Palavras-chave
relação com o saber; Estudantes de Medicina; Perfil Socioeconômico
Autores
O debate acerca da formação médica tem ocupado lugar de destaque nas pesquisas em Educação e Ciências da Saúde, sobretudo diante das transformações sociais, econômicas e institucionais que atravessam o Ensino Superior no Brasil. Inserido nesse contexto, o curso de Medicina, especialmente no setor privado, caracteriza-se por elevada concorrência, carga horária intensa e mensalidades expressivas, fatores que incidem diretamente sobre o perfil dos estudantes que conseguem acessar e permanecer nessa formação.
Partindo da compreensão de que aprender é uma atividade dotada de sentido para o sujeito, este estudo fundamenta-se na teoria da Relação com o Saber, proposta por Bernard Charlot, segundo a qual toda relação com o conhecimento envolve dimensões epistemológicas, identitárias e sociais. Assim, interessa compreender não apenas o que os estudantes aprendem, mas quem são esses sujeitos, em que condições aprendem e que sentidos atribuem à sua formação.
Com esse entendimento, o problema que orienta este artigo pode ser sintetizado na seguinte questão: qual é o perfil dos estudantes de Medicina da Faculdade AGES e como esse perfil se articula com a relação que estabelecem com o saber no contexto de sua formação acadêmica? O objetivo geral é analisar a relação com o saber desses estudantes, tomando como foco os dados provenientes do questionário aplicado, que delineiam seu perfil socioeconômico, educacional e formativo.
Nessa direção, a relevância do estudo reside na possibilidade de ampliar o campo de investigações sobre a relação com o saber, tradicionalmente voltado para contextos de fracasso escolar, ao lançar luz sobre estudantes em situação de sucesso acadêmico e pertencentes a camadas sociais mais elevadas. Ao fazê-lo, busca-se contribuir para a compreensão da formação médica no ensino superior privado e para o debate sobre os sentidos do aprender em cursos socialmente valorizados.
A teoria da Relação com o Saber em Bernard Charlot
A noção de Relação com o Saber, desenvolvida por Bernard Charlot no campo das Ciências da Educação, constitui o eixo teórico central deste estudo. Tal noção emerge, inicialmente, como uma chave interpretativa para compreender o fracasso escolar, sobretudo entre estudantes das camadas populares, deslocando a análise de explicações deterministas ou deficitárias para uma compreensão relacional do aprender.
Charlot (2000) define a relação com o saber como o conjunto organizado das relações que um sujeito mantém com tudo aquilo que está ligado ao aprender e ao saber. Essa relação não se restringe aos conteúdos escolares, mas envolve o mundo, os outros e o próprio sujeito, sendo atravessada por dimensões temporais, sociais, culturais e simbólicas. Aprender, nessa perspectiva, é sempre uma atividade carregada de sentido, na qual o sujeito se mobiliza a partir de razões que tornam o saber desejável.
O autor explicita que a relação com o saber se estrutura em três dimensões indissociáveis: a dimensão epistemológica, que diz respeito à natureza do saber, às formas de aprender e às atividades cognitivas envolvidas; a dimensão identitária, relacionada à construção de si, aos projetos de vida e à imagem que o sujeito constrói de si mesmo enquanto aprendiz; e a dimensão social, que envolve as condições objetivas de existência, as origens sociais, as relações familiares, escolares e institucionais.
Nesse sentido, não há aprendizagem sem desejo. Para Charlot (2000), o desejo é o motor da mobilização do sujeito diante do saber. O sujeito aprende porque encontra boas razões para aprender, e essas razões estão ancoradas em sua história, em seus projetos e em sua relação com o mundo. Assim, compreender a relação com o saber de estudantes de Medicina implica analisar os sentidos que atribuem ao aprender Medicina, considerando suas trajetórias, expectativas e condições de existência.
Embora a teoria da Relação com o Saber tenha se consolidado a partir de estudos sobre o fracasso escolar, o próprio Charlot (2006b) aponta a necessidade de ampliar esse campo de investigação para outros contextos, como o Ensino Superior. Nesse horizonte, estudar estudantes em situação de sucesso acadêmico, pertencentes a camadas sociais favorecidas, permite tensionar e enriquecer a teoria, evidenciando a pluralidade das relações com o saber.
