Palavras-chave
Formação docente.; IA Generativa; Paradigma educacional
Autores
A aceleração dos avanços tecnológicos, em especial da inteligência artificial generativa (IAGen), vem remodelando profundamente os paradigmas educacionais contemporâneos e suscitando discussões importantes sobre os desafios epistemológicos que se apresentam na atualidade, entre os quais se destaca a desigualdade digital como fenômeno estrutural que atravessa o acesso, o uso e a apropriação crítica dessas tecnologias no campo educacional, sobretudo no contexto da formação de professores e na ressignificação do saber pedagógico em espaços mediados por tecnologias autônomas.
Nos últimos anos, o avanço acelerado da IAGen tem provocado intensos debates no campo educacional em diferentes partes do mundo. Instituições internacionais, como a UNESCO (2023), têm destacado que essas tecnologias possuem potencial para ampliar o acesso ao conhecimento, mas também podem aprofundar desigualdades educacionais caso sua implementação ocorra sem políticas adequadas de inclusão digital e formação docente. Nesse contexto, cresce o interesse acadêmico em compreender como essas tecnologias impactam os processos de ensino, aprendizagem e produção do conhecimento nas instituições educativas.
Nesse cenário, emerge a seguinte questão-problema: de que maneira a incorporação da IAGen pode ampliar ou mitigar as desigualdades digitais existentes na formação docente, especialmente no que se refere ao acesso à infraestrutura tecnológica, ao letramento algorítmico e à capacidade de mediação pedagógica crítica?
A IAGen não apenas altera os modos de acesso ao conhecimento, mas também tensiona os próprios conceitos de ensino, aprendizagem e mediação pedagógica. Sua disseminação, contudo, ocorre em contextos marcados por profundas assimetrias sociais e institucionais, o que pode resultar na ampliação de disparidades entre professores e estudantes com diferentes níveis de acesso e preparo tecnológico. Embora ofereça novas possibilidades para a mediação do conhecimento – como a personalização do ensino e feedbacks imediatos – a adoção da IAGen em ambientes educacionais desiguais tende a reforçar exclusões já existentes, caso não sejam consideradas políticas de inclusão e formação crítica, podendo comprometer a vivência educativa, a reflexão ética e a autonomia do pensamento.
A formação docente, nesse contexto, não pode se limitar ao domínio técnico das ferramentas digitais, mas deve incorporar uma análise crítica das condições estruturais que produzem a desigualdade digital, permitindo aos educadores posicionarem-se criticamente diante das transformações em curso.
Para Kuhn (2013), publicado originalmente em 1962, mudanças tecnológicas dessa magnitude podem gerar transformações profundas nos paradigmas científicos, demandando uma reconfiguração dos fundamentos teóricos e práticos que sustentam o campo educacional. Entretanto, tais transições paradigmáticas não ocorrem de maneira homogênea, sendo perpassadas por desigualdades de acesso e de capital cultural que impactam diretamente a formação docente.
Byung-Chul Han (2018) adverte sobre o perigo da erosão da contemplação e da profundidade reflexiva frente à lógica da eficiência e da positividade tecnificada. No contexto da desigualdade digital, essa lógica pode intensificar processos de exclusão simbólica, ao exigir competências tecnológicas que nem todos os sujeitos tiveram oportunidade de desenvolver.
Dewey (2007), por sua vez, enfatiza o papel central da experiência na constituição do sujeito, advogando por uma reconstrução social do conhecimento que articule prática, reflexão e transformação. Tal perspectiva reforça a necessidade de garantir condições equitativas de participação nos ambientes digitais, de modo que a experiência formativa não seja privilégio de poucos.
Já Morin (2015), defende que o pensamento fragmentado e disciplinar é insuficiente para lidar com os desafios da contemporaneidade, e propõe uma epistemologia da complexidade que valorize a interconexão, a incerteza e a dimensão humana do saber. Compreender a desigualdade digital como fenômeno multidimensional – que envolve infraestrutura, formação, cultura digital e poder – exige precisamente essa abordagem complexa e integradora.
