Palavras-chave
Extensão Universitária; Narrativas; Mulheres Agricultoras
Autores
1. Introdução
O presente artigo tem como objetivo analisar as ações extensionistas desenvolvidas por meio do plano de trabalho "Registro das narrativas e memórias de mulheres da zona rural da comunidade da Laginha", em Várzea do Poço (BA)", vinculado ao projeto de extensão Narrativas e Representações, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). A comunidade da Laginha está localizada no município de Várzea do Poço, pertencente ao Território de Identidade Bacia do Jacuípe, situado no semiárido baiano. O plano de trabalho tem como principal objetivo registrar narrativas de memórias das mulheres da zona rural da comunidade apresentada, principalmente no que se refere às experiências vivenciadas no grupo União Sabores. Trata-se de uma agroindústria comunitária formada por mulheres da comunidade, voltada à produção de alimentos derivados da agricultura familiar, que se consolidou como uma estratégia de geração de renda, referência de resistência e empreendedorismo no semiárido baiano.
A relevância do registro reside no fato de que a memória coletiva atua como um pilar fundamental para o fortalecimento das práticas culturais e laborais das comunidades camponesas. A sistematização dessas experiências garante que o legado de luta e produção das mulheres agricultoras seja preservado como patrimônio cultural para as futuras gerações.
A proposta da ação extensionista consistiu em conhecer e registrar as experiências e narrativas do grupo, bem como produzir materiais de divulgação, com vistas à socialização das narrativas e ao fortalecimento dos vínculos comunitários. No contexto da comunidade da Laginha, registrar as memórias das mulheres da agroindústria União Sabores significa assegurar que sua luta, criatividade e resistência não se percam no tempo e que estas sejam incorporadas como parte constitutiva da identidade e do desenvolvimento comunitário local.
As rodas de conversa e entrevistas constituem os principais meios utilizados para registro das narrativas locais, materiais importantes para conhecimento das experiências laborais e culturais da comunidade, permitindo que jovens tenham acesso à memória do desenvolvimento das comunidades locais como um todo. Assim, a memória transforma-se em instrumento de continuidade histórica, fortalecimento cultural e inspiração para futuros projetos coletivos.
A partir da transcrição e da escuta das narrativas coletadas, observa-se o potencial do registro dessas experiências como base para análises posteriores acerca do reconhecimento social e do papel das mulheres na agroindústria comunitária, especialmente no que se refere às dimensões do trabalho, da organização coletiva e da identidade territorial. Esses aspectos serão aprofundados no campo da análise e das considerações finais, a partir da compreensão das memórias compartilhadas pelas integrantes do grupo União Sabores.
2. Memória, narrativa e experiência: contribuições teóricas
A memória constitui um elemento central para a compreensão das transformações sociais e das experiências coletivas. Para Ecléa Bosi (1994), um mundo social que não vivenciamos diretamente pode chegar até nós por meio da memória dos mais velhos, permitindo que seja compreendido por outras gerações e contribuindo, inclusive, para a humanização do presente. Nesse sentido, a memória ultrapassa a dimensão individual e assume uma função social, educativa e histórica.
Bosi (1994, p. 33) ressalta a importância da narrativa como ferramenta de preservação e transmissão da memória coletiva. A autora destaca que o registro das experiências vividas pelas comunidades é fundamental para que as novas gerações conheçam e valorizem sua própria história. A narrativa, enquanto forma de expressão da memória, possibilita a transmissão de experiências vividas e a construção de sentidos compartilhados. A narrativa se desenvolve no tempo e recupera, na própria voz do narrador, o fluxo entre passado e presente, permitindo que as experiências sejam reinterpretadas à luz do tempo atual. O narrador, ao compartilhar sua história, imprime no relato sua trajetória, seus sentimentos e sua visão de mundo, fazendo da narrativa um espaço de produção de conhecimento e reconhecimento social.
