Palavras-chave
Arte; Educação; Paulo Freire
Autores
Burgos é um município e uma cidade espanhola situada no norte da Península Ibérica. Capital da província homónima, está integrada na comunidade autónoma de Castela e Leão. Com uma população registada de 174 051 habitantes em 2021, é o 36.º município mais populoso do país e o segundo da sua comunidade autónoma.
A Catedral de Burgos (Figuras 1), inscrita como Patrimônio Mundial da UNESCO em 1984, constitui um corpo simbólico em constante transformação — um palimpsesto histórico onde se inscrevem múltiplas camadas de significado, desde o gótico inicial até intervenções artísticas contemporâneas. A sua construção teve início em 1221, sob a ordem do rei Fernando III de Castela, seguindo os padrões do estilo gótico francês. Sofreu modificações de extrema importância nos séculos XV e XVI, com a adição dos pináculos da fachada principal, a Capela do Condestável e a cúpula do cruzeiro. Estes elementos, pertencentes ao Gótico Flamboyant - fase da arquitetura gótica tardia na França e na Espanha do século XV- conferem ao templo o seu perfil inconfundível. As últimas obras significativas, como a sacristia ou a Capela de Santa Tecla, datam já do século XVIII, período em que também foram reformadas as portadas góticas da fachada principal. Tanto a construção original como as remodelações posteriores foram realizadas com pedra calcária extraída das pedreiras da localidade vizinha. No interior, os elementos decorativos e o mobiliário litúrgico representam uma variedade de estilos artísticos, desde o Gótico original até ao Renascimento e Barroco.
Figura 1: Catedral de Burgos, porta de Santa María, em Burgos, Castela e Leão – Espanha.
Foto: Marjorie Garrido Severo, 2023. Acervo pessoal.
Em 2021, como parte das celebrações dos oitocentos anos da Catedral, o programa cultural Las Edades del Hombre e a Fundación VIII Centenario de la Catedral promoveram a criação do mural em estêncil Mímesis, seres y lugares (Figura 2), executado pela dupla francesa Monkeybird em uma fachada de prédio próximo ao templo, com apoio da Aliança Francesa de Burgos. Esta intervenção estabelece um diálogo entre a arte sacra medieval e a arte urbana contemporânea, não apenas por sua localização simbólica, mas por sua intenção explícita de refletir sobre a continuidade e ruptura entre tradição e modernidade, mantendo o diálogo com a França.
Figura 2: Mural – Mímeses, seres y lugares da dupla de artistas Monkeybird. Em Burgos, Castela e Leão – Espanha.
Foto: Marjorie Garrido Severo, 2023. Acervo pessoal.
Este fenômeno suscita uma hipótese central: existe uma continuidade entre os vitrais medievais e o mural em estêncil contemporâneo como dispositivos de construção de identidade urbana, pertencimento e sentido, apesar de suas formas de produção, legitimidade e recepção refletirem paradigmas culturais radicalmente distintos? A partir dessa pergunta, nos propomos a investigar duas dimensões interconectadas:
- A ontologia da obra de arte — como os vitrais e o mural "fazem mundo" (Nancy), gerando mundos sensíveis no espaço urbano;
- As relações de aproximação e distanciamento entre o vitral e o estêncil;
- O potencial educativo da arte pública — como ambas as formas artísticas atuam como potências de mediação patrimonial, crítica social e emancipação.
Para tanto, adotamos uma abordagem crítica, que permite estabelecer relações entre obras de épocas distintas sem cair em anacronismos, mas sim em diálogos produtivos.
O artigo se organiza em cinco eixos principais: (1) o mundo da arte (teoria); (2) a evolução conceitual e legal da arte urbana; (3) análise comparativa entre vitrais e mural de estêncil; (4) arte pública como prática educativa; (5) conclusões.
2. MUNDOS DA ARTE: TEORIA PARA PENSAR A OBRA COMO EXPERIÊNCIA SENSÍVEL
2.1. A Ontologia de Jean-Luc Nancy: A Arte como "Fazer Mundo"
Jean-Luc Nancy (2014) propõe uma ontologia da arte que desloca a busca por uma essência fixa da obra, substituindo-a por uma compreensão da arte como "apresentação de sentido" que institui mundos possíveis. Para Nancy, a obra não representa o mundo, mas o cria — é um gesto que "dá a sentir", constituindo redes de significação abertas, heterogêneas e em constante devir. Nesse sentido, tanto os vitrais medievais quanto o mural de Monkeybird são eventos sensíveis que reconfiguram a experiência espacial.