Dessa forma, o presente artigo se propõe a refletir como esses pensadores contribuem para compreensão da desigualdade digital no contexto da incorporação da IAGen na formação docente, com vistas à construção de uma formação docente ética, crítica e contextualizada, capaz de dialogar com a complexidade do mundo contemporâneo e resistir à redução tecnocrática do ato educativo.
2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
A presente pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza teórico-reflexiva e delineamento bibliográfico. Conforme Gil (2002), a pesquisa bibliográfica baseia-se em materiais previamente publicados, como livros e artigos científicos, permitindo ao pesquisador analisar, interpretar e sistematizar contribuições teóricas já consolidadas acerca de determinado problema. Nesse sentido, a investigação não se limita à compilação de referências, mas busca promover uma análise crítica das categorias conceituais que permeiam o debate contemporâneo sobre inteligência artificial (IA) e educação.
O corpus teórico foi constituído a partir de obras consideradas fundamentais para a compreensão das implicações epistemológicas da IAGen na formação docente. Foram analisadas as contribuições de Thomas Kuhn (2013), Byung-Chul Han (2018), John Dewey (2007) e Edgar Morin (2015), autores que oferecem perspectivas complementares acerca das transformações do conhecimento, das dinâmicas de poder nas sociedades contemporâneas e das possibilidades de reconstrução crítica da educação.
A análise seguiu as etapas propostas por Gil (2002) para a pesquisa bibliográfica: levantamento das fontes, leitura exploratória e seletiva, leitura analítica e interpretação crítica. A partir desse processo foram identificadas categorias teóricas centrais relacionadas às transformações paradigmáticas do conhecimento, à mediação pedagógica e às tensões epistemológicas decorrentes da incorporação da IAGen no campo educacional.
Além da análise conceitual das obras selecionadas, buscou-se estabelecer articulações entre os diferentes referenciais teóricos mobilizados, de modo a construir uma interpretação integrada das transformações educacionais associadas à IAGen. Esse procedimento permitiu identificar convergências e tensões entre as diferentes perspectivas teóricas, contribuindo para uma compreensão mais ampla das implicações epistemológicas da IAGen na formação docente.
A análise interpretativa concentrou-se especialmente em três eixos temáticos: (a) transformações paradigmáticas do conhecimento; (b) impactos das tecnologias digitais na mediação pedagógica; e (c) desigualdades no acesso e uso das tecnologias educacionais. A partir desses eixos analíticos, foram elaboradas categorias interpretativas que orientaram a discussão dos resultados apresentados na seção seguinte.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise das obras selecionadas permitiu identificar que a inserção da IAGen no campo educacional não representa apenas uma inovação tecnológica, mas um fenômeno capaz de tensionar os fundamentos epistemológicos da educação contemporânea. Entre as transformações observadas destacam-se a reconfiguração dos modos de produção e circulação do conhecimento, bem como alterações na própria função social da docência.
A incorporação da IAGen no campo educacional deve ser compreendida como parte de um processo mais amplo de transformação das formas de produção e circulação do conhecimento. Conforme destacam a UNESCO (2015, 2023), instituições educacionais atravessam um período de transição marcado por mudanças tecnológicas e culturais, intensificadas pela emergência da IAGen, que exige o desenvolvimento de competências críticas, criativas e éticas no uso das tecnologias digitais. Nesse contexto, a educação passa a demandar competências relacionadas ao pensamento crítico, à criatividade e à capacidade de interpretar informações produzidas em ambientes digitais.
3.1 Paradigmas do conhecimento e transformações educacionais
Para Thomas Kuhn (2013), a emergência de tecnologias, como as baseadas em IA, pode ser interpretada como um elemento que desafia os paradigmas vigentes de ensino e aprendizagem. Para o autor, mudanças paradigmáticas ocorrem quando o modelo dominante deixa de responder adequadamente às anomalias que emergem no interior do sistema científico. Conforme afirma Kuhn, "Rejeitar um paradigma sem simultaneamente substituí-lo por outro é rejeitar a própria ciência" (Kuhn, 2013, p. 161).