Sobre narrativa e oralidade, Bosi (2003, p.45) afirma que: "ambas se desenvolveram no tempo, falam no tempo e do tempo, recuperando na própria voz o fluxo circular que a memória abre do presente para o passado e deste para o presente". Expõe a autora, ainda, que:
Quem está atento à escuta da voz e do pathos do narrador oral, que revive os momentos cruciais de sua vida, consegue distinguir uma fala que, ao mesmo tempo, produz imagens e conota a sentimento do tempo enquanto duração. Não é portanto uma linguagem de coisas (no sentido estreito de função referencial), pois o que se lembra são momentos vividos, respostas pessoais, em suma, a melodia do passado interpretada pelo presente. Não é uma linguagem de coisas porque o autor da narrativa oral coincide existencialmente com o seu sujeito; a duração do relato coincide com o Tempo relembrado que assim é intuído por dentro (BOSI, 2003, p. 48).
Para Bosi (1994, p .82), ao encontrar o ancião ouvidos atentos e ressonância, sua vida ganha uma finalidade social e simbólica, uma vez que a memória deixa de ser apenas lembrança individual e passa a cumprir uma função coletiva. Segundo a autora, "o vínculo com outra época, a consciência de ter suportado, compreendido muita coisa, traz para o ancião alegria e uma ocasião de mostrar sua competência" (BOSI, 1994, p. 82). Nesse sentido, a narrativa assume um papel central como forma de reconhecimento do sujeito enquanto conhecedor de saberes construídos ao longo da vida, permitindo que sua experiência seja valorizada no presente.
Esse processo evidencia que a memória não se constitui de forma isolada, mas se constrói na relação entre quem narra e quem escuta, promovendo uma circulação de conhecimentos que atravessa pessoas, gerações e contextos históricos distintos. O ato de narrar, portanto, pressupõe a existência da escuta, sendo esta condição fundamental para que a experiência narrada produza sentido e continuidade.
Para Larrosa (2011, p.21), experiência é [...] o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que passa, não o que acontece, ou que toca [...]". O ato de narrar está imbricado com as relações sociais vivenciadas por cada sujeito. As narrativas refletem a realidade social e cultural dos narradores, ao mesmo tempo em que possibilitam ao leitor e ao ouvinte transporem a narrativa e refletirem sobre temas sociais em tempos e espaços diferenciados.
Considera-se a experiência como aquilo que nos acontece, nos toca e nos atravessa, sendo constitutiva da formação dos sujeitos. O ato de narrar, nesse contexto, articula experiência, memória e educação, possibilitando que as histórias individuais se transformem em referências coletivas, especialmente em territórios marcados pela tradição oral e pelo trabalho comunitário.
Essa compreensão dialoga com o entendimento de Walter Benjamin (1994), ao afirmar que a narrativa constitui uma forma artesanal de comunicação, marcada pela experiência vivida e pela posição do narrador. Para o autor, narrar é compartilhar experiências impregnadas de sentido social e afetivo, estabelecendo uma relação de proximidade entre quem conta e quem escuta. Assim, a narrativa não se apresenta como um relato neutro, mas como uma forma de transmissão de experiências situadas historicamente.
No campo da educação, Paulo Freire (1982) destaca a importância da valorização das experiências vividas e das narrativas populares como elementos constitutivos dos processos educativos. Para o autor, a prática educativa não é neutra e se constrói a partir do diálogo, da escuta e do reconhecimento dos sujeitos como produtores de saber. A autonomia, nesse sentido, constitui-se como um processo contínuo, desenvolvido a partir de experiências que estimulam a responsabilidade, a decisão e a liberdade. A documentação das narrativas e histórias de áreas camponesas constitui um trabalho essencial, pois teria como uma das suas funções guardar e transmitir as experiências vivenciadas pelo homem do campo.
Um excelente trabalho, numa área popular, sobretudo camponesa, que poderia ser desenvolvido por bibliotecárias, documentalistas, educadoras, historiadoras seria, por exemplo, o do levantamento da história da área através de entrevistas gravadas, em que as mais velhas e os mais velhos habitantes da área, como testemunhos presentes, fossem fixando os momentos fundamentais da sua história comum (FREIRE, 1982, p. 39).
