Palavras-chave
Culturas; ciganos; experiências.
Autores
Este artigo apresenta argumentos que justificam a importância do estudo das culturas ciganas, coletadas através de narrativas durante a pesquisa de doutorado, iniciada em 2020 e finalizada em 2025. É consenso que alguns grupos étnicos no Brasil, foram marginalizados durante o processo de dominação colonial, entre eles, os grupos ciganos. Os quais chegaram ao Brasil grande parte, via deportação conforme registros encontrados em documentos históricos entre os séculos XVI e XVII de acordo com Teixeira (1998).
Durante muitos séculos, estes povos ciganos viveram sob o manto da invisibilidade sociopolítica, alvos de frequentes perseguições, atos discriminatórios e sanções governamentais e eclesiásticas, sofrendo sanções e perseguições. Desde o período colonial até a República, os grupos ciganos que se estabeleceram no Brasil, foram sistematicamente privados de direitos e proteções estatais, a exemplo da legislação sancionado durante o governo de Getúlio Vargas.
Após o golpe de 1937, que transformou efetivamente o governo Vargas numa Ditadura (o chamado Estado Novo), os ciganos foram um dos alvos destacados das iniciativas persecutórias e punitivistas. Neste período, aponta a pesquisadora Coutinho (2016), foi publicado o Decreto-Lei Nº 406, de 4 de maio de 1938, o qual tratava de coibir a entrada de estrangeiros no território nacional. Tratava-se de assinalar a necessidade de combater a penetração em solo brasileiro de indivíduos que poderiam comprometer a "ordem e progresso" pretendida.
A redação do texto governamental foi bem direta ao apontar os estrangeiros que deveriam ser impedidos de adentrar as fronteiras brasileiras. Conforme Decreto Lei 406: "Art.1° Não será permitida a entrada de estrangeiros, de um ou outro sexo: I - aleijados ou mutilados, inválidos, cegos, surdos-mudos; II - indigentes, vagabundos, ciganos e congêneres; [...]" (Brasil, 1938)
A relação estabelecida entre os ciganos, a indigência, evidenciava mais que a permanência do tratamento destinado a esses grupos nas primeiras décadas da República, aponta também para o fato de como assumir a identidade cigana tornou-se ainda mais arriscado.
Melo (2018, p. 4), que esse era um momento mundial de ascensão de ideologias e regimes autoritários, especialmente na Alemanha. Lá estava em plena vigência a Ditadura Nazista, promovendo não apenas o discurso de condenação e perseguição de determinados grupos e raças, mas também a sua própria eliminação. Entre as vítimas dessa onda de totalitarismo e nazifascismo, estiveram também, como assinala Melo (2018), os ciganos. Esses regimes, que, segundo Hobsbawm (1995), tomaram de assalto diversos países da Europa e arrastaram o mundo para a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), foram marcados pela promoção de ações que procuravam estigmatizar, violentar e exterminar diferentes comunidades e grupos étnico-raciais
Assim, embora o ordenamento constitucional tenha sido restabelecido no Brasil a partir de 1946, o governo do sucessor de Vargas, o general Dutra, foi marcado por práticas autoritária se repressivas, pouco afeitas ou preocupadas com os grupos e questões sociais. Nesse âmbito, especificamente, pouco se avançou em relação à política varguista da década anterior. Se no período getulista, especialmente a partir do Estado Novo (1937 a 1945), a presença e o modo de viver desses grupos representavam uma ameaça ao destoar do modelo de indivíduo e sociedade que as forças dominantes procuravam promover, essa percepção e as relação com as comunidades ciganas tornaram-se ainda mais problemáticas nas conjunturas históricas seguintes. A exemplo da que se procedeu com o Golpe de 1964 e inaugurou os 21 anos de Ditadura Militar no Brasil.
Na contemporaneidade, especificamente, a partir da implantação do Decreto n° 6.040, de 7 de fevereiro de 2007, os grupos ciganos puderam experiênciar tiveram pela primeira vez na história do Brasil, políticas públicas que de algum modo favoreciam sua visibilidade sociopolítica. Este decreto instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. Posteriormente, em junho de 2009, durante a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial e novamente representantes dos vários grupos ciganos estiveram presentes, eles foram recebidos pelo ministro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Edson Santos, e pela gerente de projetos de comunidades tradicionais do órgão, Bárbara Oliveira, para expor os interesses do segmento e pedir mais visibilidade para os ciganos e ciganas.