Os vitrais transformavam a luz física em símbolo do divino, criando uma teatralidade sagrada que envolvia o espectador em um universo de transcendência. O mural, realizado mediante técnica de estêncil e sombras projetadas, constrói um mundo de ambiguidades, onde figuras humanas, animais e elementos arquitetônicos se fundem em uma paisagem onírica — metaforizando a tensão entre passado e presente, visibilidade e ocultamento.
Ambos consistem, portanto, em gestos artísticos que instituem mundos sensíveis, ainda que em contextos ontológicos distintos: um orientado para a revelação do sagrado, outro para a problematização do próprio conceito de patrimônio.
2.2. A imagem como o "distinto" - o vitral e o estêncil
Em "L'image - le distinct", Nancy (2003) desenvolve o conceito do distinto como aquilo que é separado, posto à parte, subtraído do mundo comum. O distinto "é o que é separado através de marcas" (p. 97), mantendo-se à parte do "mundo da disponibilidade".
O vitral opera como distinto por excelência, Alonso Abad (2022, p. 42, tradução nossa) ressalta que "[...] o vitral (cuja luz é uma metáfora de Deus e resolve perfeitamente a "estética da luz" como símbolo da divindade e beleza absoluta)." Ainda segundo Alonso Abad,
O vitral cumpria três funções e todas elas com capacidade comovedora: como elemento de fechamento de um vão, este evoca uma comunicação com Deus e além disso sua forma também faz alusão ao Céu e a divindade, como assim o exemplificam as rosáceas circulares; como instrumento de filtragem e modulação da luz, e que também tinge de cor a luz, causaria admiração quando a luz atravessa os vidros e, ao iluminar as figuras e as cenas, que ‘tomaram vida’ metaforicamente, enfatizando assim a ideia de atualidade dessa fé nelas representada; e como suporte iconográfico, ilustraria a História da Salvação doutrinalmente. (2022, p. 44, tradução nossa).
Para este estudo nos deteremos ao vitral que foi representado no mural. O vitral está localizado na fachada oeste da catedral, inspirada na fachada das catedrais de Paris e Reims, é a porta de Santa María (Figura 3). É um vitral circular, com 12 floretes contendo representações de santos, tendo ao centro a figura do sagrado coração de Jesus. A rosácea é uma roda raiada que simboliza, segundo a tradição Cristã, o domínio de Cristo na Terra. Muitas vezes no centro da rosácea das igrejas medievais góticas está a figura de Cristo que indica o papel decisivo do Salvador no centro do projeto escatológico divino. Segundo Chevalier e Gheerbrant "A rosácea gótica e a rosa-dos-ventos marcam a passagem do simbolismo da rosa ao da roda." (2001, p. 788). Sendo assim em estreita relação com o círculo que, enquanto "linha infinita", sem princípio e sem fim, é símbolo de Deus, e com a roda, símbolo da eternidade.
Já o mural em estêncil Mímesis, seres y lugares, (Figura 4) está localizado em uma fachada próxima à catedral, na rua Fernán González n.º 52 - Centro histórico da cidade de Burgos – Espanha. A técnica de estêncil consiste em produzir um molde vazado com acetato ou mesmo papel, com figuras em ilhas seguras por pontes do próprio material. Para a pintura é geralmente utilizada a tinta em spray ou mesmo tintas para parede. É um processo de gravura por permeação. Para a produção do mural, os artistas franceses utilizaram grandes folhas de papel recortado para a produção da estampa na parede. Se distingue do espaço urbano comum, criando zona de intensidade sensível.
No vitral o que transpassa os espaços é a cor luz, através dos vidros, e no estêncil é a cor pigmento impregnado na parede ou outro suporte. O primeiro é interno ao ambiente e o segundo é externo, está nas ruas.
