Metadados do trabalho

Alfabetização E Níveis De Escrita: Um Estudo Qualitativo Dos Diagnósticos Realizados Por Estudantes Em Formação

Maria Eurácia Barreto de Andrade; Irandir Souza da Silva; Gilselia Macedo Cardoso Freitas

Este estudo investiga os processos de alfabetização e os níveis/hipóteses de conceitualização de escrita de crianças dos anos iniciais do ensino fundamental, a partir da análise de diagnósticos realizados por estudantes em formação docente. Com abordagem qualitativa, apoiada na análise de documentos, a pesquisa busca compreender como os futuros professores identificam, analisam e interpretam as hipóteses de escrita apresentadas pelas crianças no processo de alfabetização, à luz das contribuições teóricas de Emília Ferreiro e Ana Teberosky na obra Psicogênese da Escrita (1999). Os resultados indicam que os estudantes em formação reconhecem as diferentes etapas do processo de aquisição da escrita, no entanto, ainda demonstram fragilidades em relacionar tais níveis às práticas pedagógicas e à elaboração de intervenções qualificadas a cada hipótese, de modo a vencer os desafios de forma mais leve. Conclui-se que a compreensão dos níveis de conceitualização da escrita é fundamental para uma formação docente reflexiva e crítica, sobretudo nos cursos de Licenciatura em Pedagogia, capaz de promover práticas alfabetizadoras mais significativas e contextualizadas.

Palavras‑chave: Alfabetização; Construção da Escrita; Formação de Professores  |  DOI: 10.29380/2026.E03.1853

Como citar este trabalho

ANDRADE, Maria Eurácia Barreto de; SILVA, Irandir Souza da; FREITAS, Gilselia Macedo Cardoso. ALFABETIZAÇÃO E NÍVEIS DE ESCRITA: UM ESTUDO QUALITATIVO DOS DIAGNÓSTICOS REALIZADOS POR ESTUDANTES EM FORMAÇÃO. Anais do Colóquio Internacional Educação e Contemporaneidade, 2026 . ISSN: 1982-3657. DOI: https://doi.org/10.29380/2026.E03.1853. Disponível em: https://www.coloquioeducon.com/hub/anais/1853-alfabetizac-ao-e-n-iveis-de-escrita-um-estudo-qualitativo-dos-diagn-osticos-realizados-por-estudantes-em-formac-ao-2/. Acesso em: 29 abr. 2026.

ALFABETIZAÇÃO E NÍVEIS DE ESCRITA: UM ESTUDO QUALITATIVO DOS DIAGNÓSTICOS REALIZADOS POR ESTUDANTES EM FORMAÇÃO

Palavras-chave

Alfabetização; Construção da Escrita; Formação de Professores

Autores

  • MARIA EURÁCIA BARRETO DE ANDRADE
  • Irandir Souza da Silva
  • GILSELIA MACEDO CARDOSO FREITAS

A alfabetização constitui um dos pilares fundamentais da educação básica, sendo um processo complexo que envolve não apenas a aprendizagem do sistema de escrita alfabética, mas também a inserção da criança em práticas sociais de leitura e escrita. Ao longo das últimas décadas, estudos na área da educação têm evidenciado que a criança constrói ativamente conhecimentos sobre a escrita, elaborando hipóteses próprias que precisam ser compreendidas e consideradas pelo professor alfabetizador.

No Brasil, os dados sobre os níveis de alfabetização das crianças nos anos iniciais, apresentados pelo Ministério da Educação [MEC] (2024) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira [Inep] (2023), revelam avanços importantes, mas também desafios que persistem ao longo dos anos. Em 2024, dados despontam que pouco menos de 60% das crianças estavam alfabetizadas ao final do 2º ano, segundo o Indicador Criança Alfabetizada, o que demonstra que uma parcela significativa dos estudantes ainda não desenvolveu plenamente habilidades básicas de leitura e escrita no tempo esperado (MEC, 2024; Inep, 2023). Essa realidade é preocupante, considerando que a alfabetização constitui a base para as aprendizagens subsequentes e para a participação social mais ampla.

