Palavras-chave
Aprendizagem; Cérebro; Neuropsicopedagogia
Autores
A Neuropsicopedagogia é um campo de estudo e atuação que vem se desenvolvendo e expandindo nos últimos anos, com o avanço e amadurecimento das pesquisas neurocientíficas e com o desenvolvimento de metodologias aplicadas à educação. Este trabalho trata de aspectos relacionados à temática "Neuropsicopedagogia e Aprendizagem Humana: Contribuições e Perspectivas Contemporâneas".
Essa ciência é considerada nova, pois surgiu em 2008, através da iniciativa de um grupo de docentes, da cidade de Joinville, no estado de Santa Catarina, motivados por um pedido do gestor da instituição de ensino e pesquisa em que trabalhavam. Inicialmente criaram um grupo de observação e pesquisas, embasados por um senso crítico e por responsabilidade com o contexto escolar, que fazia parte de suas vivências. Desde então, tem-se pensado em estratégias que contribuam para o processo de aprendizagem e essa área de atuação tem ganhado visibilidade e atraído curiosos de diversas áreas do país.
A Neuropsicopedagogia, de acordo com o Artigo 10 do Código de Ética Técnico-Profissional, "é uma ciência transdisciplinar, fundamentada nos conhecimentos das neurociências aplicadas à educação, com interfaces da Pedagogia e Psicologia Cognitiva". Entender a relação que existe entre o funcionamento do sistema nervoso e a aprendizagem humana, por meio de uma perspectiva de reintegração pessoal, social e educacional é o que compõe o seu objeto de estudo. A aprendizagem humana é o seu centro do interesse. Cabe, então, ao neuropsicopedagogo atuar dentro do seu campo e área de conhecimento, promovendo o desenvolvimento das potencialidades humanas, de todos os indivíduos que passarem por sua avaliação e/ou intervenção.
Ao ingressar na área da Neuropsicopedagogia, muitas inquietações e curiosidades podem surgir e para saná-las nos deparamos com alguns obstáculos, decorrentes do pouco tempo de existência dessa ciência e, consequentemente, o pequeno número de obras e trabalhos publicados. Motivado por esse contexto, este artigo propõe pesquisar e responder os seguintes questionamentos: o que faz e qual a base teórica da formação do neuropsicopedagogo? Qual a importância da Neuropsicopedagogia para a aprendizagem humana?
A escassez de discussões com a temática supracitada tem a ver com o fato de a Neuropsicopedagogia ser uma área nova de ocupação profissional, que ainda está conquistando seu espaço e reconhecimento no meio científico e laboral. A mesma ainda não está regulamentada por lei específica, mas tem conseguido importantes conquistas como o Código de Ética Técnico-Profissional (2014) e o cadastro na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) em 2019.
Este artigo é relevante, pois propõe trazer de forma objetiva e didática, explanações sobre a formação, a atuação e a importância que a Neuropsicopedagogia tem para o aprendizado humano, considerando a expansão e a relevância que essa área irá conquistar nos próximos anos, acompanhando o desenvolvimento das neurociências e o reconhecimento da necessidade de conhecer o funcionamento do sistema nervoso (SN) para promover uma educação cada vez mais efetiva e profunda.
Este trabalho justifica-se, então, pelas contribuições que a Neuropsicopedagogia tem trazido para o desenvolvimento das potencialidades humanas, reforçando a importância de ter mais profissionais nessa área de atuação, que estejam capacitados, ativos e que, também, tenham o interesse em realizar pesquisas e desenvolver recursos que auxiliem a prática neuropsicopedagógica.
Desta forma, objetiva-se, de modo geral, entender a importância da Neuropsicopedagogia para a aprendizagem humana, por meio da compreensão do que faz o profissional dessa área, qual é a base teórica de sua formação e quais são as contribuições que traz para o desenvolvimento cognitivo. Especificamente, tem-se como objetivos: apresentar as bases teóricas que fundamentam a Neuropsicopedagogia, discorrendo sobre os principais conceitos que norteiam a práxis e distinguir as diferenças existentes entre a atuação institucional e a clínica, relacionando as atividades que competem a esse profissional em cada uma dessas áreas.
