Palavras-chave
Mobilização; Conhecimento; Comunidades
Autores
O desenvolvimento social e econômico em comunidades periféricas ou rurais depende cada vez mais de processos participativos que articulem conhecimento, comunicação e engajamento social. A mobilização comunitária e a difusão de saberes tornam-se instrumentos estratégicos para a adoção de inovações, especialmente em contextos em que a transformação social é condicionada pela participação cidadã e pela apropriação do conhecimento como bem coletivo. O artigo aqui apresentado trata-se e um estudo que vem sendo feito ao longo dos últimos anos através de pesquisas realizadas em comunidades. Parte do pressuposto de que a difusão de conhecimento e a mobilização social são mecanismos complementares que sustentam a adoção de inovações em projetos de intervenção. Ambas podem ser compreendidas como processos de aprendizagem coletiva, de construção de significados e de fortalecimento de vínculos comunitários. A questão central que norteou o estudo foi: como a difusão de conhecimentos e a mobilização social influenciam a adoção de inovações em projetos de intervenção comunitária? O objetivo geral consiste em analisar a influência dos processos de difusão de conhecimentos e mobilização social como vetores de transformação social e de sustentabilidade de projetos de base participativa. Como objetivos específicos, buscou-se:
a) caracterizar os elementos que compõem a mobilização social em intervenções comunitárias;
b) identificar os mecanismos de difusão e adoção de inovações nos contextos de intervenção comunitária;
c) avaliar fatores que favorecem ou dificultam a apropriação de conhecimentos; e
d) propor um modelo analítico de avaliação de políticas públicas voltadas à mobilização social e à inovação comunitária.
A relevância científica e social deste estudo reside na possibilidade de contribuir para metodologias de avaliação de projetos de intervenção e políticas públicas, especialmente aquelas voltadas ao fortalecimento da economia solidária, educação ambiental e desenvolvimento territorial sustentável.
A presente seção aborda as bases conceituais que sustentam a análise da difusão do conhecimento como vetor de inovação na transformação social. São apresentados os fundamentos teóricos do processo de difusão de inovações e sua aplicação em contextos comunitários, destacando a relevância dos canais de comunicação e da percepção social para o êxito das intervenções.
1.1 O papel do conhecimento na transformação social
A literatura sobre sociedade do conhecimento aponta que a produção e a circulação de saberes se tornaram os principais determinantes da capacidade transformadora de grupos e instituições (SABBAG, 2007). A consolidação de uma "massa crítica" de indivíduos aptos a criar, compartilhar e aplicar conhecimentos constitui a base de qualquer processo de mudança. Com relação a esses conhecimentos, Nonaka e Takeuchi (2008) distinguem dois tipos: o conhecimento tácito — incorporado à experiência e às práticas cotidianas — e o conhecimento explícito, passível de ser comunicado por meio de linguagens formais. A interação contínua entre ambos permite a criação de novos significados e inovações sociais.
Sendo assim, o conhecimento está sempre presente como tácito ou como explícito. Nesse sentido, Leff (2010) reforça que as crises contemporâneas não decorrem da ignorância, mas do "desconhecimento do conhecimento", isto é, da recusa em aplicar saberes já disponíveis para o bem coletivo. Assim, o desafio das intervenções comunitárias consiste em transformar o conhecimento acumulado em ação emancipatória.
1.2 Conceito e características da inovação
Segundo Rogers (2003), a inovação é uma ideia, prática ou objeto percebido como novo por um indivíduo ou grupo. A originalidade não reside na criação inédita, mas na percepção de novidade pelos adotantes. Esse conceito é fundamental para compreender a inovação social — aquela que se materializa em práticas, atitudes e relações, e não apenas em tecnologias. O Manual de Oslo (OCDE, 2004) destaca que a inovação ocorre também em serviços públicos e políticas sociais, quando há reorganização de práticas, gestão ou comunicação. Assim, projetos comunitários que introduzem novas formas de participação ou de gestão solidária podem ser considerados inovações não tecnológicas.