Além disso, as desigualdades regionais apontadas pelos dados oficiais indicam que o acesso à alfabetização de qualidade ocorre de forma desigual no território nacional, refletindo diferenças socioeconômicas, estruturais e de políticas educacionais locais (Inep, 2024). Nesse sentido, os indicadores não devem ser interpretados apenas como números, mas como subsídios para a reflexão crítica sobre a necessidade de investimentos contínuos na formação docente, no acompanhamento pedagógico e em práticas de ensino que atendam às especificidades das crianças nos primeiros anos de escolarização. Garantir a consolidação da alfabetização no ciclo configura-se, portanto, como um compromisso educacional e social.

Nesse contexto, destaca-se a importância da formação inicial de professores, especialmente nos cursos de Licenciatura em Pedagogia, no sentido de possibilitar aos futuros docentes uma compreensão crítica e reflexiva sobre os processos de alfabetização e letramento. Conhecer os níveis de conceitualização da escrita, conforme proposto por Emília Ferreiro e Ana Teberosky (1999), torna-se fundamental para que o professor possa planejar intervenções pedagógicas adequadas às necessidades reais das crianças.

O presente artigo tem como objetivo compreender como os futuros professores identificam, analisam e interpretam as hipóteses de escrita apresentadas pelas crianças no processo de alfabetização. Especificamente o estudo busca compreender de que maneira esses estudantes identificam as hipóteses de escrita das crianças dos anos iniciais do Ensino Fundamental e quais desafios ainda se apresentam na articulação entre diagnóstico e intervenção pedagógica.

A pesquisa foi desenvolvida a partir de uma abordagem qualitativa, pautada na análise documental, tendo os diagnósticos de conceitualização de escrita das crianças do ciclo da alfabetização como corpus de análise. Segundo Paulo Freire (2011), a pesquisa em educação deve comprometer-se com a leitura crítica da realidade, articulando teoria e prática. Nesse sentido, os dados foram constituídos a partir da análise de quarenta e oito diagnósticos realizados ao longo de três semestres consecutivos, envolvendo crianças do 1º ao 3º ano do Ensino Fundamental. O estudo fundamenta-se nas contribuições de Ferreiro e Teberosky (1999), Magda Soares (2014; 2017) e Paulo Freire (2011; 2014).

O artigo está organizado da seguinte forma: inicialmente apresenta-se a metodologia da pesquisa; em seguida, discute-se a fundamentação teórica que sustenta o estudo; posteriormente, são analisados e discutidos os resultados obtidos; e, por fim, são apresentadas as considerações finais.

METODOLOGIA

 

A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo de abordagem qualitativa (Minayo, 2007) e documental (Lüdke e André, 2018), uma vez que busca compreender os processos de análise, interpretação e reflexão construídos por estudantes em formação docente diante dos diagnósticos de escrita realizados com crianças em processo de alfabetização. A opção por essa abordagem justifica-se pela necessidade de analisar não apenas os resultados quantitativos, mas, sobretudo, os significados atribuídos pelos futuros professores ao processo de construção da escrita (Minayo, 2007).

A investigação foi desenvolvida no âmbito do componente curricular Prática Reflexiva em Alfabetização e Letramento I, do curso de Licenciatura em Pedagogia. Ao longo desse componente, os estudantes participaram de um intenso processo formativo, que envolveu estudos teóricos, discussões coletivas, reflexões críticas e atividades práticas relacionadas à alfabetização e ao letramento.

Durante as aulas teóricas, foram abordados fundamentos conceituais e metodológicos sobre o processo de alfabetização, a construção da leitura e da escrita e os níveis de conceitualização da escrita infantil. Os principais referenciais teóricos utilizados foram os estudos de Emília Ferreiro e Ana Teberosky (1999), especialmente no que se refere à psicogênese da língua escrita, além das contribuições de Magda Soares (2017, 2014), Telma Weisz (2002) e Paulo Freire (2011, 2014), que fundamentam uma concepção de alfabetização crítica, reflexiva e socialmente contextualizada.