Atualmente essa pedagogia freiriana é a base da organização coletiva de mulheres produtoras no Semiárido. Silva (2024), ao analisar a experiência das agricultoras familiares no interior do Nordeste, demonstra que a organização em rede funciona como um processo de educação permanente, no qual a troca de saberes sobre sementes crioulas e o manejo de quintais produtivos fortalece não apenas a economia, mas a autonomia e a segurança alimentar. A documentação dessas histórias, portanto, não é um fim em si mesma; ela configura-se como uma estratégia de "tecer redes de resistência" que garante a sustentabilidade do viver no campo diante das adversidades climáticas e sociais. A atualidade desse pensamento é evidenciada na construção de territórios saudáveis e sustentáveis no Semiárido baiano, onde a mobilização coletiva dessas mulheres prova que o diálogo e a organização em rede são ferramentas essenciais para a conquista da soberania alimentar e da emancipação feminina (SILVA, 2024).
Assim, contar histórias é também um exercício coletivo de partilha, no qual a memória individual se transforma em patrimônio social e educativo. Nesta perspectiva, as histórias de vida de mulheres agricultoras revelam que o ato de narrar é uma forma de luta contra a invisibilidade, processo no qual o "contar se torna um instrumento político de afirmação de identidade e de defesa da terra" (BACKES; GIONGO; CÚNICO, 2023).
Silva (2024) afirma que essa valorização da memória é um pilar da agroecologia e da saúde nos territórios, visto que o resgate de trajetórias ancestrais serve como resistência ao apagamento cultural imposto por modelos de desenvolvimento predatórios.
Compreender a importância de registrar essas narrativas e a relevância social do ato de narrar implicou no desenvolvimento de ações extensionistas com comunidades do campo do semiárido baiano, de modo a valorizar e promover maior fortalecimento da autonomia local. Como aponta Costa (2023), a extensão universitária deve ser pensada "de baixo para cima", sob a premissa de que a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Essa metáfora reflete a necessidade de que a produção de conhecimento seja pautada na realidade concreta e nas demandas do território, transformando a universidade em um espaço de escuta ativa das potencialidades e dos saberes das comunidades locais.
3. Metodologia
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa que objetiva analisar uma experiência extensionista, por meio do registro de narrativas das mulheres do grupo União Sabores. A ação extensionista foi desenvolvida na sede de fabricação dos produtos comercializados pelo grupo, localizada na própria comunidade da Laginha, no município de Várzea do Poço/BA. No momento da realização das entrevistas, o grupo era composto por cinco integrantes. Além disso, o trabalho contou com diálogo com cooperativas e associações vinculadas ao desenvolvimento local.
A proposta metodológica contemplou o levantamento de fontes bibliográficas, documentos e fotografias, assim como o registro das narrativas e a produção de materiais sobre o grupo de mulheres da comunidade. Durante o percurso, buscou-se conversar com as mulheres e demais sujeitos envolvidos no processo de criação e consolidação da agroindústria local, vinculada ao Projeto Pró-Semiárido, com o objetivo de conhecer os principais acontecimentos que marcaram a trajetória da comunidade da Laginha. O Projeto Pró-Semiárido é uma ação do Governo do Estado da Bahia, executada pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), que visa o desenvolvimento rural sustentável e o fortalecimento da agricultura familiar no semiárido baiano.
A proposta de extensão nasce do objetivo de conhecer as experiências laborais e culturais de mulheres da comunidade de Laginha, que transformaram sua realidade por meio do trabalho coletivo e da agricultura familiar. As rodas de conversa ocorreram em espaços estratégicos na própria comunidade da Laginha, como a sede da associação e a feira local no município de Várzea do Poço/Ba, respeitando os horários e as dinâmicas cotidianas da comunidade.