A representante cigana Mirian Stanescon aproveitou a audiência com as autoridades para reivindicar, em nome do grupo, a revalidação das propostas feitas na I Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, realizada em 2005.Atualmente está em tramitação o Projeto de Lei 1387/22, que cria o Estatuto dos Povos Ciganos. Diante do exposto, apresentam-se as experiências, vivências e as motivações que fundamentam a relevância do estudo das culturas ciganas.
1-Território metodológico:
O presente estudo adotou a abordagem da pesquisa narrativa como dispositivo metodológico e epistemológico para a elaboração da tese. A escolha por essa perspectiva fundamenta-se na compreensão de que a experiência humana é intrinsecamente estruturada de forma narrativa. Nesse sentido, Clandinin e Connelly (2011, p. 55) afirmam que "a narrativa é central para o nosso entendimento da experiência", acrescentando, ainda, que os indivíduos vivem "vidas historiadas em paisagens historiadas", o que reforça a importância de compreender a vida e a experiência por meio de narrativas.
A partir dessa abordagem narrativa o artigo, apresenta-se uma retrospectiva de relatos oriundos de entrevistas narrativas realizadas, inicialmente, com participantes ciganas e ciganos pertencentes ao grupo Calon, com o objetivo de compreender suas experiências relacionadas ao desenvolvimento de atividades econômicas no contexto da sedentarização. As narrativas coletadas permitem acessar dimensões subjetivas, sociais e culturais que atravessam e influenciam esse processo de transformação nos modos de vida do grupo
Como estratégia analítica complementar, recorreu-se à descrição narrativa histórica, com o objetivo de contextualizar os fatores que contribuíram para o processo de sedentarização cigana, bem como o consequente abandono do nomadismo. Essa contextualização permite compreender as mudanças no estilo de vida adotado pelos ciganos calon, articulando passado e presente na construção de suas experiências.
2 - Experiências e vivências
Rememora-se a chegada de um grupo de ciganos (as) aproximadamente no início dos anos 1980, na cidade de Ibiquera, localizada no interior da Bahia, na Chapada Diamantina. O grupo chegava em montarias, trazendo em seus cavalos os mais variados objetos. Quinquilharias penduradas nos espaços externos dos baús de couro, objetos de alumínios de uso doméstico ajudavam a compor a paisagem barulhenta daqueles moradores surpreendentes. No interior dos baús, grandes volumes de vestimentas típicas das mulheres ciganas, além das colchas de camas e outros objetos de valor. Outro detalhe que compunha a paisagem eram as lindas mulheres ciganas, montadas nas selas de lado, pois eram um modelo diferente das utilizada pelos homens, nesta posição favorecia para que estas ciganas carregassem seus filhos pequenos no colo e mostrasse suas virtuosas vestimentas (Silva, 2010).
Toda essa movimentação causava significativa agitação na pequena cidade, então composta por aproximadamente quatro mil habitantes na época. A presença cigana aguçava também um olhar curioso e admirador dos habitantes locais, para além dos estereótipos negativos atribuídos historicamente aos grupos ciganos. Vê-los armando suas barracas de lona causava curiosidade aos moradores, especialmente para as crianças e jovens. As barracas eram montadas em uma pequena praça localizada nos fundos da residência da autora, circunstância que favorecia uma convivência mais prolongada no local e possibilitava interações frequentes com as crianças ciganas.
De acordo com Moonen (2013), a sedentarização e o aumento da pobreza de certosgrupos de ciganos calon nordestinos intensificaram-se com a industrialização que teve início na década de 1960. Dessa forma, os ciganos tiveram que buscar outras atividades geradoras de renda para substituir as antigas. A principal renda se concentrava na venda de animais, como foi o caso dos ciganos que chegaram na década de 1980, em Ibiquera.