Formação médica e o ofício da profissão
A formação médica caracteriza-se por um conjunto complexo de exigências técnicas, científicas, éticas e humanas. O desenvolvimento de competências é considerado o eixo estruturante da formação do futuro médico, conforme estabelecido pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para o curso de Medicina.
A competência médica não se restringe à posse de conhecimentos teóricos, mas envolve a capacidade de mobilizar saberes, habilidades, atitudes e valores em situações concretas, frequentemente marcadas por incerteza, urgência e responsabilidade ética (PERRENOUD, 1998; GONTIJO et al., 2013). Ser competente, nesse sentido, implica saber agir, decidir e se posicionar diante da complexidade da prática profissional.
Autores como Gonzalez e Branco (2003) ressaltam que o ofício médico é, fundamentalmente, a arte do encontro com o outro. A prática médica exige reconhecer o paciente como sujeito singular, dotado de história, sentimentos e significados, indo além de uma abordagem estritamente biologicista. A formação médica, portanto, deve contemplar não apenas o domínio técnico-científico, mas também o desenvolvimento de competências humanísticas, comunicativas e éticas.
Nesse contexto, metodologias ativas de ensino, como a Aprendizagem Baseada em Problemas (Problem Based Learning – PBL), têm sido amplamente adotadas nos cursos de Medicina, incluindo o da Faculdade AGES. Tais metodologias colocam o estudante no centro do processo formativo, atribuindo-lhe protagonismo e responsabilidade pela própria aprendizagem, o que incide diretamente sobre sua relação com o saber.
Processos Metodológicos
A pesquisa que fundamenta este artigo caracteriza-se como um estudo de abordagem predominantemente qualitativa, articulada ao uso complementar de dados quantitativos, especialmente aqueles relativos ao perfil socioeconômico dos estudantes, foco central desta análise. A investigação foi desenvolvida no contexto da Faculdade AGES de Medicina, instituição privada de Ensino Superior localizada no município de Jacobina, no estado da Bahia.
Participaram desta pesquisa estudantes regularmente matriculados no curso de Medicina da Faculdade AGES de Medicina, em diferentes etapas da formação, com ingresso a partir do segundo semestre de 2017, ano de constituição da primeira turma do curso. Os dados analisados neste artigo foram coletados no primeiro semestre de 2020, período em que o curso contava com 331 estudantes matriculados, dos quais trinta e um (31) responderam ao questionário. Embora a investigação mais ampla tenha utilizado distintos instrumentos de produção de dados, este artigo apresenta exclusivamente as informações obtidas por meio desse instrumento, em consonância com o foco analítico adotado.
O questionário foi elaborado com o objetivo de caracterizar o perfil socioeconômico, educacional e familiar dos estudantes, bem como aspectos de sua trajetória acadêmica. Composto por questões fechadas e descritivas, o instrumento possibilitou a sistematização e a análise de dados de natureza quantitativa e qualitativa, de caráter predominantemente descritivo, adequados à proposta de caracterização do perfil dos participantes.
A aplicação do questionário ocorreu de forma remota, em decorrência do contexto de distanciamento social vigente à época, observando-se os princípios éticos que regem a pesquisa com seres humanos. Os participantes foram devidamente esclarecidos quanto aos objetivos do estudo e ao caráter voluntário de sua participação, sendo garantidos o anonimato, a confidencialidade das informações e a utilização dos dados exclusivamente para fins científicos. O projeto foi submetido à Plataforma Brasil e aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa.
Os estudantes da Faculdade AGES de Medicina: perfil
Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), referentes ao Enade 2019, indicam que 76% dos estudantes participantes eram oriundos de instituições privadas de ensino superior e 24% de instituições públicas. Entre os concluintes da graduação, observou-se predominância feminina (55%) e de estudantes brancos (54%), além de maior escolaridade familiar, com 8% dos pais e 16% das mães possuindo graduação. No que se refere à renda, prevaleceram estudantes de famílias com até três salários mínimos (46%), enquanto 22% pertenciam a famílias com renda superior a seis salários mínimos (BRASIL/INEP, 2020).