Após o período de formação teórica no âmbito da universidade, os estudantes realizaram atividades práticas de diagnóstico e intervenção pedagógica com crianças do ciclo da alfabetização, compreendendo o 1º, 2º e 3º anos do Ensino Fundamental. O objetivo dessas atividades foi identificar as hipóteses de conceitualização da escrita apresentadas pelas crianças, por meio da análise da grafia de palavras de um mesmo grupo semântico, iniciando da maior palavra selecionada (polissílaba) até a menor (nonossílaba) e, no final, a escrita de uma frase contendo uma das palavras escritas, de acordo com as orientações apresentadas por Ferreiro e Teberosky (1999). Este diagnóstico foi uma das atividades realizadas, contemplando a carga horária prática do componente Prática Reflexiva em Alfabetização e Letramento I, associada a pesquisa e produção de intervenções pedagógicas alfabetizadoras para os diferentes níveis/hipótese de conceitualização da escrita de modo a contribuir para a consolidação do sistema alfabético de escrita.

Os dados desta pesquisa foram construídos ao longo de três semestres consecutivos, totalizando quarenta e oito diagnósticos de escrita realizados pelos estudantes em formação docente. Esses diagnósticos constituem o corpus de análise do presente estudo, bem como, as intervenções pedagógicas construídas pelos estudantes em formação na intenção de acelerar o processo de construção da base alfabética das crianças do ciclo de alfabetização pesquisadas.

 

ALFABETIZAÇÃO E OS PROCESSOS DE CONSTRUÇÃO DA ESCRITA

 

A alfabetização é compreendida, na contemporaneidade, como um processo que ultrapassa o ensino mecânico das correspondências entre letras e sons. Trata-se de um fenômeno complexo, que envolve dimensões cognitivas, sociais, culturais e históricas. Nessa perspectiva, alfabetizar significa possibilitar que a criança compreenda e utilize a escrita como instrumento de comunicação e participação social.

Magda Soares (2017) destaca que alfabetização e letramento são processos distintos, porém indissociáveis. Enquanto a alfabetização refere-se à apropriação do sistema de escrita alfabética, o letramento diz respeito ao uso social da leitura e da escrita. Nessa perspectiva, a escola deve superar a dicotomia entre aprender o sistema de escrita alfabético e utilizá-lo socialmente, promovendo práticas que integrem ambos os processos. Alfabetizar letrando, portanto, significa garantir que o domínio da escrita esteja articulado à formação de sujeitos capazes de participar criticamente das práticas sociais mediadas pela linguagem escrita.

Essa concepção dialoga com o pensamento de Paulo Freire (2011), para quem a leitura da palavra deve estar articulada à leitura do mundo. O autor defende uma prática pedagógica que valorize os saberes prévios dos educandos e promova uma aprendizagem crítica e emancipadora. Nesse sentido, ler e escrever tornam-se atos políticos e sociais, capazes de favorecer a consciência crítica e a emancipação dos indivíduos, uma vez que possibilitam a compreensão e a transformação da realidade em que estão inseridos.

Nessa perspectiva, é relevante destacar a grande contribuição dos estudos da Psicogênese da Língua Escrita, desenvolvidos por Emília Ferreiro e Ana Teberosky (1999). Estes trouxeram importantes contribuições para a compreensão do processo de aquisição da escrita, bem como, para a história da alfabetização, pois, foi a partir daí, que houve uma mudança de perspectiva na compreensão sobre os processos de construção da escrita. As autoras demonstram que a criança constrói hipóteses próprias sobre o funcionamento do sistema de escrita, passando por diferentes níveis de conceitualização.