Rogers (2003) identifica cinco atributos que determinam a velocidade de adoção de uma inovação: vantagem relativa, compatibilidade, complexidade, possibilidade de experimentação e observabilidade. Esses atributos também se aplicam a práticas sociais, nas quais o valor simbólico e o engajamento coletivo influenciam a decisão de adotar novas ideias.
1.3 O processo de difusão de inovações
Para Rogers (2003), a difusão é um processo de comunicação em que uma inovação é transmitida através de determinados canais ao longo do tempo, entre os membros de um sistema social. O modelo proposto pelo autor compreende cinco estágios: conhecimento, persuasão, decisão, implementação e confirmação. Nos projetos de intervenção, a difusão ocorre predominantemente por meio de canais interpessoais — rodas de conversa, associações, lideranças locais — que potencializam o aprendizado horizontal e a formação de confiança (homofilia). A homofilia, ou similaridade sociocultural entre os participantes, facilita a comunicação e a adoção de novas práticas, embora certo grau de diferença de saberes (heterofilia) seja necessário para gerar aprendizado.
2 MOBILIZAÇÃO SOCIAL EM PROJETOS COMUNITÁRIOS
Essa seção aprofunda o debate sobre a mobilização social como processo dinâmico de construção da cidadania e de fortalecimento da ação coletiva.
2.1 Conceito e dimensões
Mobilização social é o processo pelo qual grupos e comunidades decidem e agem coletivamente em torno de objetivos compartilhados (TORO; WERNECK, 2004). Diferenciase de eventos pontuais, marchas ou campanhas; trata-se de uma prática contínua de participação e co-responsabilidade social. Segundo Toro e Werneck (2004), esse processo envolve quatro dimensões fundamentais:
a) Imaginário coletivo — a construção de uma visão inspiradora e convocante;
b) Campo de atuação — o espaço em que as ações se concretizam;
c) Coletivização — o sentimento de pertencimento e de partilha de propósitos; e
d) Acompanhamento de resultados — a capacidade de avaliar e sustentar mudanças.
Essas dimensões traduzem a transição da passividade para a ação, estimulando o protagonismo comunitário e a co-responsabilidade entre cidadãos e Estado.
2.2 Atores e comunicação no processo de mobilização
No modelo de Toro e Werneck (2004), o Produtor Social é aquele que cria condições institucionais e econômicas para que a mobilização ocorra; o Reeditor Social adapta as mensagens e traduz significados para o contexto local; e o Editor converte informações em linguagens acessíveis. A comunicação, portanto, é elemento estruturante. López (2004) define a "comunicação macro-intencional" como aquela voltada à mobilização, capaz de gerar sentidos coletivos e incentivar a ação. A transparência informacional e a escuta ativa são condições para que o diálogo se converta em engajamento. No entanto, Quintas (2006) lembra que a participação não é espontânea, mas construída. O envolvimento cidadão depende de motivações simbólicas, de crenças e valores, exigindo processos educativos permanentes que promovam autonomia e criticidade.
2.3 Integração entre difusão e mobilização
A convergência entre os modelos de difusão e mobilização observada em todos os casos estudados ocorre na interface entre aprendizagem social e ação coletiva. Enquanto o primeiro enfatiza o fluxo de comunicação e a tomada de decisão individual, o segundo destaca a dimensão simbólica e relacional da mudança social. Essa integração fornece a base teórica para compreender como o conhecimento se transforma em prática coletiva. O que começa como um processo de difusão de ideias tende, pela mediação da mobilização, a consolidar-se em transformações institucionais e culturais duradouras. A síntese entre ambas as abordagens pode ser representada pela interação entre três eixos: conhecimento (produção e transmissão); engajamento (mobilização e ação) e; inovação (mudança social resultante). Essa tríade estrutura a análise desenvolvida neste artigo, descrita com detalhes na seção resultados e discussão, servindo como guia para a avaliação de experiências concretas de intervenção social.
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
A pesquisa adotou o estudo de casos múltiplos como método de procedimento (YIN, 2010), combinando abordagem qualitativa e recursos quantitativos. Essa estratégia permite compreender fenômenos complexos em seu contexto real, sem manipular comportamentos, possibilitando identificar os significados atribuídos pelos sujeitos às práticas sociais e às interações estabelecidas no âmbito dos projetos comunitários.