Entretanto, os dados relativos ao curso de Medicina exigem análise específica. Historicamente, a formação médica apresentou um perfil predominantemente masculino e elitizado (FERREIRA et al., 2000), ainda que, nas últimas décadas, mudanças importantes tenham sido observadas. Entre os concluintes de Medicina em 2019, os dados do Enade indicam predominância feminina (59,1%), perfil majoritariamente branco (67%) e elevada escolaridade familiar, com 57,7% dos pais e 66,1% das mães possuindo graduação. Quanto à renda, 55,5% dos estudantes concentram-se nas faixas superiores (acima de três salários mínimos), evidenciando a permanência de um perfil socioeconômico mais favorecido (BRASIL, 2019b).
Apesar da ampliação do acesso ao ensino superior, os elevados níveis de renda familiar permanecem como traço marcante entre os estudantes de Medicina, corroborando as análises de Ristoff (2014), segundo as quais esse grupo apresenta renda significativamente superior à média da população brasileira. Esse perfil relaciona-se, entre outros fatores, ao predomínio de instituições privadas na oferta do curso, responsáveis por 60,8% dos cursos de Medicina no país, e aos altos custos das mensalidades, que, em 2020, variavam entre R$ 5.000,00 e quase R$ 13.000,00 (BRASIL, 2019b).
Na Faculdade AGES de Medicina, a mensalidade vigente no início da pesquisa, em 2020, era de R$ 8.887,73, alcançando aproximadamente R$ 11.000,00 em 2022. Trata-se de um custo elevado, que tende a selecionar estudantes com melhores condições socioeconômicas, embora não exclua a incidência de políticas públicas de acesso, como o ProUni e o Fies, bem como de iniciativas institucionais de bolsas e financiamentos.
Os dados do questionário indicam que a maioria dos estudantes investigados é composta por alunos pagantes, correspondendo a 65% (20) do total. Outros 26% (8) declararam financiar parcialmente o curso, combinando recursos próprios com programas de financiamento, como o Pravaler ou o P-Fies. Além disso, 9% (3) dos estudantes informaram ser beneficiários de bolsas, oriundas do ProUni ou de programas institucionais, como o PROAGES. Entre os estudantes inicialmente classificados como pagantes, 13% (4) declararam ter suas mensalidades custeadas por terceiros, como parentes, amigos ou empregadores, evidenciando diferentes arranjos de financiamento no interior do grupo analisado.
No que se refere aos programas de financiamento, o Pravaler caracteriza-se por maior flexibilidade de acesso, podendo ser solicitado em qualquer período, sem exigência de participação no Enem ou de escolarização prévia em escola pública. Para sua contratação, contudo, são estabelecidos critérios como a apresentação de garantidor com renda mínima, a comprovação de renda familiar compatível com o valor da mensalidade, a regularidade do CPF e a ausência de restrições de crédito, além da vedação ao financiamento simultâneo de cursos de graduação e pós-graduação.
Já o P-Fies, conforme disposto no edital nº 38, de 28 de maio de 2019, estabelece critérios mais restritivos, exigindo participação no Enem a partir de 2010, desempenho mínimo nas provas e limites de renda familiar mensal bruta per capita, que variam de até três salários mínimos para o Fies e até cinco salários mínimos para o P-Fies (BRASIL, 2019a).
No âmbito do ProUni, as bolsas ofertadas seguem as diretrizes da Lei nº 11.096, de 13 de janeiro de 2005, que estabelece a obrigatoriedade de concessão mínima de uma bolsa integral para cada 10,7 estudantes pagantes regularmente matriculados. O programa prevê bolsas integrais para estudantes com renda familiar bruta per capita de até um salário mínimo e meio e bolsas parciais (50%) para aqueles com renda de até três salários mínimos (VIEIRA, 2017).