Entre esses níveis, de forma suscinta destacam-se: o pré-silábico, no qual a criança ainda não estabelece relação entre escrita e fala, revelando que ainda está explorando a sua função simbólica; o silábico, com ou sem valor sonoro, caracterizado pela hipótese em que a criança representa uma letra para cada sílaba. Assim, observa-se um avanço cognitivo significativo, pois a criança já reconhece que a escrita se relaciona à oralidade; o silábico-alfabético, caracterizado por uma transição entre a escrita silábica e a alfabética, indicando um momento de reorganização das hipóteses, no qual a criança começa a perceber a necessidade de registrar unidades menores que a sílaba; e, por fim, o nível alfabético, no qual a criança compreende o princípio alfabético registrando a escrita da forma como fala e ouve. Alcança, nesta hipótese, a consolidação do sistema de escrita, ainda que com desconsideração inicial das convenções ortográficas (Ferreiro e Teberosky, 1999). Esses níveis evidenciam que a aprendizagem da língua escrita ocorre de forma progressiva e construtiva, a partir de hipóteses elaboradas pela própria criança. Portanto, refletir sobre esses níveis implica reconhecer a importância de práticas pedagógicas que respeitem o ritmo de aprendizagem da criança e promovam intervenções intencionais, capazes de favorecer avanços significativos no processo de alfabetização.

 Compreender esses níveis é fundamental para o trabalho do professor alfabetizador, pois permite planejar intervenções pedagógicas adequadas às necessidades de cada criança, respeitando seus tempos de aprendizagem e favorecendo avanços significativos no processo de alfabetização.

O reconhecimento das hipóteses de conceitualização da escrita exige do professor alfabetizador uma postura investigativa e reflexiva frente às produções infantis. Mais do que identificar em que nível a criança se encontra, é necessário compreender os caminhos percorridos por ela na construção do sistema de escrita alfabética, valorizando seus avanços e compreendendo seus erros como parte do processo de aprendizagem.

Nesse sentido, o professor assume o papel de mediador do conhecimento, sendo responsável por criar situações didáticas que desafiem a criança a avançar em suas hipóteses. As intervenções pedagógicas devem ser planejadas de forma intencional, considerando o nível de escrita apresentado, as experiências prévias da criança e o contexto sociocultural em que está inserida.

Autoras que discutem a alfabetização na perspectiva construtivista, com destaque para Telma Weisz (2002), Ferreiro e Teberosky (1999), Magda Soares (2014; 2017) dentre outras, ressaltam que práticas pedagógicas padronizadas tendem a desconsiderar a diversidade de hipóteses presentes em uma mesma turma, o que pode comprometer o avanço das aprendizagens. Assim, o diagnóstico das hipóteses de escrita deve orientar o planejamento pedagógico, possibilitando intervenções diferenciadas e mais significativas.

Desse modo, compreender os níveis de conceitualização da escrita não se configura apenas como um conhecimento teórico, mas como um instrumento fundamental para a prática docente, especialmente nos anos iniciais do Ensino Fundamental, nos quais se consolidam as bases da alfabetização.

 

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

 

A análise dos dados obtidos a partir dos quarenta e oito diagnósticos de escrita realizados pelos estudantes em formação docente possibilitou a identificação dos níveis conceituais de escrita das crianças do ciclo da alfabetização pesquisadas. Os resultados contemplam crianças do 1º, 2º e 3º anos do Ensino Fundamental, conforme apresentado no quadro 1 a seguir:

 

Quadro 1 – Hipóteses de conceitualização de escrita das crianças a partir dos diagnósticos realizados.

 

Nº de estudantes

1º Ano

2º Ano

3º Ano

Percentual

Pré-silábico

06

06

00

00

13%

Silábico com valor sonoro

04

01

03

00

8%

Silábico sem valor sonoro

07

05

02

00

15%

Silábico-alfabético

15

09

03

03

31%

Alfabético

16

05

07

04

33%

Total

48

26

15

07

100%

Fonte: dados extraídos dos diagnósticos de conceitualização de escrita das crianças

 

       Conforme já mencionado, a pesquisa se deu no transcorrer do componente Prática Reflexiva em Alfabetização e Letramento I, no curso de Licenciatura em Pedagogia com estudantes em formação.

