas realidades. A atenção a essas memórias é fundamental para uma compreensão mais abrangente da construção social e educacional do país.
Abstract
This article aims to understand the trajectory of the teacher Maria de Souza Campos, known as Dona, analyzing the construction of her pedagogical authority and moral prestige in Japaratuba, Sergipe. It is guided by the following question: how did a woman, widowed and from the popular classes, challenge patriarchal structures and establish herself as an educational and community leader in the countryside of Sergipe? Her work spanned from the 1930s to 2007, with greater intensity between 1940 and 2000, a period in which she became a formative and social reference. The research is based on testimonies from former student Jorge Ramos (Instagram and private communication, 2025), documentary sources, and theoretical frameworks from the history of education and women’s history, in dialogue with Rocha (2010) and studies developed by GPHEN. The results show that her pedagogical practices articulated discipline, religiosity, affection, and the valorization of popular culture, enabling the construction of moral authority, social legitimacy, and recognition as a female leader in a historically adverse context.
REFERÊNCIAS
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.
PERROT, Michelle. Minha História das Mulheres. Tradução de Ângela M. S. Corrêa. São Paulo: Paz e Terra, 1998.
RAMOS, Jorge. Informações coletadas via Instagram (@jorge.ramosprofessor01) e comunicações privadas, 16 jun. 2025.
ROCHA, Monique. Trajetórias educativas em Japaratuba/SE: uma análise histórica. 2010. Monografia (Graduação em História) – Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2010.
ROBLES, Martha. Mulheres, mitos e deusas: o feminino através dos tempos. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2019.
SANTOS, Heidy Taiane Rocha. Mulheres, imprensa e resistência: Maria Rita Soares de Andrade e a escrita da igualdade em Sergipe (1929–1932). 2022. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Tiradentes, Aracaju, 2022.
SANTOS, Patrícia Batista dos. No garbo de estudantes, na disciplina dos militares: ritos e práticas educativas nas comemorações cívicas escolares no estado de Sergipe (1964-1985). 2023. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Tiradentes, Aracaju, 2023. Disponível em: da Tese da Patrícia Batista dos Santos. Acesso em: 18 jun. 2025.
SILVA, Luzinete Moreira da. As Irmãs Militão e a Escola Santa Terezinha em Senhor do Bonfim, Bahia: saberes e práticas de duas professoras negras em uma casa-escola. 2022. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Tiradentes, Aracaju, 2022.