A escolha dessa abordagem justifica-se pela natureza exploratória e interpretativa do objeto. A análise buscou compreender a difusão do conhecimento e a mobilização social não apenas como categorias teóricas, mas como processos observáveis que sustentam a inovação social e a aprendizagem coletiva. A coleta de dados baseou-se em múltiplas fontes de evidência, conforme recomendado por Yin (2010) como questionário estruturado em escala Likert, aplicado a agentes comunitários e lideranças locais; observação direta de atividades de formação, oficinas e reuniões de planejamento; análise documental, envolvendo relatórios, atas e registros de participação e; levantamento bibliográfico, com ênfase nas obras de Rogers (2003), Toro e Werneck (2004), Nonaka e Takeuchi (2008) e Leff (2010).
As informações obtidas das pesquisas foram tratadas de forma descritiva e interpretativa. Os dados quantitativos serviram de apoio para confirmar tendências percebidas nas observações e nos relatos dos participantes.
A análise dos dados baseou-se na construção da explanação, técnica proposta por Yin (2010), que busca elucidar relações causais entre fenômenos e teorias. O diálogo entre as evidências empíricas e os modelos de Rogers (difusão de inovação) e Toro & Werneck (mobilização social) constituiu o eixo de interpretação. A triangulação de dados permitiu validar os resultados e identificar padrões de comportamento social relacionados à comunicação, à adesão a práticas inovadoras e à formação de redes de cooperação.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados apresentados a seguir derivam da análise de evidências empíricas e documentais de diferentes projetos de intervenção social, reinterpretadas à luz dos referenciais teóricos mencionados. Esses achados foram organizados em quatro eixos previamente definidos na pesquisa — canais de comunicação e aprendizagem; fatores favoráveis e
desfavoráveis à adoção de inovações; articulação entre comunidade e poder público; e transformações e emancipação social — além de um quinto eixo não previsto inicialmente: a Convergência entre Difusão do Conhecimento e Mobilização Social.
4.1 Canais de Comunicação e Aprendizagem
Os canais interpessoais — rodas de conversa, reuniões comunitárias e comunicação informal — mostraram-se os mais eficazes na difusão do conhecimento, especialmente por favorecerem a aprendizagem horizontal e a confiança entre os participantes. Oficinas e cursos práticos apresentaram alta taxa de assimilação de conteúdo, confirmando que a aprendizagem significativa ocorre em ambientes colaborativos e dialógicos. A análise dos dados possibilitou organizar os principais canais utilizados em intervenções comunitárias conforme o grau de interatividade e o tipo de relação comunicacional predominante, conforme demonstrado no Quadro 1.
A análise do Quadro 1 evidencia que os canais homofílicos — baseados em relações de confiança, reciprocidade e identidade sociocultural — continuam sendo os mais eficazes para a difusão de conhecimento em contextos comunitários. Reuniões presenciais, rodas de conversa e oficinas práticas representam 51% da efetividade total, isso demonstra que o aprendizado se consolida mais fortemente quando ocorre entre pares e em ambientes colaborativos. Por outro lado, os canais heterofílicos, como palestras expositivas e materiais impressos, desempenham um papel relevante na introdução inicial das inovações, ainda que apresentem menor interatividade.
Quadro 1 – Distribuição Relativa da Efetividade Percebida dos Canais de Comunicação
Canal de Comunicação | Percentual Relativo (%) | Grau de Interatividade | Tipo de comunicação |
Reuniões presenciais e rodas de conversa | 27 | Alto | Homofílica |
Oficinas práticas e cursos coletivos | 24 | Alto | Homofílica |
Comunicação digital (WhatsApp, redes) | 20 | Médio | Mista |
Palestras expositivas | 15 | Baixo | Heterofílica |
Cartilhas e materiais impressos | 14 | Baixo | Heterofílica |
Total | 100 | — | — |
Fonte: Elaboração própria, com base em Rogers (2003), Sabbag (2007) e dados coletados.