A pesquisa realizada para a construção desse trabalho é de caráter bibliográfico. A mesma deu-se por meio do levantamento e leitura de textos relevantes sobre a temática. Reuniram-se os principais conceitos que embasam a formação e atuação do neuropsicopedagogo, assim como, os conceitos relacionados à aprendizagem humana e ao sistema nervoso. As principais fontes utilizadas foram: Código de Ética da Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia e textos de autores renomados como, por exemplo, Rita Russo, Marta Relvas, Vitor da Fonseca, Stanislas Dehaene, Leonor Scliar-Cabral, Carla Tiepo, entre outros.
APRENDIZAGEM HUMANA À LUZ DAS NEUROCIÊNCIAS
A espécie humana distingue-se das demais por ensinar de forma intencional e sistemática. Ao longo dos anos, as neurociências têm se dedicado a compreender esse processo, contribuindo para a tradução dos achados científicos para o campo educacional, com o objetivo de aprimorar o ensino, a aprendizagem e o processo ensino-aprendizagem como um todo.
Há consenso científico de que a aprendizagem ocorre no cérebro, embora seja influenciada por fatores como ambiente, aprendiz, professor e estado emocional. Sob o ponto de vista neurobiológico, esse processo acontece no sistema nervoso central, envolvendo cérebro, cerebelo e medula (RIESGO, 2016). O autor destaca ainda que existem diferentes tipos de aprendizagem, consolidados em distintos momentos do desenvolvimento, conhecidos como janelas maturacionais.
A aprendizagem pode ser compreendida como um processo de aquisição, conservação e evocação de conhecimentos, decorrente de modificações relativamente permanentes no sistema nervoso central quando o indivíduo é submetido a estímulos e experiências significativas (OHLWEILER, 2016). Os neurônios, responsáveis pela captação e decodificação desses estímulos, são numerosos e apresentam diferentes formatos e funções, sendo capazes de aprender por meio de suas interações com outras células, como as glias.
Fonseca (2018) explica que os neurônios podem ser considerados as células da aprendizagem, uma vez que, em interação com as glias, sustentam e consolidam aprendizagens que variam desde habilidades sensório-motoras até funções cognitivas mais complexas, como leitura, escrita e matemática. As informações sensoriais percorrem trajetos específicos no sistema nervoso, sendo decodificadas, processadas e moduladas por múltiplas conexões neuronais antes de gerar respostas, o que evidencia a complexidade do funcionamento cerebral (RIESGO, 2016).
A aprendizagem sempre esteve associada à adaptação humana ao meio, desde estratégias básicas de sobrevivência até o desenvolvimento de sistemas simbólicos, como a escrita. Do ponto de vista neurocientífico, aprender implica alterações funcionais no cérebro, como o fortalecimento de sinapses, a formação de circuitos e redes neurais e o aumento da eficiência na transmissão das informações (FONSECA, 2018). Assim, a aprendizagem promove mudanças comportamentais e cognitivas, acompanhadas por transformações estruturais e funcionais no cérebro.
A leitura constitui um exemplo expressivo de como a aprendizagem modifica a organização cerebral. Dehaene (2012) explica que, embora o cérebro não tenha sido biologicamente projetado para essa atividade, ele se adapta por meio da plasticidade neural, reorganizando circuitos pré-existentes. O surgimento da leitura alterou a arquitetura cerebral e transformou profundamente as formas de comunicação, memorização e produção do conhecimento.
A aprendizagem da leitura exige a integração eficiente de áreas responsáveis pela entrada visual, acesso ao significado e produção da fala. Para que esse processo ocorra adequadamente, é necessário que fatores como plasticidade neural, especialização hemisférica, interconexão entre áreas cerebrais, memória e mecanismos de autorregulação estejam estruturados e funcionando de forma integrada (SCLIAR-CABRAL, 2013). Embora seja um processo complexo, em indivíduos sem comprometimentos sensoriais ou cognitivos essas operações tendem a ocorrer de forma automatizada.
O cérebro adapta-se continuamente ao ambiente cultural, reutilizando estruturas já existentes para novas aprendizagens, o que evidencia sua capacidade de reorganização e remodelação (DEHAENE, 2012). Essa plasticidade está relacionada à complexa rede de neurônios distribuída por todo o sistema nervoso. A comunicação entre os neurônios ocorre por meio das sinapses, processo no qual impulsos elétricos são convertidos em sinais químicos e novamente em sinais elétricos, possibilitando a integração das informações (TIEPPO, 2019).
