Palavras-chave
Arte; Vivência; Educação
Autores
As transformações contemporâneas nas formas de produção e circulação cultural têm ampliado significativamente o acesso a produtos artísticos, especialmente por meio das tecnologias digitais. No contexto atual, marcado pela intensificação da plataformização da vida social, a arte passa a circular de maneira contínua e fragmentada, mediada por dispositivos técnicos que reorganizam as formas de acesso, fruição e relação dos sujeitos com a produção simbólica. Esse movimento não indica a ausência da arte na vida social, mas a transformação qualitativa das mediações por meio das quais ela se realiza.
Nesse cenário, as mudanças nas formas de mediação não podem ser compreendidas apenas como ampliação do acesso ou diversificação dos meios de circulação cultural, mas como expressão de determinações históricas mais amplas. À luz de Debord (1997), a sociedade contemporânea se organiza sob a forma do espetáculo, entendido não como um conjunto de imagens em sentido literal, mas como uma forma social na qual a ideologia se materializa nas próprias relações sociais. Trata-se de um modo de organização em que a realidade passa a ser apreendida por meio de formas de aparência socialmente produzidas, que expressam e, ao mesmo tempo, obscurecem suas determinações concretas. Nesse sentido, compreende-se ideologia como um sistema de representações que organiza a forma como os sujeitos apreendem a realidade, produzindo efeitos concretos na consciência e na prática social (CHAUÍ, 2008).
Tais determinações articulam-se à lógica da mercadoria, analisada por Marx (2017) e aprofundada por Lukács (2013), na medida em que as produções humanas passam a assumir formas reificadas, apresentando-se como independentes dos sujeitos que as produziram. No campo da arte, esse processo incide sobre as formas de produção, circulação e apropriação, tensionando a relação entre sujeito e obra e reconfigurando as possibilidades de experiência estética.
À luz da psicologia histórico-cultural, essas transformações não podem ser compreendidas apenas como mudanças externas, uma vez que incidem diretamente sobre as condições de constituição do psiquismo. Em Vigotski (1999; 2021), o desenvolvimento humano é concebido como um processo histórico e social mediado por signos, no qual a vivência (perezhivanie) se constitui como unidade entre sujeito e meio, articulando dimensões afetivas, cognitivas e volitivas. Nesse sentido, as formas de mediação simbólica assumem papel decisivo na organização da consciência e no desenvolvimento das funções psíquicas superiores.
Nesse contexto, as transformações nas mediações simbólicas podem ser compreendidas também como transformações na relação dos sujeitos com o mundo humano, na medida em que, conforme problematiza Bernard Charlot, a questão do sentido tende a ser evacuada em favor de uma lógica de desempenho e de competição generalizada (CHARLOT, 2023). Tal processo incide diretamente sobre as condições de mobilização do sujeito frente às produções culturais, tensionando sua relação com o saber e com a própria experiência estética.
Diante desse quadro, coloca-se o seguinte problema: como as transformações contemporâneas nas formas de mediação simbólica, marcadas pela materialização da ideologia nas relações sociais, reconfiguram a relação dos sujeitos com a arte e quais são suas implicações para a constituição da vivência e para o desenvolvimento humano no contexto da educação?
Essa problemática adquire relevância no campo educacional na medida em que a escola se configura como espaço privilegiado de mediação entre o sujeito e as produções culturais historicamente elaboradas. No entanto, observa-se que a arte, frequentemente tratada de forma secundarizada nos currículos, tende a ser ainda mais fragilizada diante das formas contemporâneas de mediação, que privilegiam relações fragmentadas e imediatas com a produção simbólica, tensionando a constituição de vivências estéticas que contribuam para o desenvolvimento integral dos sujeitos. Diante disso, o presente trabalho tem como objetivo analisar, à luz do enfoque histórico-cultural e do materialismo histórico-dialético, como as transformações nas mediações simbólicas incidem sobre a relação entre sujeito e arte, buscando compreender suas implicações para a constituição da vivência estética e para o desenvolvimento das funções psíquicas superiores, bem como explicitar o papel da educação como mediação necessária à apropriação das produções culturais em sua forma mais elaborada.