Para Fotta (2020), além de vendas e trocas de animais, o pesquisador afirma que os ciganos sempre negociaram com diversos produtos, sendo também prestamistas, e que no interior da Bahia os ciganos representam uma importante fonte de crédito. Atualmente, os ciganos que vivem nas cidades da Chapada praticam o que Soria (2016, p. 22) chama de nomadismo circular. Realizam diversos tipos de atividades e negociam com diversos produtos, em diversas cidades, incluindo vendas de tecidos de seda e guipir para confecção das roupas das mulheres ciganas, alguns são pecuaristas, outros são vendedores e compradores de carros. Os calon da Chapada costumam realizar negócios principalmente pelas cidades deUtinga, Morro do Chapéu, Jacobina, João Dourado, Boa Vista do Tupim e Iaçu, MiguelCalmon, Ibiquera, além de Amargosa e outras. Apesar do sustento familiar ser deresponsabilidade masculina, Campos (2020), em sua pesquisa, descreve sobre as calin mineiras que saem às ruas para vender panos de pratos. "Nas famílias consideradas mais "ricas", as mulheres não possuem atividades de venda externa ao acampamento. Aquelas que o fazem são as que os maridos possuem mais dificuldades financeiras (...)" (Campos, 2020, p. 239). Na região da Chapada muitas mulheres também realizam negócios de acordo com o representante da comunidade da cidade de Utinga - Bahia, o calon Escolástico Almeida.
De acordo com o calon Almeida (Escolástico Almeida é representante calon da comunidade de Utinga, Bahia, e participante da pesquisa) (2023) revela conhecer várias mulheres que executam também esta atividade, outras são vendedoras de vestidos, acessórios para as roupas. Almeida (2023) ressalta que o ganho da mulher pode servir para diversas funções. Muitas utilizam para seu próprio bem-estar, cuidar de si, outras utilizam para complementar a renda do marido - o uso dependerá da condição financeira da família. Assim, como Minas , Chapada Diamantina e no Extremo Sul da Bahia a representante da associação de mulheres ciganas da cidade de Porto Seguro, também informou que na sua comunidade as mulheres realizam diversos trabalhos:
(...) aqui nós emprestamos dinheiro, a gente faz bordados, borda nossos vestidos, borda para outras ciganas, tem umas que vende avon, outras vendem boticário e hinode, todos esses produtos cosméticos vendem, tem umas que vendem tecido, a gente compra tecido para revender, pega tecido e revende as ligas, aqueles bicos que colocam nos nossos vestidos, bicos de gripi, tudo isso nós fazemos (...) (Dinha Santos, 2023). (Dinha Santos é professora em uma turma da EJA voltada para mulheres ciganas, que funciona à noite na comunidade em parceria com o município de Porto Seguro, Ba)
Viver de forma sedentária contribuiu para que alguns demarcadores de gênero do modo de ser cigano sofressem interferência externa, neste caso refiro-me à posição que sempre foi delegada às mulheres. Dinha Santos, ao falar sobre as atividades que são desenvolvidas pelas mulheres, sendo ela umas das incentivadoras do trabalho feminino, destaca que hoje já existem mulheres diplomadas e que só foi possível a partir da vida sedentária.
Essa transformação na trajetória das mulheres ciganas encontra respaldo na perspectiva de Charlot (2023), para quem o ser humano se constitui como uma aventura em permanente construção, cujo percurso é inevitavelmente mediado pelas condições históricas, culturais e relacionais em que cada sujeito está inserido. O acesso à escolarização, nesse sentido, não representa apenas uma conquista individual, mas a abertura de um novo horizonte de possibilidades para sujeitos que historicamente foram mantidos à margem das instituições formais de saber.
Uma mulher cigana de família tradicional tem sim suas restrições, tem muita coisa que nós mulheres ciganas não vamos poder fazer. Embora nessa nova geração, graças a Deus, as coisas já estão melhorando, a questão de ter mulheres formadas, mulheres fazendo faculdade, mas ainda está muito pouco o índice, mas já tem corrido algumas mudanças (...) na nossa cultura cabe ao homem a responsabilidade de sustentar a família, o provedor (Dinha Santos, 2023).
A representante também deixa claro que, mesmo com alguns avanços, para uma mulher cigana de família tradicional ainda existem restrições ao que é cabível é permitido à mulher fazer. Mas também informa que, mesmo de forma ainda bem reduzida, as mulheres ciganas vêm ocupando lugares que antes dificilmente poderiam trilhar. Ela, por exemplo, é uma mulher nascida no final da década de 1980, sua geração alcançou socialmente os movimentos de luta feminina. Mesmo casada e seguindo a tradição endogâmica, ocupa cargos de Conselheira Nacional e de Igualdade Racial e Conselheira Estadual de Povos e Comunidades Tradicionais,além de ser professora para uma classe de Jovens e Adultos - EJA que funciona na comunidade em parceria com o município na cidade de Porto Seguro / Ba , ativista e defensora de políticas que de visibilidades as culturas ciganas .