Com esta obra, os artistas pretendem homenagear as comunidades de artesãos e construtores que participaram da construção da Catedral. ‘Nossa intenção era criar um efeito de complexidade, profundidade e monumentalidade, combinando alguns dos marcos mais espetaculares, como o retábulo-mor, a Escadaria Dourada e o óculo circular na fachada de Santa Maria’, explica a dupla francesa. (www.noticiasburgos.es)
Ambas as técnicas consistem no que Nancy denomina "gesto" artístico - "aquilo que de uma obra não se pode reduzir a sua significação" (2014, p. 14). No vitral, o gesto está no corte do vidro e na montagem que transforma luz; no estêncil, no recorte do molde que permite a impressão da imagem.
Figura 3: Vitral da Porta de Santa María, Burgos, Castela e Leão, Espanha.
Foto: Fernando Miguel Alonso Abad, 2016, p. 152.
Figura 4: Placa informativa sobre o Mural – Mímeses, sere y lugares.
Foto: Marjorie Garrido Severo, 2023. Acervo pessoal.
3. ARTE URBANA: ENTRE VANDALISMO, LEGITIMAÇÃO E PATRIMONIALIZAÇÃO
A partir do fim da era Franco, a Espanha consolidou uma compreensão do patrimônio histórico não apenas como um elemento representativo da história e das tradições, mas também como um fator crucial para o desenvolvimento econômico e a coesão social. Esse novo paradigma traduziu-se em avanços significativos na legislação nacional e das comunidades autónomas, com a criação de estruturas administrativas dedicadas à proteção do patrimônio e ao fomento de incentivos à cultura.
A Constituição Espanhola de 1978, em seu artigo 46, estabelece o seguinte: "Los poderes públicos garantizarán la conservación y promoverán el enriquecimiento del patrimonio histórico, cultural y artístico de los pueblos de España". Para cumpri-lo, foi estabelecido um sistema de competências partilhadas entre a administração central, as províncias e os governos locais, fruto dos Estatutos de Autonomia elaborados entre 1979 e 1983.
Nesse contexto, a cidade de Burgos, na Comunidade Autónoma de Castela e Leão, emerge como um caso paradigmático. Com a sua magnífica catedral, oficialmente conhecida como Santa Igreja Catedral Basílica Metropolitana de Santa María, é um dos principais exemplares do gótico espanhol e foi reconhecida como Património Mundial pela UNESCO em 1984, Burgos personifica na prática essa visão moderna do patrimônio. A gestão e promoção do seu legado histórico são, em grande parte, responsabilidade do governo autónomo, que tem competência quase exclusiva em matéria de cultura. Esta autonomia permitiu à cidade transformar o seu patrimônio num eixo central do seu desenvolvimento, atraindo turismo, gerando riqueza e reforçando o orgulho e a identidade da comunidade.
A relação de uma sociedade com seus produtos culturais sempre reflete uma trama simbólica, por ela mesma construída para elaborar sua conexão com o passado e edificar seu futuro (Santos, 1995). Neste cenário de transformações pós-ditadura, percebemos que a afirmação identitária recuperou para os produtores culturais uma base sólida, a partir da qual podem defender seus interesses. Tanto o modelo brasileiro quanto o espanhol de preservação e fomento cultural, desenvolvidos após a derrocada de seus respectivos regimes autoritários e a retomada dos rumos democráticos, exemplificam uma tendência clara: a (re)ordenação e (re)significação do campo de produção simbólica. Esta tendência está pautada no apelo à identidade local precisamente como um mecanismo de inserção na lógica global.
No caso espanhol, ilustrado pela gestão do patrimônio em cidades como Burgos, essa dinâmica é evidente. A valorização da história local e de bens culturais, como a Catedral, tornou-se um vetor para o desenvolvimento econômico e uma projeção no cenário internacional. No entanto, é crucial não esquecermos o contexto mais amplo em que esse processo ocorre e a correlação de forças que ele, inevitavelmente, estabelece e institucionaliza.
Relacionando ao caso em estudo, o estatuto paradoxal da arte urbana contemporânea, oscila entre o reconhecimento patrimonial e a criminalização, no caso da Espanha, com base na legislação espanhola - Lei do Patrimônio Histórico 16/1985 e Lei de Segurança Cidadã 4/2015.