DESENVOLVIMENTO
Referencial teórico
A análise desenvolvida neste trabalho fundamenta-se no enfoque histórico-cultural, que compreende o desenvolvimento humano como um processo histórico e social, constituído a partir da apropriação das objetivações produzidas pelo gênero humano ao longo da história (MARX, 2004; LEONTIEV, 1978). Nessa perspectiva, o psiquismo não é dado naturalmente, mas se forma na e pela atividade mediada, sendo a cultura o elemento central na constituição das funções psíquicas superiores (VIGOTSKI, 2021; VYGOTSKY; LURIA, 1996). Assim, a compreensão do desenvolvimento humano exige considerar a unidade entre as condições materiais de existência e as formas simbólicas produzidas socialmente.
No interior dessa abordagem, o conceito de vivência (perezhivanie) assume papel central, uma vez que expressa a unidade indissociável entre sujeito e meio, articulando dimensões afetivas, cognitivas e volitivas em um mesmo processo (VIGOTSKI, 2021). A vivência não se reduz à experiência imediata, mas constitui a forma singular pela qual o sujeito apreende e significa as condições objetivas de sua existência (VIGOTSKI, 1999). Nesse sentido, ela se configura como unidade de análise capaz de revelar como as determinações sociais se tornam internas, reorganizando o funcionamento psíquico.
A constituição das funções psíquicas superiores está diretamente relacionada ao desenvolvimento da função simbólica, que permite ao sujeito operar com significados, ultrapassando a relação imediata com os objetos (VIGOTSKI, 2021). A capacidade de atribuir significados e projetar ações que não estão dadas na realidade imediata representa um salto qualitativo no desenvolvimento humano, tornando possível a emergência da linguagem, do pensamento abstrato e de outras formas complexas de atividade psicológica (VYGOTSKY; LURIA, 1996). A mediação por signos transforma qualitativamente as operações psíquicas, reorganizando a memória, a atenção e o pensamento, que passam a assumir caráter voluntário e consciente (VIGOTSKI, 2021).
Nesse contexto, a arte se apresenta como uma forma específica de mediação simbólica, na medida em que condensa e expressa, de modo sensível, conteúdos históricos, sociais e humanos (LUKÁCS, 2013). Longe de se reduzir a um ornamento ou a uma atividade secundária, a arte participa ativamente da constituição do psiquismo, ao possibilitar a reorganização das formas de sentir, compreender e agir (VIGOTSKI, 1999). A vivência estética, nesse sentido, constitui-se como um momento privilegiado de síntese entre afeto e pensamento, permitindo ao sujeito ultrapassar a imediaticidade da vida cotidiana e acessar formas mais elaboradas de consciência, atuando como técnica social do sentimento (VIGOTSKI, 1999).
Entretanto, a compreensão da arte como mediação simbólica exige considerar as transformações históricas que incidem sobre suas formas de produção, circulação e apropriação. No contexto da sociedade capitalista contemporânea, marcada pela intensificação da reprodutibilidade técnica e pela centralidade das mídias digitais, observa-se uma reorganização das mediações simbólicas que impacta diretamente a relação dos sujeitos com a arte (BENJAMIN, 2015).
Tal processo pode ser compreendido à luz da categoria de reificação, na qual as produções humanas passam a se apresentar como coisas autonomizadas, subordinadas à lógica do valor de troca (MARX, 2017; LUKÁCS, 2013).
Nesse cenário, as formas de acesso à arte tendem a ser mediadas por fluxos contínuos de conteúdos, nos quais a relação com a obra é frequentemente substituída por uma relação com as plataformas e com as dinâmicas de circulação (DEBORD, 1997). Essa transformação não implica a ausência da arte, mas aponta para uma modificação qualitativa das mediações, que tensiona a constituição da vivência estética e compromete a relação do sujeito com a obra enquanto totalidade significativa (BENJAMIN, 2015; DEBORD, 1997).