"[...] As rodas de conversa priorizam discussões em torno de uma temática, de modo a tornar possível dar visibilidade às práticas relacionadas à interação cotidiana [...]" (MÉLLO et al., 2007, p.30). Durante os encontros, foram realizadas perguntas voltadas ao conhecimento das integrantes e de suas histórias, além da abordagem de temas relacionados à memória da agroindústria, desafios do trabalho feminino, organização, tradição alimentar e economia solidária. O objetivo foi criar um espaço seguro e participativo para que as mulheres compartilhem suas histórias e experiências. As falas foram registradas em áudio e vídeo, com autorização das participantes, e, posteriormente, organizadas e transcritas para produção de materiais para fins educativos e comunitários, permitindo o resgate da memória local e a construção coletiva de reconhecimento e pertencimento.
3.1. Caminho Histórico: Estrada, percursos e consolidação
Para desenvolvimento do estudo, foi necessário entender o contexto histórico do surgimento do grupo de mulheres União Sabores e sobre a importância dos momentos vividos pela comunidade e seu papel estratégico na construção do grupo social. A apresentação dos dados foi construída por meio da escuta ativa sobre as vivências locais e as ações resultantes da organização coletiva do grupo, especialmente das mulheres que atuam diretamente na agroindústria.
A trajetória histórica da Associação de Pequenos Produtores Rurais da Laginha (APPRL) e de sua agroindústria iniciou-se formalmente no dia 1º de agosto de 1992, com a realização da primeira reunião da comunidade para discutir a criação de uma associação local. A motivação central para essa organização era garantir maior liberdade frente à dependência política e buscar políticas públicas e direitos que promovessem a igualdade social. Dois anos depois, em 27 de novembro de 1994, a Associação Comunitária foi oficialmente fundada por membros da comunidade, com o objetivo principal de organizar a comunidade para a busca de recursos e melhorias coletivas.
Ainda na década de 1990, o primeiro grande projeto da associação foi a construção de sua sede própria, realizada por meio de mutirões comunitários. Nesse período, uma parceria com o Banco do Nordeste possibilitou o acesso a uma linha de crédito que beneficiou 19 produtores, permitindo a compra de terras e a aquisição de gado bovino e caprino. Apesar desses avanços, a comunidade enfrentava grandes necessidades, como a precariedade das moradias, a crise econômica e a falta de transporte, energia elétrica e água adequada.
Nos anos 2000, a associação expandiu sua infraestrutura com o apoio de projetos como o do Banco do Nordeste, que incluiu um curso técnico e acompanhamento pela Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola S.A — EBDA (atualmente DAB). Foram adquiridos e construídos equipamentos essenciais, como a Casa do Mel, a Casa de Farinha, um Banco de Sementes, um galpão comunitário e diversas máquinas agrícolas. Outra parceria relevante ocorreu com a Diocese de Rui Barbosa, que promoveu a implantação de criatórios de galinhas e cabras, além de auxiliar na atualização dos estatutos da associação.
Nesse contexto adverso, em meio à crise financeira e à redução do quadro de sócios, emergiu a primeira liderança feminina da comunidade, responsável por conduzir o processo de criação formal da agroindústria local. Enfrentando barreiras relacionadas ao machismo e ao preconceito, essa liderança perseverou com o objetivo de gerar renda para as famílias, especialmente para as mulheres, promovendo autonomia financeira, fortalecimento da autoestima e maior liberdade no trabalho.
Esse processo resultou na criação do Grupo de Mulheres, que deu origem à agroindústria comunitária focada na produção de bolos, biscoitos, pães, pizzas e outros alimentos produzidos com derivados da agricultura familiar. A partir das memórias do trabalho narradas pelas próprias mulheres, como uma prática produtiva construída ao longo do tempo, baseada na experiência vivida, na transmissão de saberes e no vínculo entre trabalho, vida cotidiana e pertencimento comunitário. Nessa perspectiva, o trabalho assume não apenas uma dimensão econômica, mas também simbólica e social, conferindo sentido e identidade ao fazer produtivo no território da Laginha, conforme compreende Bosi (1994) ao tratar da memória como elemento constitutivo das práticas sociais.