A legislação espanhola, com a Lei de Segurança Cidadã 4/2015, ainda trata muitas práticas artísticas como atos de "deslustramento" do espaço público, enquanto cidades como Barcelona ou Valência já desenvolvem políticas de valorização e conservação. Casos internacionais, como a indenização de artistas pela destruição dos seus graffitis no 5Pointz em Nova York ou o dilema em torno da conservação de obras de Banksy, mostram que a autenticidade da arte urbana está ligada ao contexto — removê-la é destruí-la. Isso exige que repensemos os modelos tradicionais de patrimonialização, que ainda privilegiam a permanência material sobre a experiência simbólica. O mural de Burgos, por sua natureza efêmera e por sua forte presença digital, sugere um novo paradigma: o do patrimônio processual, onde o valor não está apenas na obra física, mas no conjunto de relações que ela estabelece — afetivas, sociais, políticas.
Os debates internacionais sobre a conservação da arte efêmera urbana tensionam os paradigmas tradicionais do patrimônio. A natureza perecível de murais, estênceis e intervenções públicas redefine a própria ontologia da obra de arte, deslocando o valor do suporte material para a potência do gesto e do contexto. Nesse campo, a tensão entre a intenção do artista e a intervenção do conservador torna-se crucial, especialmente quando a degradação ou remoção são partes constitutivas da obra. Estratégias como documentação expandida (registros fotográficos, mapeamentos afetivos) e recriações contextuais emergem como formas de resistência à obsolescência, exigindo uma abordagem multidisciplinar que articule história da arte, legislação urbana e conservação crítica. Trata-se, assim, não de vencer a efemeridade, mas de elaborar protocolos que honrem sua condição transitória como dimensão política da arte na cidade.
A arte urbana contemporânea emerge não como fenômeno isolado ou meramente estético, mas como resultado de um processo histórico, cultural e político marcado por resistência, experimentação e negociação simbólica. Sua trajetória pode ser compreendida em três fases interconectadas — graffiti, arte urbana e arte pública — que coexistem, dialogam e se tensionam em um campo dinâmico de disputas sobre autoridade, autoria, espaço e sentido.
Fase I: Graffiti — A Arte como Atitude de Resistência
O graffiti, em sua origem, constitui um ato não autorizado, ilegal e profundamente enraizado na cultura de rua, especialmente na cultura hip-hop dos subúrbios nova-iorquinos das décadas de 1970 e 1980. Nesse contexto, o graffiti não se define como arte no sentido institucional, mas como ato de apropriação simbólica do espaço urbano por grupos marginalizados.
Fase II: Arte Urbana — Da Intervenção à Autoria
A partir da década de 1990, com o reconhecimento internacional de artistas como Basquiat, Haring, Lady Pink e Banksy, o graffiti é recontextualizado como arte contemporânea. Surge o termo arte urbana, designando práticas que mantêm a localização no espaço público, mas incorporam intencionalidade artística e autoria reconhecível.
Fase III: Arte Pública — A Arte como Política Cultural
A arte pública representa o estágio de maior institucionalização. A intervenção é encomendada, planejada e integrada a políticas públicas de cultura, turismo e revitalização urbana. O artista atua como agente contratado, e a obra é concebida como parte de um projeto de cidade.
O mural Mímesis, seres y lugares (2021), de Monkeybird, encomendado pelo programa Las Edades del Hombre, exemplifica esta fase. Estabelece um diálogo crítico com o patrimônio, utilizando sombras, figuras híbridas e memória fragmentada para questionar narrativas oficiais.
Esta evolução não é linear, mas caracteriza-se pela coexistência e tensão entre fases, revelando um campo de disputa simbólica onde diferentes atores — Estado, artistas, comunidades, turistas — competem pelo direito de definir o que é arte, quem pode produzi-la e onde ela pode estar.