Entre os tipos de financiamento identificados, o Pravaler exige a comprovação de renda mais elevada: o garantidor, isoladamente ou em conjunto com o estudante, deve demonstrar renda equivalente a 2,2 vezes o valor da mensalidade, o que, no curso de Medicina, corresponde a aproximadamente R$ 19.553,00. Considerando que o garantidor costuma ser um familiar ou pessoa próxima, infere-se que tanto os estudantes que custeiam integralmente o curso com recursos próprios (52% – 16) quanto aqueles que recorrem ao Pravaler (26% – 8) estão inseridos em contextos familiares com maior capacidade econômica. Essa condição é corroborada pelo fato de que 58% (18) dos estudantes declararam renda familiar superior a dez salários mínimos, enquanto apenas 6% (3) informaram renda de até quatro salários mínimos, conforme apresentado na tabela abaixo:
Importa destacar que os dados iniciais sofreram alterações após a realização das entrevistas. Parte dos estudantes que haviam omitido informações (13% – 4) ou declarado renda equivalente a até dois salários mínimos, ao aprofundarem suas respostas nas entrevistas, passaram a se identificar como pertencentes a classes sociais de melhor condição socioeconômica. Em decorrência dessas reclassificações, verificou-se que 81% (25) dos estudantes pertencem às camadas sociais mais elevadas (classe média alta e alta), enquanto 19% (6) são oriundos de famílias populares (classe média e média baixa). Os resultados atualizados são apresentados na tabela a seguir.
Tabela 1 – Classe social definida após as entrevistas
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Classe |
Nº de estudantes |
Porcentagem |
|
Classe baixa |
0 |
0% |
|
Classe média baixa |
2 |
6% |
|
Classe média |
4 |
13% |
|
Classe média alta |
15 |
49% |
|
Classe alta |
10 |
32% |
|
TOTAL |
31 |
100% |
Fonte: Criação da autora (maio de 2022)
Os resultados desta pesquisa mostram-se consonantes com os dados do Enade 2019 no que se refere à renda e ao sustento dos estudantes: 87% (27) declararam ser financiados pela família. Trata-se de um curso com elevado custo e organização curricular em tempo integral, o que dificulta ou inviabiliza o exercício de atividade remunerada durante a formação e tende a selecionar estudantes oriundos de camadas socioeconômicas mais elevadas, que dependem do apoio familiar para custear os estudos.
Durante o período da pandemia, com a virtualização das atividades acadêmicas e a restrição das práticas presenciais, uma parcela reduzida dos estudantes passou a exercer atividade remunerada: 10% (3) em ocupações informais e 3% (1) em atividade formal. Esse cenário contrasta com o de estudantes de origem popular, como bolsistas de cursos de licenciatura, entre os quais apenas 34% contam com apoio familiar e 90% apresentam renda familiar de até dois salários mínimos (VIEIRA, 2017).
Em relação ao acesso a programas sociais de assistência direta, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada, 94% (29) dos estudantes informaram não ter sido beneficiários, dado coerente com o perfil socioeconômico identificado.
Quanto à ocupação dos pais ou responsáveis, predominam as profissões de empresário (42% – 13) e médico (13% – 4). Os demais 45% (14) distribuem-se entre engenheiro, advogado, servidor público, professor, agricultor, motorista e aposentado. Ainda que algumas dessas ocupações sejam comumente associadas a menor remuneração, como professor e motorista (13%), destaca-se que a atividade agrícola, no contexto regional, pode representar condição socioeconômica favorável, especialmente quando vinculada à produção em larga escala, o que reforça o perfil de maior poder aquisitivo das famílias dos estudantes investigados.
Entre as mães, também, houve prevalência do empreendedorismo com 23% (7). Professora representada por 13% (4); médica e servidora pública com 10% (3) cada; 10% (3) correspondendo às que não trabalham; 16% (6) distribuindo-se em área da saúde como psicóloga, enfermeira e assistente social; 6% (2) na área de negócios como contadora e gerente de finanças; por fim, 6% (2) estão em situação de aposentadoria e 3% (1) exercem a função de auxiliar de limpeza.