3 - Por que culturas ciganas?
Considera-se necessário esclarecer que neste trabalho será adotado o termo culturas e não cultura no singular ao referir-me aos ciganos, partindo do pressuposto de que, apesar de se tratar de um grupo étnico específico, os ciganos não são homogêneos. Além de entender que o conceito de cultura não pode ser pensado como algo estático, fixo no tempo. Barth (2005, p. 17) expõe que "a cultura está em um estado de fluxo constante" e que não se pode pensar os materiais culturais como tradições fixas no tempo.
Assim, compreende-se, a partir do que se convencionou chamar de "cultura" cigana, que existem diversas culturas. Hall descreve que nos últimos anos "(...) a palavra "cultura" passou a ser utilizada para descrever valores compartilhados de um grupo ou de uma certa sociedade" (Hall, 2016, p. 19). Este é o entendimento percebido entre os ciganos e ciganas participantes desta pesquisa. O autor ainda complementa o sentido de cultura afirmando que é necessário "que os seus participantes interpretem que acontece ao seu redor e deem sentido às coisas de forma semelhante (...) Além disso, a cultura se relaciona a sentimentos, a emoções, a um senso de pertencimento (...)" (Hall, 2016, p. 20).
Portanto, compreendo a cultura como um movimento dinâmico e fluido em constantetransformação, em que as pessoas ora vão se adaptando, ora modificando sua forma de ser eexperienciar o mundo vivido nesse espaço de intersecção cultural, assim, mesmo nos grupostradicionais que tentam preservar costumes e/ou tradições considerados permanentes,modificações acontecem.
Nessa mesma direção, compreender as transformações culturais vividas pelos grupos ciganos exige reconhecer que aprender e se constituir culturalmente são processos indissociáveis. Charlot (2024) argumenta que aprender equivale a entrar no mundo humano e, nesse movimento, produzir-se como ser humano, o que implica que toda experiência de aprendizagem e, ao mesmo tempo, uma experiência de humanização. Assim, as mudanças observadas nas comunidades ciganas, especialmente entre as novas gerações, não configuram apenas adaptações pragmáticas ao mundo externo, mas processos mais profundos de reconstituição identitária e cultural mediados pela relação com o saber.
São outros tempos, são novas gerações que vivenciam novas experiências. Conforme Giddens (1992, p. 37), "(...) nas sociedades tradicionais o passado é venerado e os símbolos são valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. A tradição é um meio de lidar com o tempo e o espaço (...)".
Nesta perspectiva temporal, Ferrari (2010, p. 259) pontua que "(...). O passado calon é o tempo da memória das relações vividas, um tempo curto em relação ao nosso tempo histórico, ou que se expande graças à capacidade de nos apropriarmos indefinidamente de memórias de outros, por meio de fotos, textos, narrativas". Os ciganos calon sempre dizem que vivem o hoje, o presente, mesmo que tenham suas referências de valores com base na tradição arraigados em valores de gerações passadas.
Nesta pesquisa, os (as) participantes que são pertencentes à ascendência cigana, embora compartilhem e conservem alguns valores culturais comuns, apresentam diferenças entre si. Esta é a concepção do pesquisador brasileiro contemporâneo pertencente à etnia calon (Silva Júnior, 2009, p. 62), pois assim afirma: "Todavia, não existe um único tipo de cultura cigana ,mas sim diversas comunidades (historicamente diferenciadas) chamadas de ciganas, que podem ou não manter relações de semelhanças ou diferenças umas com as outras". O historiador Teixeira (2008) expõe, em seus estudos, que a documentação existentesobre os grupos ciganos é escassa e são apresentadas a partir de registros realizados por chefesde polícia, clérigos e viajantes, entre outros, e acrescenta que "(...) Nestes testemunhos, ainformação sobre os ciganos é dada por intermédio de um olhar hostil, constrangedor eestrangeiro" (Teixeira, 2008, p. 5). Esta minoria étnica tem sua história escrita com base emrelatos e percepções narradas por indivíduos não ciganos, muitas vezes carregados deestranheza cultural. O autor ainda acrescenta que para historicizar os ciganos é necessáriocompreendê-los na sua "pluralidade e excepcionalismo".