4. ANÁLISE COMPARATIVA: VITRAIS E ESTÊNCIL EM DIÁLOGO E SUAS FUNÇÕES COMPARTILHADAS ENTRE O MATERIAL E O SIMBÓLICO
Antes de apresentar a tabela comparativa, é importante destacar que a análise entre os vitrais góticos da Catedral de Burgos e o mural contemporâneo de Monkeybird não se limita a uma observação formal ou estética. Trata de compreendermos como, em contextos históricos distintos, ambas as obras desempenham aspectos convergentes, vinculados à construção de imaginários coletivos, à sacralização do espaço e à mediação entre o material e o transcendente. A tabela a seguir sistematiza essas funções compartilhadas, evidenciando as aproximações e diferenças entre a arte sacra medieval e a arte urbana contemporânea.
Tabela: Análise comparativa entre vitral e mural em estêncil
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Elemento |
Vitral Gótico |
Mural em Estêncil Contemporâneo |
Ponto de Convergência |
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Técnica |
Recorte de vidro, montagem com calha e chumbo. |
Recorte de molde de acetato ou papel, aplicação com spray. |
A Poética do Recorte: O gesto de definir a forma cortando. |
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Suporte |
Janela (interno, arquitetônico). |
Parede (externo, urbano). |
Site-Specific: A obra é inseparável do seu lugar. |
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Materialidade |
Cor-Luz (transparente, imaterial). |
Cor-Pigmento (opaco, material). |
Gerador de Atmosfera: Cria um ambiente sensível único. |
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Educação |
Doutrina por imagens. Formar um fiel devoto e integrante de uma comunidade de crença. |
Textos urbanos. Formar um cidadão crítico e integrante de uma comunidade política. |
Pedagogia da Imagem: Usam a força da imagem para transmitir/construir conhecimento. Construção de Comunidade: São ferramentas para a formação de um imaginário compartilhado e de um senso de pertencimento. |
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Função |
Sacralizar pelo divino (Luz). Narrativa unívoca. |
Sacralizar pela memória (Sombra). Narrativa aberta. |
Operador Simbólico: Constrói o imaginário coletivo do espaço. |
Fonte: Produção da autora.
A Tabela vai além de uma mera comparação: constitui uma proposição teórica consistente sobre a continuidade funcional da arte como agente de construção simbólica, mesmo em contextos radicalmente distintos. Ela evidencia que, apesar das transformações institucionais, técnicas e ideológicas — da Igreja medieval ao Estado contemporâneo, da teologia à crítica social —, a arte mantém papéis essenciais na vida coletiva: criar mundos sensíveis, sacralizar espaços, mediar entre o visível e o invisível e promover educação sensível.
A principal contribuição da tabela reside em mostrar que a arte urbana contemporânea, frequentemente percebida como marginal ou efêmera, compartilha funções profundas com as grandes manifestações artísticas do passado. Nesse sentido, o mural em estêncil não se limita a celebrar o aniversário da catedral; constitui um ato de reexistência simbólica, uma reinvenção do patrimônio enquanto espaço vivo, crítico e coletivo.
Construção do imaginário coletivo: Ambos os casos contribuem para a formação de um imaginário coletivo, porém com lógicas distintas: os vitrais impõem um sentido unívoco, enquanto o mural estimula a construção compartilhada de múltiplos sentidos. Essa diferença reflete a transição de uma sociedade pautada pela autoridade religiosa para uma sociedade democrática, plural e crítica.
Sacralização do espaço: A função de sacralização permanece, mas se desloca do divino para a memória coletiva. O mural não consagra uma divindade, mas celebra o ato de lembrar, transformando o muro em um altar laico da memória.
Mediação entre material e transcendente: Ambos os casos operam como pontes sensíveis entre o tangível e o intangível. Enquanto os vitrais elevavam o material ao sagrado, o mural materializa o ético e o político na vida urbana, tornando o cotidiano um espaço de reflexão.
Educação simbólica: A educação simbólica evolui de um modelo "depositário" de conhecimento para um modelo problematizador. O mural, enquanto texto urbano, desafia o espectador a "ler o mundo", como propõe Freire, transformando a experiência artística em um ato de emancipação.