Depois de todo o processo formativo no âmbito da Universidade, foi realizada atividade prática de diagnóstico e intervenção com crianças do ciclo da alfabetização (1º ao 3º ano do Ensino Fundamental) para identificação das hipóteses de conceitualização da escrita das crianças. Os dados foram construídos ao longo de três semestres consecutivos, tendo um total de quarenta e oito diagnósticos.

A totalidade dos estudantes conseguiu realizar o diagnóstico, bem como, a análise dos níveis de conceitualização da escrita, no entanto ainda possui limitação quanto as intervenções adequadas para facilitar o processo de mediação junto às crianças para que avancem no processo de construção do sistema de escrita alfabética.

Os dados evidenciam que o nível alfabético apresentou o maior percentual, correspondendo a 33% dos diagnósticos, seguido pelo nível silábico-alfabético, com 31%. Esses resultados indicam que uma parcela significativa das crianças acompanhadas encontra-se em estágio avançado de apropriação do sistema de escrita alfabética, especialmente nos anos finais do ciclo de alfabetização.

Observa-se, entretanto, a presença de hipóteses pré-silábicas e silábicas, que juntas representam uma parcela relevante dos diagnósticos analisados. Esse dado reforça a compreensão de que o processo de alfabetização ocorre de maneira heterogênea, sendo influenciado por fatores sociais, culturais, pedagógicos e individuais, conforme apontam estudos de Magda Soares (2014; 2017), ao destacar que as experiências sociais e o contato com práticas de leitura e escrita impactam diretamente os percursos de aprendizagem das crianças.

Do ponto de vista da formação docente, destaca-se que a totalidade dos estudantes conseguiu realizar o diagnóstico e identificar corretamente os níveis de conceitualização da escrita das crianças, em consonância com os pressupostos da psicogênese da escrita formulados por Emília Ferreiro e Ana Teberosky (1999). No entanto, a análise qualitativa dos registros revelou fragilidades na proposição de intervenções pedagógicas adequadas a cada nível identificado.

Em muitos casos, as intervenções apresentaram caráter genérico, sem considerar as especificidades das hipóteses de escrita construídas pelas crianças. Esse aspecto evidencia a necessidade de fortalecer, na formação inicial, a articulação entre o diagnóstico da aprendizagem e o planejamento de ações pedagógicas intencionais, conforme defende Telma Weisz (2002), ao afirmar que a avaliação deve orientar a intervenção pedagógica e não se limitar à classificação dos estudantes.

Os resultados apresentados evidenciam que o processo de alfabetização das crianças acompanhadas ocorre de forma não linear, reafirmando os pressupostos da psicogênese da escrita. A presença simultânea de diferentes hipóteses de escrita em um mesmo grupo de crianças confirma que a aprendizagem da escrita se constrói por meio de avanços progressivos, como destacam Ferreiro e Teberosky (1999), exigindo práticas pedagógicas flexíveis e sensíveis aos diferentes tempos e modos de aprender.

No que se refere à formação inicial de professores, os dados revelam avanços importantes quanto à compreensão teórica dos níveis de escrita. Todavia, as fragilidades observadas nas propostas de intervenção indicam desafios na transposição do conhecimento teórico para a prática pedagógica concreta, aspecto também discutido por Paulo Freire (2014), ao enfatizar a importância da reflexão crítica sobre a prática docente.

Essa dificuldade pode estar relacionada ao fato de que a elaboração de intervenções pedagógicas exige não apenas conhecimento conceitual, mas também experiência pedagógica, observação sistemática e reflexão constante sobre a prática. Nesse sentido, a vivência de atividades de diagnóstico e intervenção durante a formação inicial mostra-se fundamental para o desenvolvimento da identidade docente, fortalecendo a articulação entre teoria e prática, conforme defendido por Freire (2011; 2014).