Os dados revelam predominância do sexo feminino entre os estudantes investigados, correspondendo a 71% (22), resultado consonante com tendências observadas nas escolas médicas brasileiras (ALMEIDA; SILVA, 2017; REGO et al., 2018). Embora estudos anteriores apontem hegemonia masculina no curso de Medicina (BAMPI et al., 2013; REGO et al., 2018), observa-se, nas últimas décadas, um movimento crescente de inserção feminina, associado a transformações sociais, culturais e educacionais que ampliaram o acesso das mulheres à formação médica (MILLAN, 2005 apud FIOROTTI; ROSSONI; MIRANDA, 2010).
No Brasil, esse processo é evidenciado pelo aumento da participação feminina entre os médicos mais jovens. Dados indicam que, em 2017, as mulheres já eram maioria nas faixas etárias até 29 anos (57,4%) e entre 30 e 34 anos (53,7%), embora os homens ainda predominassem no conjunto da categoria profissional (SCHEFFER, 2018). Esses resultados refletem o maior ingresso de mulheres nos cursos de Medicina.
Quanto à faixa etária, os estudantes da Faculdade AGES de Medicina são majoritariamente jovens: 83% (26) têm até 29 anos, com maior concentração entre 20 e 24 anos (45% – 13). Os demais distribuem-se entre as faixas de 30 a 34 anos (10% – 3) e acima de 34 anos (6% – 2). Esse perfil é semelhante ao observado no Enade 2019, que apontou 86,1% de estudantes com até 29 anos, e corrobora a tendência de redução da idade média dos médicos no Brasil (SCHEFFER, 2018).
Em relação à autodeclaração étnico-racial, 61% (19) dos estudantes identificam-se como brancos, 32% (10) como negros ou pardos e 6% (2) como amarelos, reproduzindo o padrão historicamente observado nos cursos de Medicina no país (FIOROTTI; ROSSONI; MIRANDA, 2010; CARDOSO FILHO, 2015). Quanto ao estado civil, predomina a condição de solteiro, com 87% (27), resultado semelhante ao do Enade 2019, que registrou 92% de solteiros entre os concluintes do curso de Medicina (BRASIL, 2019b).
Quanto à procedência dos estudantes, embora a Faculdade AGES de Medicina seja relativamente recente no município de Jacobina (BA), observa-se a atração de alunos oriundos de diferentes estados brasileiros, a saber: Bahia, Sergipe, Pernambuco, Ceará, Piauí e Mato Grosso, com predominância do estado da Bahia. Ao todo, foram mencionadas 22 cidades, sendo 13 baianas, 5 sergipanas e 2 cearenses; as demais distribuem-se entre os outros estados. Entre as cidades mais citadas destacam-se, na Bahia, Jacobina e Salvador, e, em Sergipe, Lagarto e Aracaju. Conforme a Tabela 6, 61% (19) dos estudantes são procedentes da Bahia e 23% (7) de Sergipe.
Dos 19 estudantes baianos, seis residem em Jacobina. Os demais estudantes (25) deslocaram-se de outras cidades para cursar Medicina na instituição, o que implica investimentos adicionais das famílias com moradia, alimentação e transporte, especialmente considerando que a Faculdade está localizada fora da zona urbana, no bairro Pedra Branca (BR-324).
No que se refere às condições de moradia, 52% (16) dos estudantes residem com a família, principalmente aqueles oriundos de Jacobina ou de municípios próximos. Entre os demais, 35% (11) passaram a morar sozinhos, 10% (3) em repúblicas estudantis e 3% (1) dividem apartamento com colegas. Esse padrão difere do observado por Cardoso Filho (2015), que identificou maior predominância de estudantes residindo com amigos.
Observa-se, ainda, que 90% (28) dos estudantes são oriundos de famílias com imóvel próprio, enquanto apenas 10% (3) residem em casas alugadas, resultado semelhante ao encontrado por Rego et al. (2018) em estudo com estudantes de Medicina da Universidade Federal do Pará. As condições de moradia revelam elevado padrão de infraestrutura: todas as residências possuem rede de água, esgoto, energia elétrica e banheiro; 97% (30) apresentam acabamento, 94% (29) contam com chuveiro elétrico, 87% (27) possuem piso em cerâmica ou porcelanato e 81% (25) dispõem de laje.