5.ARTE PÚBLICA E EDUCAÇÃO EMANCIPADORA
A arte pública, especialmente em sua forma contemporânea como muralismo urbano, transcende a função decorativa ou comemorativa para assumir um papel central como prática educativa e política. O mural Mímesis, seres y lugares, de Monkeybird, instalado junto à Catedral de Burgos em 2021, não é apenas uma intervenção estética, mas um dispositivo pedagógico que convoca o cidadão a repensar o patrimônio, a memória e o próprio direito ao espaço urbano. Neste sentido, a arte pública se configura como um ato de educação emancipadora, ancorada em dois pilares teóricos interconectados: a pedagogia crítica e emancipadora de Paulo Freire e a sociologia da relação com o saber de Bernard Charlot. Juntos, esses pilares formam um quadro teórico robusto para compreender como a arte no espaço público pode romper com modelos tradicionais de educação verticalizada e promover uma aprendizagem coletiva, crítica e autônoma.
5.1. A Pedagogia Crítica de Paulo Freire: O Mural como "Texto Urbano"
Paulo Freire, em sua obra Pedagogia do Oprimido, propõe que a educação não deve ser um ato de "depositar" conhecimentos sobre os oprimidos, mas um processo dialógico de leitura crítica do mundo. Para Freire, aprender a ler o texto só faz sentido quando se aprende, antes, a ler o mundo. O mural de Monkeybird opera exatamente nessa lógica: ele não é um objeto passivo de contemplação, mas um texto urbano — uma superfície disponível a interpretação, reflexão e engajamento.
As figuras híbridas, os relações com elementos da Catedral e a memória fragmentada que compõem o mural não oferecem uma narrativa pronta, mas desafiam o espectador a decifrar, a questionar, a problematizar. Assim como Freire usava palavras como "terra", "cultura", "trabalho" ou "opressão" para desencadear processos de conscientização, o mural utiliza imagens ambíguas para provocar perguntas: Quem é lembrado? Quem foi apagado? O que significa patrimônio? Como afirma Freire (1996), a educação deve ser processo dialógico de leitura crítica do mundo.
Ao transformar a parede da cidade em um texto aberto, o mural convida à indagação visual e política, uma forma de letramento que vai além da palavra escrita e incorpora a leitura crítica do ambiente construído. Nesse sentido, a arte pública se torna um instrumento de conscientização coletiva, especialmente em contextos onde o patrimônio é frequentemente monopolizado por narrativas oficiais e elitizadas.
5.2. A Relação com o Saber de Bernard Charlot: Apropriação do Mundo e Reexistência Simbólica
Bernard Charlot, em A Relação com o Saber, argumenta que aprender não é apenas adquirir informações, mas apropriar-se do mundo. O conhecimento só se torna significativo quando está ligado à experiência, à identidade e ao desejo de existir. A escola, muitas vezes, falha porque desvincula o saber da vida. Já a arte pública, por sua localização no cotidiano, restabelece essa ligação.
O mural de Monkeybird, situado no coração simbólico de Burgos, permite que os cidadãos se apropriem de um espaço historicamente consagrado — a Catedral — e o recriem como lugar de pertencimento. Através das sombras e figuras híbridas, o mural dá visibilidade a vozes que a história oficial silenciou: migrantes, mulheres, classes populares, artistas marginais. É um ato de reexistência simbólica: não apenas lembrar, mas fazer existir novamente, no plano do sensível.
Ao se reconhecer na obra — mesmo que de forma indireta ou emocional —, o espectador não apenas aprende sobre arte ou história, mas reconstrói sua própria identidade como sujeito ativo na cidade. Aprender, aqui, é um ato de afirmação existencial.
Juntos, esses eixos formam uma proposta de educação que não se limita à escola, mas se expande para o espaço urbano como escola viva. A arte pública deixa de ser um complemento da educação formal para se tornar um de seus principais cenários contemporâneos.
Este estudo partiu de uma ideia aparentemente simples — a comparação entre os vitrais góticos da Catedral de Burgos e o mural contemporâneo Mímesis, seres y lugares, de Monkeybird —, mas revelou-se, ao longo da investigação, como um campo fértil para interrogar questões profundas sobre o papel da arte no tempo, no espaço e na vida social. Ao se articular a ontologia da arte de Jean-Luc Nancy, demonstramos que a arte, em suas múltiplas formas históricas, não é um mero reflexo da cultura, mas um agente ativo na construção de mundos sensíveis — espaços simbólicos onde o coletivo se reconhece, se questiona e se transforma.