De acordo com Rogers (2003), esse tipo de comunicação é essencial para expandir o alcance das novas ideias além dos grupos já engajados, funcionando como um disparador cognitivo que antecede o engajamento interpessoal e a internalização das práticas. Esses resultados reforçam a tese de que a difusão do conhecimento não é um processo linear, mas sim um ciclo que transita entre a heterofilia e a homofilia, combinando estímulo externo e aprendizagem comunitária. A comunicação interpessoal e dialógica continua sendo o núcleo da transformação social, ao passo que os canais formais e massivos atuam como vetores de iniciação e legitimação das inovações no espaço público.
5.2 Fatores favoráveis e desfavoráveis à adoção de inovações
A análise revelou que a adoção de inovações em projetos de intervenção depende de um conjunto de fatores interligados: culturais, organizacionais e comunicacionais. Entre os principais aspectos favoráveis, destacam-se a confiança interpessoal, o apoio institucional, a compatibilidade entre os valores do projeto e da comunidade, além do senso de pertencimento. Por outro lado, fatores desfavoráveis incluem a resistência cultural às mudanças, a ausência de lideranças estáveis, a descontinuidade das capacitações e a falta de recursos materiais. Esses elementos foram sistematizados no Quadro 2, a seguir, para visualização das variáveis e sua correlação com o grau de impacto sobre o processo de adoção. A observação direta mostrou que o êxito das intervenções está intimamente ligado à capacidade de articular os fatores de comunicação e aprendizagem. Quanto maior a percepção de pertencimento e o engajamento nos espaços coletivos, mais duradouras são as práticas inovadoras.
Quadro 2 – Fatores Condicionantes da Adoção de Inovações
Categoria | Fatores Favoráveis | Fatores Desfavoráveis |
Comunicação | Confiança interpessoal; diálogo aberto. | Ruído; assimetria informacional. |
Organização | Apoio institucional; trabalho em rede. | Falta de liderança; ausência de planejamento estratégico. |
Cultura Local | Compatibilidade de valores; sentimento de pertencimento. | Resistência cultural; baixa valorização dos saberes locais. |
Aprendizagem | Oficinas práticas; troca entre pares. | Descontinuidade das capacitações; ausência de registro do aprendizado. |
Fonte: Elaboração própria com base em Rogers (2003) e Toro & Werneck (2004).
4.3 Articulação entre comunidade e poder público
Os dados apontam uma relação ainda frágil entre comunidades e poder público. Embora os órgãos gestores tenham papel relevante na implementação inicial dos projetos, a sustentabilidade das ações depende da capacidade de institucionalizar a participação e de criar mecanismos permanentes de diálogo. Toro e Werneck (2004) defendem que o Estado deve assumir a função de produtor social, oferecendo suporte técnico, financeiro e jurídico para que a sociedade civil desenvolva autonomia. Sem essa mediação, o entusiasmo coletivo tende a se dissipar com o tempo. A articulação efetiva requer um modelo híbrido, em que o poder público atua como facilitador e as comunidades assumem o protagonismo na manutenção das práticas inovadoras. Tal modelo favorece o controle social, a coresponsabilidade e a continuidade dos resultados.
4.4 Transformações e emancipação social
A observação empírica revelou transformações significativas nas atitudes e comportamentos dos participantes após o envolvimento nos projetos. Foram identificadas mudanças como: aumento da autoconfiança e valorização dos saberes locais; fortalecimento de redes de apoio e solidariedade; desenvolvimento de competências técnicas e organizacionais e; percepção de pertencimento e responsabilidade coletiva. Esses resultados confirmam que a difusão do conhecimento atua como mediadora da emancipação social, ao transformar o saber técnico em prática cotidiana e o aprendizado individual em capital comunitário. Assim, o aprendizado individual pode ser claramente observado nas comunidades, o que coaduna com Nonaka & Takeuchi (2008) ao afirmarem que a internalização do conhecimento é observada quando práticas inicialmente induzidas se consolidam como hábitos e valores culturais. A partir desse ponto, a inovação deixa de ser algo "novo" e passa a integrar o repertório coletivo, tornando-se sustentável.