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
A presente pesquisa caracteriza-se como bibliográfica, de abordagem qualitativa, fundamentada no enfoque histórico-cultural e no materialismo histórico-dialético. Parte-se do pressuposto de que a compreensão dos fenômenos humanos exige a análise de suas determinações históricas e sociais, orientando-se por um movimento investigativo que busca apreender o objeto em sua historicidade e em suas múltiplas determinações.
O estudo se desenvolve por meio de uma análise teórico-interpretativa, baseada em produções clássicas e contemporâneas que discutem o desenvolvimento humano, a função simbólica e o papel da arte na constituição do psiquismo (VIGOTSKI, 2021; LEONTIEV, 1978; MARX, 2017; LUKÁCS, 2013). A seleção das obras considerou sua relevância teórica para a compreensão das mediações simbólicas no desenvolvimento humano.
Como suporte à análise, são mobilizados dados secundários provenientes de pesquisas institucionais sobre o acesso às tecnologias digitais e o consumo cultural contemporâneo (IBGE, 2024; CETIC.br, 2023), utilizados como indicadores das transformações nas formas de circulação e apropriação da produção cultural.
O procedimento analítico consiste na articulação entre os fundamentos teóricos adotados e os dados secundários mobilizados, buscando identificar e interpretar as transformações nas formas de mediação simbólica na contemporaneidade. A análise orienta-se pela compreensão dessas transformações em sua dimensão histórica e social, sem recorrer a procedimentos de mensuração estatística ou investigação empírica direta.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise das formas contemporâneas de produção e circulação cultural revela a transformação das mediações por meio das quais ela se realiza. Como suporte à análise, são mobilizados dados secundários provenientes de pesquisas institucionais sobre o acesso às tecnologias digitais e o consumo cultural contemporâneo, especialmente a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Tecnologias da Informação e Comunicação (PNAD Contínua TIC) (IBGE, 2024) e a pesquisa TIC Domicílios (CETIC.br, 2023). No caso do IBGE, os dados referem-se ao módulo de Tecnologias da Informação e Comunicação coletado no quarto trimestre de 2023, considerando a reformulação metodológica realizada em 2022. Já a pesquisa TIC Domicílios 2023, conduzida pelo Cetic.br, baseia-se em entrevistas presenciais realizadas entre março e julho de 2023, abrangendo domicílios em todo o território nacional, com o objetivo de medir o acesso, o uso e a apropriação das tecnologias de informação e comunicação pela população brasileira. A seleção desses dados fundamenta-se em sua capacidade de evidenciar a ampla difusão do acesso à internet e a centralidade das mediações digitais na vida social contemporânea, sendo mobilizados não como objeto de análise estatística, mas como indicadores das transformações nas formas de circulação e apropriação da produção cultural.
A educação, compreendida de maneira ampla, incluindo-se a educação escolar, que é sistematizada, a educação familiar e comunitária da qual todos participamos, e em específico os meios de produção e difusão da cultura, são o complexo de mediações que engendra as possibilidades de criação e fruição em arte, assim como acontece com os campos diversos de produção humana e produção do humano. O que, reiteradamente, Bernard Charlot elucida ao situar a antropopedagogia, cujo fundamento leva à compreensão da realidade humana como sendo a única possível aos humanos, na medida em que "o Homem nasce hominizado, mas não humanizado" (CHARLOT, 2024, p. 3) , de modo que "somos hominizados pelo nascimento e humanizados pela educação" (CHARLOT, 2024, p. 3) . Nesse sentido, a humanização é dependente da qualidade das mediações presentes na experiência direta dos sujeitos com a sua própria realidade, uma vez que "aprender é entrar em um mundo humano, nas formas que esse mundo nos oferece" (CHARLOT, 2024, p. 5).