A consolidação do empreendimento contou com o Projeto Pró-Semiárido, que instalou a cozinha comunitária, e novamente com o apoio da Diocese de Rui Barbosa para a construção de cisternas e canteiros produtivos. Além disso, a sobra de recursos do antigo projeto do Banco do Nordeste permitiu a compra de um trator. Ao longo dessa trajetória, integrantes da comunidade da Laginha, tornaram-se marcos na história da associação, que passou a ser reconhecida pela promoção da igualdade social, pelo fortalecimento dos quintais produtivos e das ordenhas comunitárias, e pela atuação de parceiros como CAR, Cesol, Cetaf, Instituto Agrovida e o Sindicato da Agricultura Rural.
Atualmente, a agroindústria expandiu suas vendas, acessou novos mercados e conquistou o Selo Nacional da Agricultura Familiar (SEPAF), além de organizar suas informações nutricionais e divulgação. O legado construído desde 1992 reflete-se na sustentabilidade, geração de renda, independência econômica e valorização da agricultura familiar, garantindo a fixação das famílias no campo e o fortalecimento do respeito e do protagonismo feminino no município de Várzea do Poço.
4. Resultados/análises
O projeto de trabalho extensionista envolveu, sobretudo, o diálogo com as mulheres da comunidade da Laginha, no município de Várzea do Poço, na medida em que se visou conhecer e compreender as práticas produtivas, organizativas e sociais desenvolvidas pelo grupo, reconhecendo essa experiência como uma forma concreta de organização coletiva e protagonismo feminino. Com os registros das narrativas através da realização de rodas de conversa, foi possível contribuir para a construção de materiais que dão visibilidade à trajetória dessas mulheres e à relevância econômica, cultural e social do trabalho que desenvolvem.
Para preservar a identidade das participantes, adotou-se um código alfabético (Participante A, B, etc.), garantindo o anonimato e a ética na apresentação dos depoimentos. As falas revelam experiências marcadas pelo trabalho coletivo e pela resistência. Conforme relatado por uma das líderes do grupo, "o grupo foi criado há mais de 12 anos, numa época em que havia muita carência, e foi aí que as mulheres tiveram a ideia de criar um grupo". Essa organização coletiva reflete o que Backes, Giongo e Cúnico (2023) identificam como a "Terra lutando para sobreviver" por meio das mãos femininas. Embora as autoras tratem sobre outros contextos, a realidade da Laginha dialoga com essa teoria, pois as histórias de vida dessas mulheres manifestam uma subjetividade política que confronta a lógica patriarcal no campo.
No que se refere às práticas cotidianas, a Participante A afirma que a União Sabores se estrutura na cooperação: "uma associação que recebe bem as pessoas, uma associação amiga, que está junto". Esse caráter inclusivo demonstra uma organização baseada na confiança e na ação coletiva, fortalecendo vínculos que extrapolam os limites da comunidade. Além disso, as narrativas evidenciam que a atuação não se restringe à produção, mas envolve o fortalecimento da agricultura familiar e da economia local, aproximando-se dos princípios da economia solidária, pautada na reciprocidade e valorização do trabalho coletivo.
Quanto ao suprimento da produção, os depoimentos indicam que os insumos são adquiridos majoritariamente na própria região. A Integrante A relata: "a gente pega o licuri da própria comunidade e também das comunidades vizinhas, para ajudar a agricultura familiar". Essa prática de adquirir insumos localmente materializa os princípios de territórios saudáveis. De acordo com Silva (2024), que estuda a construção desses territórios no Semiárido, a articulação em rede e a convivência com o bioma transformam a economia solidária em uma ferramenta de cuidado com a vida e com a natureza, fortalecendo a circulação de renda no território.
Por outro lado, os depoimentos revelam desafios estruturais severos. As participantes destacam que "o maior desafio que a gente enfrenta hoje é não ter água encanada", além dos altos custos com transporte para feiras. Ao analisarmos esses desafios mencionados pelas mulheres da União Sabores, o texto ganha profundidade ao dialogar com a função da extensão universitária. A carência de infraestrutura relatada reforça a necessidade de uma extensão que não seja assistencialista, mas que atue na capilaridade dos municípios. Como apontam Costa et al. (2023), a extensão de auxiliar na articulação política e na denúncia de desigualdades históricas, transformando a universidade em um espaço de escuta ativa das demandas reais das comunidades.