4.5 Convergências entre Difusão do Conhecimento e Mobilização Social
Após análise desses quatro eixos, as pesquisas permitiram inferir que existe uma integração teórica entre as abordagens de Rogers (2003) e Toro & Werneck (2004), demonstrando uma convergência entre difusão de conhecimento e mobilização social sintetizada graficamente na Figura 1, ilustrando o fluxo de transformação do conhecimento em ação coletiva.
A Figura 1 representa o fluxo de convergência entre os modelos de Rogers (difusão de inovações) e Toro & Werneck (mobilização social), evidenciando que ambos se articulam em um processo contínuo de aprendizado e ação coletiva. Na primeira fase, a difusão de inovações promove o acesso à informação e a formação cognitiva inicial, disseminando novos conhecimentos por meio da comunicação e da aprendizagem compartilhada. Essa etapa culmina na adoção das novas práticas por indivíduos ou pequenos grupos. Em seguida, a mobilização social amplia o alcance das inovações através da construção de um imaginário coletivo, que transforma as práticas adotadas em ações organizadas e legitimadas socialmente.
O processo avança para a coletivização, fortalecendo o engajamento e culminando em resultados concretos — sociais, econômicos e culturais. Por fim, os resultados obtidos retornam ao sistema como retroalimentação, gerando novos ciclos de difusão e aprendizagem.
Figura 1 – Convergência entre Difusão de Inovações e Mobilização Social em Projetos Comunitários.
DIFUSÃO DE INOVAÇÕES (ROGERS, 2003)
▼
Comunicação Social
▼
Aprendizagem Coletiva
▼
Adoção
▼
MOBILIZAÇÃO SOCIAL (TORO & WERNECK, 2004)
▼
Imaginário Coletivo
▼
Coletivização
▼
Engajamento
▼
Resultados
▼
<--- RETROALIMENTAÇÃO PARA NOVOS CICLOS ---> |
Fonte: Elaboração própria, adaptado de Rogers (2003) e Toro & Werneck (2004).
Essa interação recursiva mostra que difusão e mobilização são faces complementares do mesmo processo, em que o conhecimento deixa de ser apenas transmitido para ser co-criado e sustentado pela comunidade.
A Figura 2 amplia a compreensão da Figura 1 ao representar de forma clara a transição entre canais heterofílicos e homofílicos no processo de aprendizagem social. O ciclo começa na fase heterofílica, quando novas ideias são introduzidas por meio de palestras e materiais de grande alcance, promovendo o contato inicial entre grupos com diferentes níveis de conhecimento.
Na sequência, os processos de difusão e mobilização social transformam essas informações em aprendizado compartilhado. A comunicação passa a ocorrer de forma mais horizontal, estimulando a formação de um imaginário coletivo e o engajamento comunitário.
Figura 2 Ciclo de Transição entre Heterofilia e Homofilia na Difusão Comunitária
ESTÍMULO EXTERNO (CANAIS HETEROFÍLICOS)
▼
Palestras Expositivas → Cartilhas e Materiais Impressos
▼
Introdução de Novas Ideias
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PROCESSO DE DIFUSÃO (ROGERS, 2003)
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Comunicação → Aprendizagem → Adoção Inicial
▼
MOBILIZAÇÃO SOCIAL (TORO & WERNECK, 2004)
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Imaginário Coletivo → Coletivização → Engajamento → Resultados
▼
CONSOLIDAÇÃO INTERNA (CANAIS HOMOFÍLICOS)
▼
Reuniões Comunitárias → Oficinas Práticas → Troca entre Pares
▼
Retroalimentação: Inovação internalizada e sustentada
Por fim, o processo atinge a fase homofílica, em que o conhecimento é apropriado e mantido pelos próprios grupos locais, fortalecendo a autonomia e a sustentabilidade das ações sociais. Esse movimento, que vai do conhecimento transmitido ao conhecimento vivido, representa o núcleo da transformação social e garante a continuidade das inovações nas comunidades.