Bernard Charlot aponta ainda para o período histórico que estamos vivendo, em que as mídias digitais tendem a influenciar sobre o desenvolvimento, posto que o humano é o resultado das mediações a que está submetido, o que fatalmente incide sobre consequências para o desenvolvimento psíquico e a formação dos sujeitos, que passam a se constituir subordinados a formas mais simples, imediatas e diluídas de mediação. Tal condição pode ser compreendida à luz do fato de que "Hoje, a televisão, a internet e as redes sociais dizem o desejo e a norma [...] e a norma decisiva já não é ética, é técnica" (CHARLOT, 2023, p. 3) , ao mesmo tempo em que "A questão do sentido (da vida, do outro, do mundo etc.) é evacuada, em favor de uma lógica de desempenho e de competição generalizada" (CHARLOT, 2023, p. 1) . Nesse cenário, intensifica-se uma condição em que "Nunca na história o indivíduo foi tão livre, mas nunca o sujeito foi tão abandonado" (CHARLOT, 2023, p. 1–2).
À luz de Debord (1997), tal processo pode ser compreendido como expressão da sociedade do espetáculo, entendida não como um conjunto de imagens em sentido literal, mas como forma social na qual a ideologia se materializa nas próprias relações sociais. Nesse sentido, compreende-se ideologia não como um conjunto de ideias abstratas, mas como um sistema de representações que organiza a forma como os sujeitos apreendem a realidade, produzindo efeitos concretos na consciência e na prática social (CHAUÍ, 2008). O espetáculo constitui, assim, uma mediação na qual a realidade é apreendida por meio de formas socialmente produzidas de aparência, que não eliminam o real, mas organizam sua forma de manifestação à consciência.
Tal transformação reorganiza qualitativamente a relação entre sujeito e obra. A mediação pelas plataformas digitais tende a priorizar a circulação contínua, a fragmentação e o consumo imediato, deslocando a relação com a obra enquanto totalidade significativa. Como aponta Debord (1997), não se trata da presença de imagens em si, mas de formas sociais de mediação nas quais a aparência assume centralidade na organização da experiência, configurando modos específicos de apreensão da realidade. Nesse movimento, a produção simbólica subordina-se à lógica do espetáculo, o que pode ser compreendido, à luz da categoria de reificação (MARX, 2017; LUKÁCS, 2013), como a autonomização das produções humanas sob a forma de mercadoria.
A compreensão desse movimento exige situá-lo no interior da dinâmica mais ampla de produção da vida social. Em Marx (2017), a produção material da existência constitui o fundamento a partir do qual se desenvolvem as formas de consciência, sendo a atividade humana o elemento central desse processo. Ao transformar a natureza por meio do trabalho, o ser humano produz não apenas objetos, mas a si mesmo enquanto ser social. No entanto, nas condições do capitalismo, essa relação se encontra mediada por formas alienadas, nas quais os produtos da atividade humana passam a se apresentar como entidades autônomas, subordinadas à lógica do valor de troca.
Lukács (2013) aprofunda essa análise ao demonstrar que a reificação não se limita à esfera econômica, mas se estende às formas de consciência, produzindo um modo de apreensão fragmentado e imediato da realidade. Nesse processo, as relações sociais são obscurecidas e a totalidade concreta torna-se inacessível à experiência cotidiana dos sujeitos. A arte, enquanto forma específica de objetivação humana, ocupa um lugar particular nesse movimento, pois, ao condensar a experiência humana sensível, possui a potência de restituir a relação entre singular e universal, entre indivíduo e gênero.
Entretanto, como indica Debord (1997), nas condições contemporâneas, essa potência é tensionada pela generalização da forma espetáculo, na qual a ideologia deixa de operar apenas no plano das representações e passa a constituir a própria forma de organização da vida social. O espetáculo não se reduz a um conjunto de representações, mas corresponde à materialização da ideologia nas relações sociais, por meio da qual a realidade passa a ser apreendida sob formas de aparência que expressam e, simultaneamente, obscurecem suas determinações concretas, configurando um modo de apreensão ideologicamente mediado da realidade (CHAUÍ, 2008).