Aplicada ao campo educacional, essa perspectiva permite compreender a IAGen como um fator de instabilidade paradigmática que desafia pressupostos tradicionais da educação. Como observa Kuhn (2013, p. 230), "após uma revolução, os cientistas trabalham em um mundo diferente". Embora não represente necessariamente uma ruptura total com modelos pedagógicos anteriores, a presença dessas tecnologias introduz novas formas de interação com o conhecimento, exigindo revisão de pressupostos teóricos e metodológicos que historicamente orientaram a prática educativa.
Nesse sentido, a incorporação da IAGen pode ser interpretada como uma espécie de "anomalia" no interior do paradigma educacional vigente. Kuhn (2013) afirma que paradigmas científicos tendem a permanecer relativamente estáveis até que anomalias acumuladas tornem suas estruturas explicativas insuficientes. Quando isso ocorre, abre-se espaço para processos de crise e eventual transição paradigmática. No campo educacional, a emergência de tecnologias capazes de produzir textos, sintetizar informações e gerar respostas automatizadas desafia concepções tradicionais de autoria, avaliação e construção do conhecimento.
Figura 1 - A ascensão, crise e substituição de um paradigma
Fonte: VIEIRA e FERNÁNDEZ (2006). A estrutura das revoluções científicas na economia e a Revolução Keynesiana. https://www.scielo.br/j/ee/a/VHZ3wDNLjFdWWjNVpxrjhNk. Acesso em: 19 fev. 2026.
A Figura 1 ilustra de forma representativa o processo de ascensão, crise e reconfiguração paradigmática descrito por Kuhn (2013). No campo educacional, entretanto, essa transição ocorre de maneira mais gradual e heterogênea, uma vez que diferentes modelos pedagógicos tendem a coexistir e a se reorganizar diante das transformações tecnológicas e culturais.
Assim, a IAGen não elimina imediatamente os modelos pedagógicos anteriores, mas passa a conviver com eles, provocando deslocamentos progressivos nas formas de ensinar e aprender. Esse processo de transição paradigmática tende a ser marcado por resistências institucionais, disputas epistemológicas e adaptações graduais das práticas educativas.
3.2 Experiência, mediação pedagógica e cultura digital
As reflexões de John Dewey (2007) contribuem para compreender os desafios pedagógicos associados à incorporação das tecnologias digitais na educação. Para o autor, "toda educação deriva da experiência" (Dewey, 2007, p. 23), sendo a aprendizagem resultado da interação entre sujeito, conhecimento e contexto social. Sob essa perspectiva, a tecnologia não deve substituir a mediação pedagógica, mas atuar como instrumento capaz de enriquecer experiências educativas significativas.
No entanto, a expansão da IAGen pode alterar profundamente essa dinâmica. Ao produzir respostas automatizadas e conteúdos instantâneos, esses sistemas tendem a reduzir a complexidade do processo de construção do conhecimento, deslocando o foco da experiência reflexiva para a obtenção rápida de informações.
No contexto da cultura digital, essa transformação torna-se ainda mais evidente. Lévy (1999) observa que o conhecimento contemporâneo assume caráter cada vez mais coletivo e distribuído, sendo produzido por meio de redes de interação entre diferentes sujeitos. De forma semelhante, Lemos (2002) argumenta que a cibercultura se caracteriza pela emergência de novas formas de sociabilidade e comunicação mediadas por tecnologias digitais.
Em um cenário como este, o papel do professor torna-se ainda mais relevante. Longe de ser substituído pela tecnologia, o educador assume a função de mediador crítico do conhecimento, orientando os estudantes na interpretação das informações que circulam no ambiente digital.