Os depoimentos anteriormente citados pelas participantes revelam experiências marcadas pelo trabalho coletivo, pela solidariedade e pela resistência no contexto do meio rural, evidenciando como a atuação das mulheres camponesas ultrapassa a dimensão produtiva e assume também um papel central na organização comunitária e na reprodução social da comunidade.
As falas também apontam que a União Sabores se estrutura a partir de princípios de cooperação, acolhimento e solidariedade, extrapolando os limites territoriais da comunidade da Laginha. Esse caráter inclusivo contribui para o fortalecimento dos vínculos sociais e para a construção de uma identidade coletiva compartilhada entre mulheres de diferentes comunidades.
Além disso, as narrativas evidenciam que a atuação das mulheres camponesas não se restringe à produção de alimentos, envolve também o fortalecimento da agricultura familiar e da economia local. Esse modo de organização dialoga com a compreensão de agricultura familiar enquanto prática produtiva baseada no trabalho da própria família, na valorização dos saberes locais e na articulação com o território. Nesse sentido, a experiência da União Sabores aproxima-se também dos princípios da economia solidária, entendida como uma forma de organização econômica pautada na cooperação, na reciprocidade e na valorização do trabalho coletivo.
Sobre a memória do trabalho no campo, observou-se que quanto mais as pessoas na velhice recordam de um trabalho que fizeram com paixão, mais se esforçam em compartilhar, com quem escuta, as experiências do ofício. Esse movimento aparece nos depoimentos quando as mulheres detalham os processos produtivos e o cuidado com os insumos, revelando orgulho, pertencimento e compromisso coletivo com o trabalho desenvolvido.
O narrador recorre ao acervo da vida, que inclui experiências suas e alheias. Quem escuta uma história, ou ao ler, está em companhia do narrador. Nesse sentido, os depoimentos das mulheres do grupo União Sabores confirmam a compreensão benjaminiana de que narrar é compartilhar experiências vividas, impregnadas de sentido social e afetivo, ainda que Benjamin também aponte o enfraquecimento da escuta no mundo moderno (BENJAMIN, 1994).
As narrativas não se apresentam como relatos neutros ou distanciados, são discursos situados, nos quais as mulheres marcam sua posição na história que narram e no tempo presente em que essa história é contada. Esse aspecto se evidencia no depoimento da participante A integrante do grupo desde seus primeiros anos, ao afirmar que "foi numa época de muita carência que as mulheres tiveram a ideia de criar o grupo, porque era difícil sustentar a família só com o pouco que tinha", evidenciando que a narrativa é atravessada pelo olhar crítico sobre o passado e pelo reconhecimento do protagonismo feminino no presente.
Após o registro das narrativas, foram produzidos materiais escritos e audiovisuais (como vídeos e fotos), que podem ser utilizados pelo grupo para divulgação das ações em espaços públicos, como feiras, praças e eventos institucionais, ampliando o reconhecimento da agroindústria no território. Desse modo, ao atuarem como protagonistas de suas próprias histórias, essas mulheres fortalecem sua autoestima, ampliam sua capacidade de articulação com instituições e conquistam novas possibilidades de comercialização. Outro impacto esperado é o estímulo à formação de novas lideranças femininas na região, contribuindo para a continuidade do trabalho coletivo e a expansão de práticas solidárias e sustentáveis. Tal fortalecimento é um resultado direto do que Costa et al. (2023) definem como o papel transformador da universidade pública ao valorizar o saber local, garantindo que o conhecimento acadêmico seja socialmente referenciado e útil à transformação da realidade camponesa.