É nesse ponto que a contribuição da psicologia histórico-cultural se torna decisiva. Em Vigotski (1999; 2021), o desenvolvimento do psiquismo humano não pode ser compreendido de forma isolada das condições históricas e sociais, uma vez que as funções psíquicas superiores se constituem por meio da mediação simbólica. A vivência (perezhivanie), enquanto unidade entre sujeito e meio, expressa precisamente a forma pela qual essas determinações sociais se tornam internas, reorganizando o funcionamento psíquico. Ela articula, de modo indissociável, as dimensões afetivas, cognitivas e volitivas, não se reduzindo às condições objetivas, mas correspondendo à forma singular pela qual o sujeito significa a realidade a partir de sua constituição histórica.
Nesse sentido, a vivência estética assume um papel específico no desenvolvimento humano, ao constituir-se como forma de mediação capaz de reorganizar as funções psíquicas superiores. Conforme Vigotski (1999), a arte opera como técnica social do sentimento, permitindo ao sujeito ultrapassar a imediaticidade da vida cotidiana e acessar formas mais elaboradas de consciência. No entanto, quando a relação com a arte é reduzida a formas fragmentadas de consumo, limitam-se as possibilidades de elaboração simbólica e de síntese entre afeto e pensamento, restringindo o acesso às formas mais complexas de pensamento.
Desse modo, a questão não se reduz à presença ou ausência da arte, mas às formas historicamente determinadas de mediação que condicionam a constituição da vivência e, consequentemente, do próprio psiquismo.
Esse movimento não se restringe ao campo da cultura, alcançando também a organização da educação escolar. No contexto brasileiro, e de modo particularmente evidente no estado de São Paulo, observa-se a intensificação da plataformização da educação, processo impulsionado pelos desdobramentos da pandemia de COVID-19 e que permanece como marca histórica no presente. Análises sobre o período evidenciam que a reorganização do ensino ocorreu em meio a profundas contradições estruturais, revelando limites materiais e pedagógicos na mediação do conhecimento.
De modo geral, a arte já ocupa uma posição desigual em relação a outros componentes curriculares, sendo frequentemente secundarizada nas práticas escolares. Nesse cenário, a centralidade das plataformas digitais tende a reforçar essa condição, ao privilegiar formas de interação fragmentadas, imediatas e padronizadas, em detrimento de processos que exigem tempo, elaboração e mediação qualificada.
Como problematiza Bernardes (2010), a educação se constitui como mediação necessária entre o sujeito singular e a produção cultural historicamente elaborada. A atividade pedagógica tem como função criar condições para a apropriação dessas objetivações, sendo a unidade entre ensino e aprendizagem condição para o desenvolvimento do psiquismo. Nessa perspectiva, a apropriação da cultura não ocorre de forma espontânea, mas por meio de processos socialmente organizados. Tal compreensão se articula à noção de relação com o saber desenvolvida por Bernard Charlot, segundo a qual o saber não se apresenta como uma entidade em si, mas como uma relação que o sujeito estabelece com o mundo, consigo mesmo e com os outros, sendo constituído em processos históricos e sociais de significação e apropriação (SOUZA; ALVES JUNIOR; FRANCO, 2023).
Tal configuração incide diretamente sobre o lugar da arte na educação, dificultando a construção de vivências estéticas que possibilitem ao sujeito ultrapassar a imediaticidade e acessar formas mais elaboradas de consciência. Quando a arte é reduzida a conteúdos fragmentados ou subordinada a finalidades externas, nega-se ao estudante a possibilidade de apropriação da produção cultural em sua dimensão universal.
Nesse contexto, a vivência estética não pode ser compreendida como resultado do simples acesso aos produtos culturais. Sua constituição depende de processos educativos intencionalmente organizados que possibilitem a mediação entre o sujeito e a obra, criando condições para a reorganização das funções psíquicas superiores. Dessa forma, frente ao empobrecimento das mediações simbólicas na contemporaneidade, a arte na educação se configura como condição para o desenvolvimento humano. A mediação educativa torna-se fundamental para que a relação com a arte se constitua como vivência estética, possibilitando a apropriação das produções humanas em sua complexidade e contribuindo para a formação dos sujeitos.