3.3 Desigualdade digital e acesso às tecnologias
A disseminação das tecnologias educacionais, no entanto, ocorre em contextos marcados por profundas desigualdades sociais. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que, apesar do crescimento do acesso à internet no país, milhões de domicílios brasileiros ainda permanecem sem conexão, sobretudo em áreas rurais (IBGE, 2024).
Figura 2 - Percentual de domicílios sem internet em 2024 e seus respectivos motivos
Fonte: IBGE. PNAD Contínua – TIC 2024.
A Figura 2 evidencia como a desigualdade digital continua sendo um fator determinante no acesso às tecnologias educacionais. Tal cenário reforça a necessidade de políticas públicas que garantam infraestrutura tecnológica e formação docente adequada para o uso dessas ferramentas.
Quando se observa especificamente o uso de sistemas baseados em IA, essa desigualdade torna-se ainda mais evidente. Pesquisa realizada pela Genial Investimentos e Quaest (2024) indica que apenas uma parcela relativamente pequena da população brasileira declarou já ter utilizado ferramentas de IA, sendo esse grupo majoritariamente composto por indivíduos com maior escolaridade e acesso a recursos tecnológicos.
A desigualdade digital, nesse contexto, não se restringe apenas ao acesso à infraestrutura tecnológica, mas envolve também diferenças significativas no desenvolvimento de competências digitais. Indivíduos com maior nível de escolaridade e maior acesso a dispositivos tecnológicos tendem a utilizar ferramentas baseadas em IA de forma mais frequente e sofisticada, o que pode ampliar desigualdades educacionais preexistentes.
Essa dinâmica revela que a incorporação da IAGen no campo educacional exige políticas públicas voltadas não apenas para a ampliação da conectividade, mas também para a formação crítica de professores e estudantes. Sem essas iniciativas, a IA corre o risco de reforçar assimetrias sociais já existentes, ampliando as distâncias entre grupos com diferentes níveis de acesso e preparo tecnológico.
A desigualdade digital, entretanto, não se restringe apenas ao acesso à infraestrutura tecnológica. Ela envolve também diferenças no desenvolvimento de competências digitais e na capacidade crítica de utilizar essas ferramentas. Em contextos educacionais marcados por desigualdades estruturais, estudantes e professores com maior acesso a recursos tecnológicos tendem a explorar de maneira mais produtiva os sistemas baseados em IA, enquanto outros grupos permanecem em posição de desvantagem. Tal cenário reforça a necessidade de políticas públicas voltadas simultaneamente à ampliação da conectividade e à formação crítica para o uso das tecnologias digitais.
Nesse sentido, a superação da desigualdade digital exige políticas educacionais que articulem três dimensões fundamentais: infraestrutura tecnológica adequada, formação docente continuada e desenvolvimento de competências críticas relacionadas ao uso das tecnologias digitais. Apenas a presença desses três elementos de forma integrada pode garantir que a incorporação da IAGen contribua para ampliar oportunidades educativas, em vez de reforçar assimetrias sociais já existentes.
No contexto brasileiro, a Base Nacional Comum Curricular reconhece a importância das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) e propõe o desenvolvimento de competências relacionadas ao uso ético e responsável dessas tecnologias (Brasil, 2018). Essa orientação reforça a necessidade de integrar os recursos digitais às práticas pedagógicas de forma reflexiva e contextualizada.
Além das questões pedagógicas, a presença da IAGen também levanta debates sobre autoria e produção do conhecimento. A facilidade de gerar conteúdos por meio de algoritmos pode produzir uma falsa sensação de domínio do saber, sem necessariamente promover desenvolvimento de competências críticas.
3.4 Tecnologias digitais, poder e controle
As reflexões de Byung-Chul Han ajudam a compreender os riscos associados a esse cenário. Segundo o autor, as tecnologias digitais contemporâneas podem intensificar formas sutis de controle social. Ao questionar os efeitos dos sistemas de dados sobre o comportamento humano, Han (2018, p. 77) indaga: "Os big data seriam realmente capazes não apenas de monitorar o comportamento humano, mas de sujeitá-lo a um controle psicopolítico?".