Quanto à dimensão das moradias, 90% (28) possuem mais de sete cômodos, sendo 58% (18) entre sete e dez e 32% (10) acima de dez cômodos. Em contraste, apenas 9% (3) residem em casas com até seis cômodos. No que se refere aos bens e equipamentos, todas as famílias possuem televisão, computador ou notebook e acesso à internet; 87% (27) dispõem de mais de um aparelho de TV. A maioria também possui automóvel (90% – 28), frequentemente mais de um (58% – 18), além de máquina de lavar (84% – 26).
Esses dados reiteram características tradicionalmente associadas ao perfil do estudante de Medicina: jovem, oriundo de famílias com elevado padrão socioeconômico e residentes em imóvel próprio , ao mesmo tempo em que evidenciam singularidades do grupo investigado, como a predominância feminina e a presença, ainda que minoritária, de estudantes de menor poder aquisitivo, possivelmente relacionada às políticas de ampliação do acesso ao ensino superior.
No que se refere à trajetória escolar, 90% (28) dos estudantes cursaram integralmente o ensino fundamental e médio em instituições privadas, e todos (100% – 31) informaram não ter histórico de reprovação. Esses dados corroboram estudos anteriores, que apontam a predominância de estudantes oriundos de escolas particulares nos cursos de Medicina, com percentuais superiores a 80% (FIOROTTI; ROSSONI; MIRANDA, 2010), mais da metade no ensino fundamental (52%) e médio (64%) (CARDOSO FILHO, 2015) e 80,2% em instituições privadas (REGO et al., 2018). Como destacam Fiorotti, Rossoni e Miranda (2010, p. 359), a elevada concorrência nos processos seletivos tende a favorecer estudantes com maior capital escolar, geralmente formados em escolas privadas, o que contribui para a manutenção de um perfil socioeconômico elevado, ainda que com variações internas. Em contraste, cursos que concentram estudantes de origem popular apresentam trajetória majoritariamente em escolas públicas e maiores índices de reprovação (VIEIRA, 2017).
Quanto à escolaridade dos pais, os dados indicam elevado nível de formação: 45% (14) dos pais e 61% (19) das mães possuem ensino superior. Esses percentuais superam os observados em outras instituições e nos resultados do Enade 2019 (REGO et al., 2018) e aproximam-se dos encontrados na Universidade Federal do Espírito Santo, onde 65% dos pais possuem formação superior (FIOROTTI; ROSSONI; MIRANDA, 2010).
Tabela 2 - Escolaridade do pai, mãe ou responsável
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Escolaridade |
Nº de pai ou responsável
|
Porcentagem de pai ou responsável
|
Nº de mãe ou responsável
|
Porcentagem ou responsável
|
|
Nunca frequentou a escola |
0 |
0% |
0 |
0% |
|
Ensino fundamental completo |
3 |
10% |
1 |
3% |
|
Ensino fundamental incompleto |
0 |
0% |
0 |
0% |
|
Ensino médio completo |
12 |
39% |
6 |
19% |
|
Ensino médio incompleto |
2 |
6% |
5 |
16% |
|
Ensino Superior completo |
10 |
32% |
10 |
32% |
|
Ensino Superior incompleto |
0 |
0% |
0 |
0% |
|
Pós-graduação (especialização) |
3 |
10% |
7 |
23% |
|
Pós-graduação (mestrado) |
1 |
3% |
1 |
3% |
|
Pós-graduação (doutorado) |
0 |
0% |
1 |
3% |
|
Não sabe informar |
0 |
0% |
0 |
0% |
|
TOTAL |
31 |
100% |
31 |
100% |
Fonte: Criação da autora (produzida em dezembro de 2020)
Um ponto de destaque é a ausência de pais sem escolarização formal (0%), conforme a Tabela 3, resultado convergente com Queiroz (2001), ao analisar cursos de alto prestígio social, como Medicina e Direito, nos quais predominam famílias com elevado nível de escolaridade. Esse perfil se confirma nesta pesquisa, pois 87% (27) dos estudantes não são os primeiros, entre pais e irmãos, a ingressarem no ensino superior, contrastando fortemente com estudos realizados em cursos de licenciatura de instituições privadas (Bicalho, 2004; Neves, 2012; Vieira, 2017), que revelam majoritariamente estudantes oriundos de famílias de baixa escolaridade.