Do ponto de vista anatômico, o cérebro divide-se em hemisférios que atuam de forma integrada, ainda que apresentem especializações funcionais (RIESGO, 2016). Além disso, seus lobos desempenham funções relacionadas à percepção, linguagem, planejamento motor, memória, emoções e controle do comportamento. Conhecer esses aspectos da neuroanatomia da aprendizagem contribui para a elaboração de estratégias de intervenção que potencializem o aprender, tanto em indivíduos neurotípicos quanto naqueles com dificuldades ou transtornos de aprendizagem.
CONTRIBUIÇÕES DA NEUROPSICOPEDAGOGIA PARA A APRENDIZAGEM
Com os avanços das neurociências, consolida-se a Neuropsicopedagogia como uma área interdisciplinar que integra conhecimentos sobre o desenvolvimento, funcionamento e possíveis disfunções do cérebro aos processos psicocognitivos da aprendizagem e às práticas pedagógicas do ensino (FONSECA, 2018).
De acordo com o Código de Ética Técnico-Profissional da Neuropsicopedagogia (2014), a atuação do neuropsicopedagogo pode ocorrer em diferentes contextos, destacando-se os âmbitos institucional e clínico. Na atuação institucional, o profissional desenvolve ações em ambientes educacionais e coletivos, observando e analisando os contextos e os grupos atendidos, com foco nas questões relacionadas à aprendizagem e ao desenvolvimento humano.
As intervenções institucionais são planejadas para o coletivo, visando desenvolver habilidades cognitivas e potencializar o processo ensino-aprendizagem. Quando há indivíduos com necessidades específicas, as estratégias propostas favorecem tanto o desenvolvimento individual quanto a interação e a troca de experiências no grupo.
No contexto escolar, é frequente a presença de estudantes com transtornos ou dificuldades de aprendizagem, caracterizados por desempenhos significativamente abaixo do esperado em áreas como leitura, escrita e matemática (RELVAS, 2015). Nesses casos, o neuropsicopedagogo realiza avaliações do processo de aprendizagem e propõe estratégias educativas fundamentadas nos conhecimentos das neurociências, da pedagogia e da psicologia cognitiva.
Na atuação clínica, conforme o Código de Ética (2014), o neuropsicopedagogo realiza atendimentos individualizados em contextos apropriados, envolvendo avaliação, intervenção, acompanhamento e elaboração de planos de intervenção específicos. Russo (2019) destaca que essa atuação inclui a orientação de estudos, o ensino de estratégias de aprendizagem e o diálogo constante com a família, a escola e outros profissionais. As intervenções podem envolver jogos, atividades lúdicas e recursos pedagógicos diversificados, favorecendo diferentes formas de aprender.
Embora dialogue com áreas como a psicopedagogia e a neuropsicologia, a Neuropsicopedagogia clínica diferencia-se por fundamentar sua prática nas teorias da aprendizagem e nas estratégias de ensino-aprendizagem. A aprendizagem constitui o objeto central de interesse dessa área, que se apoia nos avanços das neurociências e da educação para qualificar as práticas educativas.
Para uma atuação eficaz, o profissional precisa dominar conceitos fundamentais como funções cognitivas, atenção, inteligência, memória, funções executivas, linguagem, praxia, habilidades visuoconstrutivas e habilidades sociais. As funções cognitivas distribuem-se pelo córtex cerebral e operam de forma integrada, sendo a cognição resultado da interação entre diferentes funções mentais (FONSECA, 2018).
A atenção e a memória desempenham papel essencial no processamento das informações, influenciando desde a captação de estímulos até atividades complexas como leitura e escrita (RUSSO, 2019). A inteligência pode ser compreendida como a capacidade de aprender, assumindo diferentes manifestações conforme as habilidades individuais (RELVAS, 2015).
As funções executivas, associadas principalmente ao lobo frontal, envolvem processos como planejamento, organização, autocontrole, flexibilidade cognitiva e monitoramento do comportamento. A linguagem compreende componentes relacionados à forma, ao significado e ao uso em contextos sociais (RUSSO, 2015). A praxia refere-se à execução coordenada e intencional de movimentos, enquanto as habilidades visuoconstrutivas dizem respeito à organização de estímulos visuais para a construção de formas e objetos. As habilidades sociais envolvem comportamentos que favorecem interações socialmente competentes, sendo fundamentais para o desenvolvimento integral do indivíduo (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2011 apud RUSSO, 2015).