A análise proposta por Han (2018) sugere que as tecnologias digitais contemporâneas operam por meio de mecanismos de poder mais sutis do que aqueles característicos das sociedades disciplinares descritas por Foucault. Em vez de impor formas explícitas de controle, o neoliberalismo digital tende a incentivar processos de autoexploração e desempenho contínuo. Nesse contexto, os indivíduos passam a internalizar métricas de produtividade e eficiência que orientam seu comportamento.
Aplicada ao campo educacional, essa lógica pode produzir pressões adicionais sobre professores e estudantes, estimulando práticas pedagógicas orientadas por indicadores quantitativos de desempenho. A integração acrítica de sistemas baseados em IA pode, portanto, favorecer processos de padronização pedagógica e redução da autonomia docente, caso não seja acompanhada por reflexão crítica sobre seus impactos culturais e educacionais.
Nesse cenário, a incorporação de sistemas baseados em IA tende a ampliar processos de monitoramento e avaliação de desempenho, o que exige reflexão crítica sobre seus impactos pedagógicos.
Outro ponto relevante refere-se à relação entre tecnologia e autonomia docente. A introdução de sistemas baseados em IA pode influenciar decisões pedagógicas relacionadas à organização de conteúdos, elaboração de atividades e avaliação da aprendizagem. Caso essas tecnologias sejam utilizadas de forma acrítica, existe o risco de que o professor seja progressivamente deslocado de seu papel de agente intelectual responsável pela mediação do conhecimento, tornando-se apenas executor de orientações definidas por sistemas automatizados.
Nesse sentido, torna-se fundamental reafirmar o papel do educador como mediador crítico do processo formativo. A presença da IA no campo educacional deve ser compreendida como oportunidade para ampliar possibilidades pedagógicas, mas não como substituição da mediação humana. A autonomia docente permanece elemento central para garantir que o uso das tecnologias digitais esteja alinhado a princípios pedagógicos, éticos e democráticos.
Assim, a análise das contribuições de Han (2018) permite compreender que a incorporação da IAGen na educação exige vigilância crítica permanente. Mais do que simplesmente adotar novas tecnologias, é necessário refletir sobre as formas de poder que essas ferramentas podem reproduzir ou transformar no interior das instituições educacionais.
3.5 Complexidade e formação docente
Diante dessas tensões, a perspectiva da complexidade proposta por Edgar Morin (2015) oferece um horizonte relevante para pensar a formação docente na era digital. Para o autor, os desafios contemporâneos exigem uma reforma de pensamento capaz de superar visões fragmentadas do conhecimento e reconhecer a interdependência entre diferentes dimensões da realidade (Morin, 2015).
A incorporação da IAGen no campo educacional exige precisamente esse tipo de abordagem integradora. Em vez de considerar a tecnologia apenas como instrumento técnico, torna-se necessário analisá-la em suas dimensões epistemológicas, sociais e culturais. Essa perspectiva permite compreender a educação como um espaço de formação integral, no qual a tecnologia deve estar subordinada a princípios éticos e humanistas.
Aplicada ao campo da formação docente, essa perspectiva implica superar modelos educativos centrados exclusivamente na transmissão de conteúdos disciplinares. Em vez disso, torna-se necessário promover uma formação capaz de integrar diferentes dimensões do saber, articulando conhecimentos científicos, experiências sociais e reflexões éticas. A presença crescente da IAGen no campo educacional reforça essa necessidade, uma vez que as tecnologias digitais atravessam simultaneamente dimensões técnicas, culturais e políticas da vida social.
Nesse sentido, a formação de professores precisa contemplar não apenas competências relacionadas ao uso de ferramentas tecnológicas, mas também capacidades analíticas que permitam compreender os impactos sociais e epistemológicos dessas tecnologias. A IA não é apenas um recurso técnico; ela influencia formas de pensar, produzir conhecimento e organizar relações sociais. Portanto, sua integração ao campo educacional exige reflexão crítica sobre seus efeitos na construção do saber pedagógico.