Em Bicalho (2004), predominam estudantes cujos pais são analfabetos ou possuem apenas os anos iniciais do ensino fundamental; Neves (2012) evidencia que a maioria dos pais não alcançou o ensino superior; e Vieira (2017) aponta que mais de 90% dos genitores nunca cursaram esse nível de ensino. Esse conjunto de dados reforça a relação entre escolaridade familiar e escolha do curso, sugerindo que estudantes com pais com formação superior apresentam maior probabilidade de ingresso em carreiras socialmente mais prestigiadas.
Nesse sentido, a elevada escolaridade dos pais e as condições financeiras favoráveis de grande parte das famílias, 81% (25) situadas nas classes média alta e alta, indicam maior capacidade de assegurar aos filhos uma educação básica de qualidade, alinhada às exigências do ensino superior. Esse quadro se confirma pelo fato de mais de 80% dos estudantes receberem apoio financeiro dos pais e de 90% terem cursado a educação básica em escolas privadas. Ademais, 58% (18) realizaram curso preparatório, evidenciando o investimento familiar e a preocupação com o ingresso no curso de Medicina, caracterizado pela alta concorrência: 39% (7) pagavam até R$ 999,00; 17% (3) entre R$ 1.000,00 e R$ 2.000,00; 11% (2) acima de R$ 2.000,00; e 33% (6) eram bolsistas.
Nessa perspectiva, no contexto brasileiro, jovens oriundos das camadas sociais mais privilegiadas tendem a frequentar escolas privadas e a receber uma formação alinhada às exigências dos vestibulares, o que amplia suas chances de ingresso em universidades públicas ou privadas, em cursos socialmente prestigiados, como Medicina e Direito (OLIVEIRA, 2017). A frequência a cursinhos pré-vestibulares reforça esse processo, embora tais condições sociais, culturais e econômicas não determinem, de forma linear, o sucesso ou o fracasso escolar. Assim, rejeita-se uma leitura determinista da relação entre origem social e relação com o saber, considerando-se também o sujeito em sua dimensão humana, social e singular. À luz dessa compreensão, as próximas seções analisam os dados dos balanços de saber e das entrevistas, contemplando as dimensões epistêmicas e identitárias.
No que se refere aos finais de semana, os estudantes puderam assinalar mais de uma opção entre diferentes atividades, totalizando 102 respostas. Destas, 28% (29) indicam descanso; 25% (25), assistir a filmes e/ou séries; 21% (21), estudo; 12% (12), organização da casa; 7% (7), prática de esportes; e 4% (4), viagens, além de 4% (4) na opção “outros”, sem especificação. Quanto à ida a restaurantes, 68% (21) afirmaram frequentá-los com regularidade, 29% (9) raramente e 3% (1) nunca. Ademais, 94% (29) já viajaram para outros estados e 65% (20) para fora do país. Contudo, as entrevistas revelam estudantes intensamente sobrecarregados pelos estudos, de modo que os finais de semana são, em sua maioria, dedicados às atividades acadêmicas, resultando em restrição do convívio familiar e das experiências de lazer.
Diante desse conjunto de dados, infere-se que predominam, entre os estudantes pesquisados, sujeitos oriundos de classes sociais mais elevadas, financeiramente sustentados pelos pais, o que lhes permite dedicar-se exclusivamente aos estudos. Em sua maioria, egressos de escolas privadas, não são os primeiros da família a ingressar no ensino superior, tendo vivenciado experiências culturais em outros estados e países, o que contribui para que o acesso à universidade se configure como um percurso esperado e socialmente naturalizado.