Por fim, os resultados apontam para a importância de fortalecer, nos cursos de Licenciatura em Pedagogia, espaços formativos que promovam a articulação entre teoria e prática, possibilitando aos futuros professores compreenderem a complexidade do processo de alfabetização e desenvolverem competências para atuar de forma mais consciente, crítica e intencional frente aos desafios do ensino da leitura e da escrita.

Os achados deste estudo evidenciam a necessidade de repensar a formação inicial de professores alfabetizadores, especialmente no que se refere ao desenvolvimento de conhecimentos relacionados ao diagnóstico e à intervenção pedagógica. Compreender as hipóteses de escrita das crianças constitui um passo fundamental no processo de alfabetização; entretanto, esse conhecimento precisa estar articulado a práticas pedagógicas intencionais que favoreçam o avanço efetivo das aprendizagens, conforme defendem Emília Ferreiro e Ana Teberosky (1999).

Nesse contexto, torna-se essencial que os cursos de Licenciatura em Pedagogia ampliem as oportunidades de vivências práticas articuladas à reflexão teórica, possibilitando aos estudantes experimentar, analisar e ressignificar suas ações pedagógicas. Para Paulo Freire (2014), a formação docente deve estar fundamentada na reflexão crítica sobre a prática, uma vez que é nesse movimento que o professor constrói sua autonomia, seu senso crítico e sua capacidade de tomada de decisão frente aos desafios da alfabetização.

Além disso, o acompanhamento sistemático das produções escritas das crianças permite ao professor ajustar suas intervenções pedagógicas, tornando o processo de alfabetização mais sensível às necessidades individuais dos estudantes. Conforme destaca Telma Weisz (2002), a avaliação, quando compreendida como instrumento pedagógico, deve orientar a intervenção docente, pois "avaliar não é classificar, mas compreender para intervir" (WEISZ, 2002, p. 87).

A compreensão das hipóteses de escrita também possibilita ao professor alfabetizador adotar uma postura mais sensível diante do processo de aprendizagem das crianças, evitando práticas reducionistas ou centradas exclusivamente no erro. Quando o docente reconhece que a escrita infantil revela formas próprias de pensamento, passa a valorizar o percurso de construção do conhecimento, favorecendo um ambiente de aprendizagem mais acolhedor e qualificado. Essa perspectiva dialoga com os estudos de Magda Soares (2014; 2017), ao afirmar que a alfabetização deve ocorrer de forma contextualizada e significativa.

A compreensão aprofundada dos níveis de conceitualização da escrita contribui, ainda, para que o professor desenvolva um olhar mais atento às singularidades do processo de aprendizagem infantil. Ao reconhecer que cada criança constrói hipóteses próprias sobre a escrita, o docente compreende que os avanços não ocorrem de maneira linear ou homogênea, mas são resultado de experiências, interações e mediações pedagógicas. Tal entendimento favorece práticas mais sensíveis às diferenças individuais, reduzindo a adoção de métodos padronizados que desconsideram os percursos de aprendizagem.

Nesse sentido, o diagnóstico da escrita assume papel central no planejamento pedagógico, pois permite ao professor identificar não apenas o nível em que a criança se encontra, mas também os caminhos possíveis para promover seu avanço. Quando utilizado como instrumento pedagógico, e não apenas como forma de classificação, o diagnóstico possibilita a elaboração de intervenções mais intencionais, alinhadas às necessidades reais dos estudantes e aos objetivos do processo de alfabetização, conforme defendem Ferreiro e Teberosky (1999).