As práticas extensionistas realizadas por meio das rodas de conversa proporcionaram um momento de integração entre a Universidade e a comunidade de Laginha, criando um ambiente acolhedor, favorável ao diálogo e à partilha de saberes. Os materiais produzidos a partir das narrativas registradas, como textos, registros audiovisuais e fotografias, configuram-se como instrumentos que podem contribuir para a construção de estratégias pedagógicas contextualizadas à realidade local, fortalecendo processos educativos que dialogam com a história, a cultura e as práticas sociais da comunidade.
Por fim, o estudo reafirma o papel da universidade pública como agente de transformação social, promovendo o diálogo entre saberes acadêmicos e comunitários e fortalecendo os vínculos entre universidade e sociedade.
6. Conclusões/Implicações
Entende-se que o ato de narrar encontra-se enfraquecido ao longo do desenvolvimento do mundo moderno, especialmente em função da aceleração dos processos produtivos e comunicacionais, que tendem a simplificar e reduzir as experiências humanas. Esse cenário contribui para o afastamento das narrativas do espaço da escuta atenta e do diálogo, o que reforça a importância de iniciativas que resgatem a narrativa como prática social, educativa e formativa.
A experiência extensionista desenvolvida junto às mulheres do grupo União Sabores, na comunidade da Laginha, evidenciou que os processos educativos ultrapassam os limites da escola e se constroem de forma viva nos territórios, nas relações sociais e nas práticas coletivas. Ao registrar e analisar as narrativas de memória dessas mulheres, foi possível compreender o trabalho, a organização comunitária e a produção de alimentos como espaços de aprendizagem, formação política e construção de cidadania no contexto da educação do campo.
As memórias compartilhadas revelaram avanços significativos relacionados à autonomia econômica, à autoestima, às relações de gênero, à valorização da tradição alimentar e à organização comunitária. Esses elementos demonstram que a criação da agroindústria comunitária do grupo União Sabores se constituiu como um marco importante na consolidação da identidade coletiva do grupo no território, articulando trabalho, memória e pertencimento.
As rodas de conversa configuraram-se como práticas educativas não formais fundamentais, baseadas no diálogo, na escuta e na valorização dos saberes populares. Por meio dessas práticas, as mulheres puderam refletir sobre suas trajetórias, reconhecer o próprio protagonismo e fortalecer a identidade coletiva construída no âmbito do grupo, reafirmando a memória como instrumento de formação, continuidade histórica e resistência no contexto da educação do campo.
A ação extensionista também reafirmou o papel da universidade pública como mediadora de processos educativos comprometidos com a transformação social. A relação horizontal estabelecida com a comunidade possibilitou a troca entre conhecimento acadêmico e saberes populares, contribuindo para o fortalecimento comunitário e para a formação crítica, ética e cidadã da estudante envolvida, além de reforçar a extensão universitária como espaço de produção de conhecimento socialmente referenciado.
Por fim, conclui-se que experiências como esta contribuem para o reconhecimento das mulheres do campo como produtoras de saber, trabalho e educação, ao mesmo tempo em que apontam para a necessidade de continuidade e ampliação de ações extensionistas que articulem educação, gênero e desenvolvimento comunitário. A experiência com o grupo União Sabores demonstra que a educação, quando construída a partir do território e das vivências coletivas, constitui-se como uma ferramenta potente de autonomia, resistência e transformação social.
Abstract
This study aims to analyze the extension activities developed through the work plan “Registration of Narratives and Memories of Women from the Rural Area of the Lajinha Community, in Várzea do Poço (BA),” linked to the project “Narratives and Representations” at the State University of Feira de Santana. It seeks to understand and document narratives about the activities of the women farmers’ group União Sabores, which produces artisanal foods derived from cassava and licuri. The study is grounded in the works of Benjamin (1994), Bosi (1994), and Freire (1982) in order to highlight the value of narratives as instruments of memory, resistance, and emancipation. The methodology is based on participatory research, including interviews and conversation circles. The main contribution to the community is the production of written and audiovisual materials that promote knowledge of local cultural practices and support the development of contextualized pedagogical and community strategies. Peasant women are recognized as agents of transformation, as well as the importance of solidarity economy and family farming for the sustainable development of the semi-arid region of Bahia.
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