Este artigo apresentou parte dos resultados de uma investigação mais ampla, desenvolvida no âmbito de uma tese de doutorado em Educação, cujo objetivo central foi analisar a relação com o saber de estudantes do curso de Medicina de uma instituição privada de ensino superior situada no estado da Bahia, com atenção especial àqueles oriundos de famílias pertencentes às classes sociais superiores. O recorte aqui explorado dedicou-se à caracterização do perfil socioeconômico e educacional desses estudantes, buscando compreender como tais condições se articulam aos processos formativos no curso de Medicina.
Os dados evidenciaram um perfil discente predominantemente jovem, feminino, oriundo de escolas privadas, com trajetórias escolares marcadas pelo sucesso acadêmico e sustentado financeiramente pelas famílias, majoritariamente pertencentes às classes média alta e alta. Trata-se, portanto, de estudantes que dispõem de um conjunto de capitais econômicos, culturais e escolares que favorecem o acesso e a permanência em um curso socialmente prestigiado, historicamente seletivo e marcado por alta concorrência.
À luz da teoria da Relação com o Saber, de Bernard Charlot, tais condições não podem ser compreendidas apenas como determinantes mecânicos do sucesso escolar, mas como elementos que incidem sobre as formas de mobilização dos estudantes para aprender. Conforme propõe Charlot, aprender implica estabelecer uma relação simultaneamente epistêmica, identitária e social com o saber. Nesse sentido, o perfil identificado neste estudo revela estudantes que, desde a educação básica, foram socializados em contextos que valorizam o conhecimento escolar, a continuidade dos estudos e o ingresso no ensino superior como destino esperado, o que tende a favorecer uma relação positiva com o saber e com a instituição escolar.
Entretanto, os resultados também indicam que essa relação com o saber é atravessada pelas exigências intensas do curso de Medicina e pelo peso simbólico do ofício médico. A formação médica, tal como discutida ao longo do artigo, impõe uma rotina marcada por elevada carga de estudos, forte pressão por desempenho e renúncias no âmbito da vida pessoal e do lazer. Mesmo entre estudantes em condições socioeconômicas favoráveis, emergem sentimentos de sobrecarga, solidão e tensionamentos na relação com o tempo, com a família e consigo mesmos, revelando que a mobilização para aprender não se dá sem custos subjetivos.
Desse modo, o estudo reforça a importância de compreender a formação médica para além de seus aspectos curriculares e técnicos, incorporando as dimensões sociais, identitárias e simbólicas que estruturam a relação dos estudantes com o saber e com a profissão. Ao evidenciar como o pertencimento de classe, a escolaridade familiar e as trajetórias escolares anteriores incidem sobre essa relação, o artigo contribui para o debate educacional ao tensionar leituras simplificadoras que associam, de forma linear, origem social e êxito acadêmico.
Por fim, ao articular o perfil dos estudantes à teoria da Relação com o Saber, este trabalho aponta para a necessidade de políticas institucionais e práticas formativas que considerem a heterogeneidade das experiências estudantis, inclusive em cursos tradicionalmente associados às elites sociais. Compreender como os estudantes se mobilizam para aprender, atribuem sentido ao saber médico e constroem sua identidade profissional constitui um passo fundamental para pensar uma formação médica mais reflexiva, humana e socialmente comprometida.
Abstract
This article presents part of the results of a doctoral dissertation that analyzed the relationship with knowledge of medical students enrolled in a private higher education institution located in the state of Bahia, Brazil, with special attention to those from families belonging to higher social classes. The specific focus of this paper is to characterize the students’ socioeconomic and educational profile and to discuss how these conditions influence medical training. The study is grounded in Bernard Charlot’s theory of the Relationship with Knowledge and adopts a predominantly qualitative approach, incorporating descriptive quantitative data collected through a structured questionnaire. The findings reveal a predominantly young and female student profile, largely originating from private schools, financially supported by their families, and mostly belonging to upper-middle and upper social classes, with high parental educational attainment and academic trajectories marked by school success. From Charlot’s perspective, such conditions foster mobilization for learning, although this process is permeated by the intense demands of the medical course and the medical profession.
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