Além disso, a formação inicial de professores precisa oportunizar espaços sistemáticos de reflexão sobre a prática, nos quais os estudantes possam analisar seus próprios registros, confrontar teoria e prática e ressignificar suas ações pedagógicas. A vivência de situações reais de diagnóstico e intervenção contribui para o desenvolvimento da autonomia profissional e para a construção de uma identidade docente comprometida com a aprendizagem dos alunos, conforme enfatiza Paulo Freire (2011; 2014).

Portanto, investir em uma formação docente que valorize o diagnóstico como ferramenta de compreensão do processo de aprendizagem da escrita mostra-se fundamental para a consolidação de práticas alfabetizadoras mais eficazes. Essa perspectiva fortalece o papel do professor como mediador do conhecimento e contribui para a construção de uma alfabetização mais inclusiva, crítica e socialmente contextualizada.

A reflexão sobre os processos de alfabetização, a partir das hipóteses de escrita das crianças, também amplia a compreensão do papel social da escola no desenvolvimento da linguagem escrita. Quando o professor compreende a alfabetização como uma prática social, cultural e histórica, e não como mera aprendizagem mecânica do código, fortalece práticas pedagógicas que valorizam o diálogo, a escuta e a participação ativa dos estudantes no processo de aprendizagem, conforme defendido por Magda Soares (2017).

Nesse contexto, a atuação do professor alfabetizador assume relevância central, pois é por meio de suas escolhas pedagógicas que se criam oportunidades para que as crianças avancem em suas hipóteses de escrita. A mediação docente, quando fundamentada em diagnósticos consistentes, possibilita intervenções mais conscientes, respeitando os tempos de aprendizagem e evitando práticas homogêneas que desconsideram as diferenças presentes em sala de aula.

Por fim, compreender a alfabetização a partir das hipóteses de escrita implica reconhecer a complexidade do trabalho docente nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Investir em uma formação inicial que promova a articulação entre teoria, prática e reflexão contribui para a construção de professores mais preparados para enfrentar os desafios da alfabetização, fortalecendo o compromisso da escola com uma educação de qualidade, inclusiva e socialmente comprometida.

O presente estudo permitiu analisar os diagnósticos de escrita realizados por estudantes em formação docente, evidenciando tanto avanços quanto desafios no processo de formação inicial de professores alfabetizadores. Os resultados indicam que os licenciandos demonstram domínio teórico na identificação dos níveis de conceitualização da escrita, conforme os pressupostos da psicogênese da língua escrita.

Entretanto, ainda se observam limitações no que se refere à elaboração de intervenções pedagógicas coerentes com os níveis identificados, o que aponta para a necessidade de ampliar espaços de prática reflexiva nos cursos de formação docente. Compreender os níveis de escrita é fundamental, mas insuficiente se não estiver associado à capacidade de planejar ações pedagógicas que respeitem os tempos e as necessidades das crianças.

Portanto, o estudo revelou que investir em práticas formativas que articulem teoria- prática-intervenção pedagógica, é essencial para a construção de uma formação docente crítica, reflexiva e comprometida com a promoção de práticas alfabetizadoras mais significativas e contextualizadas.

Abstract

This study investigates the literacy processes and the levels/hypotheses of writing conceptualization in children in the early years of elementary school, based on the analysis of diagnoses carried out by students in teacher training. Using a qualitative approach, supported by document analysis, this research seeks to understand how future teachers identify, analyze, and interpret the writing hypotheses presented by children in the literacy process, in light of the theoretical contributions of Emilia Ferreiro and Ana Teberosky in their work Psychogenesis of Writing (1999). The results indicate that students recognize the different stages of the writing acquisition process; however, they still demonstrate weaknesses in relating these levels to pedagogical practices and in developing qualified interventions for each hypothesis, in order to overcome challenges more easily. It is concluded that understanding the levels of conceptualization of writing is fundamental for reflective and critical teacher training, especially in undergraduate courses in Pedagogy, capable of promoting more meaningful and contextualized literacy practices.

FERREIRO, Emília; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 1999.

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LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. 3. ed. São Paulo: EPU, 2018.

MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2007.

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