Outro elemento central da perspectiva moriniana refere-se ao reconhecimento da incerteza como componente inerente ao conhecimento humano. Em um contexto marcado por rápidas transformações tecnológicas, torna-se impossível prever com precisão todas as implicações da IA para o campo educacional. Por essa razão, a formação docente deve preparar educadores para lidar com situações inéditas, desenvolvendo capacidade de adaptação, reflexão crítica e tomada de decisões éticas diante de desafios emergentes.
Dessa forma, a perspectiva da complexidade oferece um horizonte teórico importante para orientar a integração da IAGen na educação. Em vez de adotar uma postura tecnofóbica ou tecnocrática, a abordagem proposta por Morin (2015) convida a compreender a tecnologia como parte de um sistema mais amplo de relações sociais, culturais e epistemológicas. Essa visão permite pensar a educação como espaço de formação integral, no qual a tecnologia deve estar subordinada a princípios humanistas e democráticos.
Assim, a presença da IAGen na educação deve ser compreendida não apenas como inovação tecnológica, mas como fenômeno que provoca questionamentos sobre os próprios fundamentos epistemológicos da prática educativa. A formação docente, nesse contexto, precisa ir além da capacitação técnica, incorporando uma perspectiva crítica e transdisciplinar que permita orientar o uso dessas tecnologias de maneira ética e socialmente responsável.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante das tensões epistemológicas que envolvem a implementação de tecnologias educacionais, especialmente da IAGen no contexto da formação docente, torna-se imprescindível um planejamento estratégico que envolva a escuta ativa das comunidades acadêmicas, a formação ética dos profissionais da educação e o fortalecimento de competências críticas. Nesse sentido, é essencial que as instituições de ensino, sobretudo os cursos de pedagogia, promovam uma cultura de inovação pedagógica fundamentada na inclusão, no respeito à diversidade e na valorização do pensamento reflexivo, assegurando que o uso das tecnologias esteja sempre orientado por princípios humanistas.
Além disso, é necessário que gestores, instituições, professores e estudantes participem ativamente na construção coletiva de políticas educacionais que integrem essas tecnologias de maneira contextualizada e significativa, reconhecendo os saberes plurais e valorizando as experiências locais.
Conforme Dewey (2007, p. 102), "a educação é um processo social; a escola é simplesmente essa vida social concentrada". Tal perspectiva evidencia que a incorporação das tecnologias educacionais não pode ser concebida de maneira isolada, e sim vinculada a práticas pedagógicas que favoreçam a reconstrução crítica do conhecimento. Nesse sentido, a utilização desses recursos assume relevância na medida em que contribui para a formação de sujeitos capazes de exercer uma cidadania ativa e participativa, consolidando o papel da escola como espaço privilegiado de socialização e emancipação intelectual.
A análise desenvolvida ao longo deste estudo evidencia que a incorporação da IAGen na educação não pode ser compreendida apenas como um fenômeno tecnológico. Trata-se de uma transformação que envolve dimensões epistemológicas, pedagógicas e sociais, exigindo uma revisão crítica dos modelos tradicionais de formação docente.
Nesse sentido, a formação de professores precisa contemplar não apenas competências técnicas relacionadas ao uso das tecnologias digitais, mas também capacidades analíticas e reflexivas que permitam compreender seus impactos na produção do conhecimento e nas relações educacionais.
Além disso, a presença crescente da IAGen no campo educacional reforça a necessidade de repensar os próprios objetivos da educação contemporânea. Em um contexto marcado pela abundância de informações e pela automatização de tarefas cognitivas, torna-se ainda mais relevante desenvolver competências relacionadas à interpretação crítica, à criatividade e à reflexão ética.