A análise dos resultados demonstra que a difusão do conhecimento e a mobilização social formam um eixo articulado que estrutura os processos de intervenção comunitária. No campo da mobilização social, verificou-se que imaginário coletivo, coletivização, engajamento e acompanhamento de resultados constituem dimensões operacionais que não apenas organizam a ação comunitária, mas funcionam como condições para que o aprendizado circule, se fortaleça e se transforme em práticas sociais duradouras. As evidências mostram que a mobilização não é um efeito espontâneo da comunicação, mas uma construção progressiva, sustentada por vínculos, significados compartilhados e pela capacidade de converter conhecimento em propósito coletivo.
No que diz respeito aos mecanismos de difusão e adoção de inovações, identificou-se que os canais homofílicos — rodas de conversa, oficinas e trocas entre pares — são os responsáveis pela consolidação das práticas inovadoras, enquanto os canais heterofílicos — palestras e materiais impressos — atuam como vetores iniciais de estímulo e sensibilização. Essa complementaridade reforça o caráter não linear da comunicação, que transita entre estímulo externo e aprendizagem comunitária. Tais mecanismos revelam que a adoção de inovações depende menos da novidade em si e mais da forma como ela circula, é traduzida culturalmente e se conecta à experiência vivida dos grupos.
A apropriação do conhecimento mostrou-se condicionada por fatores como confiança, apoio institucional, pertencimento e compatibilidade de valores, que impulsionam a incorporação de novas práticas. Em sentido oposto, resistência cultural, descontinuidade das capacitações, assimetrias informacionais e fragilidade das lideranças se destacaram como barreiras estruturais. Assim, a consolidação do aprendizado como prática cotidiana exige ambientes estáveis, relações horizontais e processos formativos contínuos capazes de transformar o saber técnico em significado social.
A principal contribuição deste estudo, no entanto, reside na proposição de um modelo de convergência entre difusão e mobilização, capaz de orientar a elaboração, execução e avaliação de políticas públicas participativas. Esse modelo, baseado nas interações entre comunicação, aprendizagem e engajamento, demonstra que o desenvolvimento sustentável de comunidades depende de uma rede simbiótica entre saberes técnicos e experiências locais, articulando comunicação, aprendizagem e engajamento.
As evidências apresentadas indicam que: a comunicação interpessoal e os espaços colaborativos constituem os principais canais para difusão de inovações sociais; a mobilização social fortalece o sentimento de pertencimento e a continuidade das práticas inovadoras; o Estado e as organizações de apoio devem atuar como facilitadores de autonomia, criando condições institucionais e financeiras para a autogestão comunitária; e a formação de redes de conhecimento solidário representa uma estratégia eficaz para multiplicar os resultados e consolidar a cidadania participativa.
Como limitação do estudo, destaca-se a ausência de uma abordagem longitudinal que permita avaliar a permanência das inovações ao longo do tempo. Pesquisas futuras poderão ampliar o escopo empírico, aplicando o modelo proposto a diferentes territórios e temáticas como educação ambiental, agricultura familiar, economia solidária, entre outros.
Em síntese, a articulação entre difusão de conhecimento e mobilização social oferece não apenas um quadro analítico, mas também uma diretriz prática para repensar as formas de intervenção pública e comunitária na promoção do desenvolvimento humano, da inovação social e da emancipação cidadã.
Abstract
This article analyzes the influence of knowledge diffusion and social mobilization as catalysts for innovation in community intervention projects. The research is based on the theories of innovation diffusion, by Everett Rogers, and social mobilization, by José Bernardo Toro and Nísia Maria Duarte, aiming to understand how the sharing of knowledge and collective engagement enhance social transformations and the strengthening of citizenship. The methodology used adopts the case study model proposed by Robert K. Yin, with a qualitative approach and quantitative support, combining Likert-type questionnaires, direct observation, documentary and bibliographic analysis. The results indicate that interpersonal communication, collaborative practices, and the formation of a critical mass of knowledge favor the adoption of innovations in diverse social contexts. It is concluded that the integration between knowledge diffusion and social mobilization constitutes a promising methodological basis for the conception, execution, and evaluation of public policies aimed at local communities.
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