CONCLUSÃO
A análise desenvolvida permite afirmar que as transformações contemporâneas nas formas de mediação simbólica não constituem um fenômeno periférico, mas expressam uma determinação histórica central do modo de organização da vida social. No contexto atual, marcado pela intensificação da lógica da mercadoria, evidencia-se a generalização de formas de mediação nas quais a ideologia se materializa nas próprias relações sociais, configurando modos específicos de apreensão da realidade. Tal processo incide diretamente sobre a relação dos sujeitos com o mundo, produzindo uma crise nas mediações simbólicas que se manifesta, de modo particular, na relação com a arte, comprometendo uma dimensão fundamental da experiência humana.
Essa crise não se reduz a alterações nos modos de acesso ou consumo cultural, mas implica uma transformação qualitativa nas formas de relação com a produção simbólica. Ao deslocar a arte de sua condição de objetivação sensível da experiência humana para formas fragmentadas e imediatas de circulação, enfraquecem-se as possibilidades de elaboração simbólica e de síntese entre afeto, cognição e volição. Nesse sentido, o empobrecimento das mediações diz respeito à limitação de sua função na constituição da vivência e, consequentemente, no desenvolvimento humano.
Considerando que, no enfoque histórico-cultural, o desenvolvimento humano é compreendido como um processo de apropriação das objetivações produzidas pelo gênero humano, tal empobrecimento assume implicações decisivas. A vivência (perezhivanie), enquanto unidade entre sujeito e meio, constitui-se a partir das formas historicamente determinadas de mediação da realidade. Assim, a restrição do acesso a formas elaboradas de produção e apropriação simbólica implica limites concretos à formação das funções psíquicas superiores e à constituição de formas complexas de pensamento.
Dessa forma, a análise realizada permite sustentar que a arte não pode ser compreendida como dimensão secundária no processo educativo, mas como condição para o desenvolvimento humano. Sua função não se limita à expressão ou ao complemento de outras áreas do conhecimento, mas reside na possibilidade de reorganização da consciência por meio da vivência estética, entendida como forma específica de mediação entre sujeito e realidade socialmente produzida.
Nesse contexto, a educação assume um papel decisivo. Em uma sociedade na qual as mediações simbólicas se encontram tensionadas por formas ideologicamente materializadas de organização da vida social, cabe à escola garantir condições para a apropriação das produções culturais em sua forma mais elaborada. Trata-se de afirmar a educação como espaço de mediação consciente entre o sujeito e o patrimônio cultural da humanidade, no qual a arte deve ser socializada como dimensão constitutiva do processo formativo.
Conclui-se, portanto, que enfrentar o empobrecimento das mediações simbólicas implica reconhecer a centralidade da arte na educação como condição para o desenvolvimento humano. Tal posicionamento não se configura apenas como uma escolha pedagógica, mas como uma exigência teórica e histórica, uma vez que a constituição de formas mais complexas de consciência depende da qualidade das mediações simbólicas socialmente disponibilizadas aos sujeitos.
Abstract
This study analyzes contemporary transformations in symbolic mediations, focusing on the relationship between art, perezhivanie and human development in school education. The problem is to understand how the reorganization of mediations, marked by the platformization of social life and the materialization of ideology in social relations, reconfigures the relationship between subjects and art. Grounded in historical-dialectical materialism and the cultural-historical approach, the study develops a theoretical-conceptual analysis based on Marx, Lukács, Vygotsky and Debord. The results indicate that this is not an absence of art, but a qualitative transformation of mediations that limits the constitution of aesthetic experience and impoverishes symbolic elaboration. It is concluded that art, as a form of mediation, is a condition for human development, and that school education must ensure its appropriation in more developed forms.
REFERÊNCIAS
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Nota sobre uso de Inteligência Artificial
Este trabalho contou com o uso de ferramenta de inteligência artificial (ChatGPT/NotebookLM) para apoio na organização e revisão textual, sem geração de conteúdo original.
Declaração de conflito de interesses:
Os autores declaram não haver conflito de interesses.