Sob esta perspectiva, a formação docente assume papel estratégico para orientar o uso dessas tecnologias no campo educacional, pois cabe aos educadores desenvolver competências que permitam compreender o funcionamento básico dos sistemas algorítmicos, avaliar criticamente as informações produzidas por essas ferramentas e orientar os estudantes na utilização responsável dessas tecnologias. A IA pode contribuir para ampliar possibilidades educativas, mas apenas quando integrada a práticas pedagógicas que valorizem a autonomia intelectual, a cooperação e o compromisso com a transformação social.
Além das questões discutidas ao longo deste estudo, a presença crescente da IAGen no campo educacional também levanta importantes desafios relacionados à redefinição dos objetivos da educação contemporânea. Em um contexto no qual sistemas algorítmicos são capazes de produzir textos, sintetizar informações e responder a perguntas complexas em poucos segundos, torna-se necessário repensar quais competências devem ser priorizadas nos processos formativos.
Tradicionalmente, muitos sistemas educacionais foram organizados em torno da transmissão e memorização de conteúdos. Entretanto, em um ambiente marcado pela abundância informacional e pela automação de tarefas cognitivas, habilidades relacionadas à interpretação crítica, à criatividade, à resolução de problemas e à reflexão ética tornam-se cada vez mais relevantes. Nesse cenário, o papel da escola e da universidade desloca-se progressivamente da simples transmissão de informações para a formação de sujeitos capazes de compreender, avaliar e transformar a realidade em que vivem.
A IAGen pode contribuir significativamente para ampliar possibilidades pedagógicas, desde que seja integrada de forma crítica aos processos educativos. Ferramentas baseadas em IA podem auxiliar na personalização do ensino, no apoio à pesquisa acadêmica e na criação de ambientes de aprendizagem mais interativos. Contudo, essas potencialidades somente se concretizam quando a tecnologia é utilizada como meio para ampliar a reflexão e a produção do conhecimento, e não como substituição da atividade intelectual dos sujeitos.
Nesse sentido, a formação docente assume papel estratégico para orientar o uso dessas tecnologias no campo educacional. Professores precisam desenvolver competências que lhes permitam compreender o funcionamento básico dos sistemas algorítmicos, avaliar criticamente as informações produzidas por essas ferramentas e orientar os estudantes na utilização responsável dessas tecnologias. Mais do que especialistas técnicos, os educadores devem atuar como mediadores culturais capazes de contextualizar o uso da IA no interior de projetos pedagógicos comprometidos com a formação cidadã.
Assim, a incorporação da IAGen na educação não deve ser interpretada como ameaça à atividade docente, mas como oportunidade para redefinir e fortalecer o papel do professor como agente intelectual responsável pela mediação crítica do conhecimento. Ao reconhecer a complexidade dos desafios contemporâneos, a educação pode transformar a presença dessas tecnologias em elemento catalisador de práticas pedagógicas mais reflexivas, inclusivas e socialmente comprometidas.
Complementarmente, Han (2018) alerta que o poder neoliberal tende a utilizar tecnologias para reforçar lógicas de controle e autoexploração, sendo, portanto, necessário que o uso da IAGen na educação seja acompanhado de um compromisso ético e crítico que evite o esvaziamento da experiência e preserve os vínculos humanos na prática formativa.
Abstract
This article discusses Generative Artificial Intelligence (GAI) as a paradigmatic challenge in teacher training. The research, qualitative in nature and with a theoretical-reflective approach, is based on authors whose works offer support for understanding the impacts of the popularization of GAI in education. The reflections are guided by the paradigm concept proposed by Kuhn (2013), reformulated by the new power dynamics described by Han (2018) and analyzed from the perspective of complexity, as suggested by Morin (2015). The discussion also considers the social reconstruction of knowledge centered on the subject's experience, as advocated by Dewey (2007). It is concluded that, given the rise of GAI, teacher training requires an approach that transcends the merely technological use of resources, demanding a critical, transdisciplinary stance, and sensitivity to ongoing paradigmatic transformations.
REFERÊNCIAS
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