Este estudo demonstrou que a analogia entre vitrais e estêncil sustenta-se não por semelhança estética, mas por convergência funcional na construção de mundos sensíveis. Ambos operam como mediadores entre material e simbólico, entre visível e pensável.
Essa continuidade, no entanto, ocorre dentro de uma ruptura paradigmática que não pode ser ignorada. O contexto em que os vitrais foram produzidos era regido por uma autoridade institucional e teológica indiscutível: a Igreja. A arte era techné a serviço da fé, e seu valor derivava de sua função doutrinária e pedagógica. Já o mural de Monkeybird emerge em um campo artístico caracterizado pela autonomia, pela crítica e pela contestação das hierarquias simbólicas. Sua legitimidade não vem de uma instituição central, mas de um diálogo complexo entre o Estado, os artistas, o público e mesmo as redes sociais. É nesse contexto que a arte urbana se inscreve, onde o sensível é redistribuído, onde o que antes era invisível passa a ser visto, e onde o espectador deixa de ser passivo para tornar-se coautor do sentido.
A ambiguidade jurídica e social da arte urbana — oscilando entre o status de vandalismo e o de patrimônio — reflete essa tensão entre ordem e subversão.
Nesse sentido, o potencial educativo da arte pública revela-se como um dos aspectos mais transformadores deste estudo. Inspirando-nos na pedagogia crítica de Paulo Freire, entendemos o mural como um "texto urbano" — um convite à leitura do mundo, à desnaturalização das estruturas de poder e à construção de uma consciência histórica. Não se trata de uma arte que "ensina", mas que provoca, que exige resposta, que rompe com a passividade. É profundamente emancipatório, pois reconhece que qualquer pessoa, sem necessidade de formação especializada, pode compreender e interpretar uma obra de arte. A inteligência é igual — e a arte pública é um espaço onde essa igualdade se realiza. Bernard Charlot, por sua vez, nos lembra que aprender é, antes de tudo, apropriar-se do mundo. Ao transformar uma fachada próxima à Catedral em superfície de expressão, o mural permite que os cidadãos se apropriem simbolicamente do patrimônio, reconstruindo uma memória coletiva que inclui vozes antes silenciadas.
Portanto, intervenções como Mímesis, seres y lugares não devem ser lidas apenas como gestos estéticos ou comemorativos. Elas são dispositivos de transformação social, agentes de reconfiguração do espaço público e instrumentos de educação estética e política. Mais do que dialogar com o passado, elas o reinventam, mostrando que o patrimônio não é um monumento fechado, mas um campo de disputa simbólica. Ao integrar arte urbana a sítios históricos, cidades como Burgos não apenas modernizam sua imagem, mas promovem uma cidadania mais sensível, crítica e participativa.
A arte pública revela-se como prática educativa profundamente emancipatória, reconhecendo que qualquer pessoa pode compreender e interpretar uma obra de arte. Como conclui Nancy, "el arte más grande es siempre el arte que mantiene suspendida y retenida toda conclusión en la significación o en la interpretación – y que abre nuevamente la prueba del pensamiento" (2014, p. 77).
Este estudo, por fim, sugere que a arte — seja em vidro colorido ou em tinta spray — continua sendo, em sua essência, um ato de presença, um gesto que "dá a sentir" o mundo e, com isso, o faz existir de novo.
Abstract
This article compares the Gothic stained glass of Burgos Cathedral (13th–15th centuries) with the contemporary stencil mural Mímesis, seres y lugares (2021) by Monkeybird, investigating their roles as devices for constructing identity and meaning in urban space. Through a qualitative, critical-interpretive approach grounded in Jean-Luc Nancy's ontology of art and critical pedagogy, the analysis reveals that despite technical and contextual differences, both artistic expressions share analogous functions: symbolic sacralization of space, mediation between material and transcendent, and formation of a collective imaginary. The stencil mural operates as a "contemporary stained glass window," reconfiguring heritage experience. Such artistic interventions transcend the aesthetic gesture, acting as agents of social transformation and emancipatory education. They foster collective appropriation of urban space, challenge official narratives, and reposition heritage as a field of symbolic contestation and active citizenship.
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