A Neuropsicopedagogia surgiu em um campo fértil, entre as áreas da educação, psicologia cognitiva e neurociências. Ela está crescendo com as pesquisas e se modelando de acordo com as atuais demandas relacionadas à aprendizagem. Mas não apenas isso, ela vislumbra um futuro promissor, pois suas bases, embora sejam novas, são também sólidas e cientificamente comprovadas.
Entender o funcionamento do sistema nervoso, como a aprendizagem ocorre em nosso cérebro, quais modificações funcionais lhe proporcionam e como interfere no comportamento humano, possibilita ao neuropsicopedagogo pensar em estratégias que integrem os processos psicocognitivos e psicopedagógicos, visando trilhar novos caminhos para o desenvolvimento educacional humano.
Na escola, a Neuropsicopedagogia contribui para melhorar o ensino, do ponto de vista do professor, e a aprendizagem, do ponto de vista dos alunos. Como defende Vitor da Fonseca (2018) "a Neuropsicopedagogia pode ter um impacto positivo no desenvolvimento profissional dos professores e no sucesso intrapessoal e interpessoal dos alunos" (FONSECA, 2018, p. 310). Na esfera clínica, é possível também potencializar as habilidades e competências dos indivíduos assistidos.
Este artigo objetivou ser mais um farol, que pode contribuir para iluminar o caminho para os que estão ingressando nessa área ou que buscam por seus fundamentos. Uma vez que ajuda a entender a importância da Neuropsicopedagogia para a aprendizagem humana, através da compreensão do que faz o profissional dessa área, qual a base teórica de sua formação e quais contribuições traz para o desenvolvimento cognitivo.
Conhecer sobre a neuroanatomia da aprendizagem contribui, então, para o entendimento de como o cérebro aprende, tornando possível pensar em estratégias de intervenção que potencializem esse processo, tanto em pessoas neurotípicas como em pessoas que possuam algum distúrbio ou transtorno de aprendizagem.
Devido à temática delimitada para este artigo, ficou reservada para um próximo trabalho a explanação sobre tópicos relacionados aos recursos, protocolos e demais instrumentos que podem ser utilizados pelos profissionais da Neuropsicopedagogia.
Abstract
Learning transforms people’s lives and constitutes the central object of interest of Neuropsychopedagogy, a field grounded in advances in neuroscience and education. This article aims to understand the importance of Neuropsychopedagogy for human learning through the analysis of professional practice, the theoretical foundations of professional training, and its contributions to cognitive development. Specifically, it seeks to present the theoretical bases that guide neuropsychopedagogical praxis and to distinguish the differences between institutional and clinical practice, relating the professional’s roles and responsibilities in each context. This is a bibliographic study based on documents and scientific literature, with emphasis on the Code of Ethics of the Brazilian Society of Neuropsychopedagogy and works by authors such as Rita Russo, Marta Relvas, Vitor da Fonseca, and Stanislas Dehaene. It is concluded that Neuropsychopedagogy contributes significantly to the improvement of teaching and learning processes, enhancing individuals’ skills and competencies.
DEHAENE, Stanislas. Os neurônios da leitura: como a ciência explica a nossa capacidade de ler. Tradução Leonor Scliar-Cabral. Porto Alegre: Penso, 2012.
FONSECA, Vitor da. Papel das funções cognitivas, conativas e executivas na aprendizagem: uma abordagem neuropsicopedagógica. In: PEDRO, Waldir. Guia prático de neuroeducação: neuropsicopedagogia, neuropsicologia e neurociência. 2 ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2018.
OHLWEILER, L. Fisiologia e neuroquímica da aprendizagem. In: RIESGO, R. dos S.; OHLWEILER, L. e ROTTA, N. T. Transtorno de aprendizagem. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
RELVAS, Marta Pires. Neurociências e transtornos de aprendizagem: as múltiplas eficiências para uma educação inclusiva. 6 ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2015.
RIESGO, Rudimar dos Santos. Anatomia da aprendizagem. In: RIESGO, R. dos S.; OHLWEILER, L. e ROTTA, N. T.. Transtorno de aprendizagem. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
RUSSO, Rita Margarida Toler. Neuropsicopedagogia clínica: introdução, conceitos, teoria e prática. Curitiba: Juruá, 2015 - 2ª impressão (ano 2019).