De acordo com Silva Júnior (2009, p. 51), "é necessário reconstruir a trajetória dos ciganos a partir de um olhar menos preconceituoso e afirma que há concepções construídas sobre eles, criadas e estereotipadas a partir do século XVI". Assim, é essencial pluralizar o conceito e descrevê-lo requer uma análise bastante minuciosa de seus costumes e das diferenças. Informa o pesquisador que o termo "cigano" isoladamente não corresponde corretamente às comunidades e as diversidades de grupos brasileiros.
Os ciganos têm uma ideia de pertencimento nacional diferente dos construídos pelosmitos da invenção da existência de uma identidade nacional unificada. "Em vez de pensar asculturas nacionais como unificadas, deveríamos pensá-las como constituindo um dispositivodiscursivo que representa a diferença como unidade ou identidade. Elas são atravessadas porprofundas divisões e diferenças internas, sendo unificadas (...)" (Hall, 2000, p. 62). No que se refere aos ciganos entrevistados em 2008 pela a autora , os mais velhos diziam que não são daqui, que são de uma terra distante. Também não se identificam como um "brasileiro", eles dizem que são ciganos para demarcar a diferença étnica, eles não utilizam o termo não cigano. Sua identidade étnica não é referendada como pertencente à terra em que vivem.
A autora Kathryn Woodward (2014), ao estudar as diferenças das identidades sérvias e croatas, aponta a marcação destas identidades a partir das diferenças entre esses povos. Desta maneira, se afirmar cigano é o mesmo que se afirmar como não cigano e vice-versa. Eles (os ciganos entrevistados) trazem sempre a ideia de territorialidade deslocada, que vieram do Egito, este é o local de memória que eles trazem como referência, produzindo um certo "cigano imaginado" e contam uma história bíblica para afirmar este nomadismo vivido.
Os ciganos que conheci narram que seu povo acompanhava nossa senhora pelo Egito na época do nascimento do menino Jesus, para justificar sua origem e suas andanças pelas estradas referindo-se aos modos de viver dos velhos tempos, eles se dizem protegidos de Nossa Senhora. Esta história de origem egípcia é mencionada por Moraes Filho (1981), sendo encontrada no dicionário português escrito por D. Raphael Bluteau. O que difere dos relatos contados pelos ciganos entrevistados por Silva (2010) em que eles se dizem protegidos, enquanto são descritos pelo padre dicionarista de forma pejorativa, ele menciona que os ciganos simulam ter origem egípcia e justificam o nomadismo como um castigo de ordem divina: "(...) se fingem naturais do Egito e obrigados a peregrinar pelo mundo, sem assento nem domicílio permanente, como descendentes dos que não quiseram agasalhar o Divino Infante quando a Virgem Santíssima e S. José peregrinavam com ele pelo Egito" (Moraes Filho, 1981, p. 23).
Ferrari (2010), afirma que nos primeiros contatos com os ciganos na Ponte do Morumbi em São Paulo ao perguntar sobre sua origem ouviu também esta mesma resposta: "A gente vem do Egito" (Ferrari, 2010, p. 257), no entanto, para a pesquisadora, estava evidente que os ciganos deram a resposta que eles acreditavam que era o que ela gostaria de ouvir, na sua interpretação a resposta tinha sido estratégica. Diferente do que disseram os ciganos entrevistados no contexto da pesquisa que em que se baseia este trabalho, o que faz sentido para os ciganos calon sobre a sua origem é o último lugar de permanência, segundo Ferrari (2010).
Outra questão importante, também mencionada pelos ciganos observados pela autora, trata-se a sua entrada no território brasileiro. Não conhecem a história das deportações, pelo menos nenhum idoso falou deste episódio. Só falam da vida de vendedor e negociante de animais e que por conta dessa atividade viviam pelas estradas.
Eles se sentem como os de fora (outsiders) (Em Os estabelecidos e os outsiders, Norbert Elias e John Scotson, 2000, realizam um estudo na comunidade Wiston Parva, nos arredores de Londres, na qual dois grupos coexistiam: os "estabelecidos", moradores antigos, e os "outsiders", residentes novos excluídos pelos primeiros. Segundo os autores, "a exclusão e a estigmatização dos outsiders pelo grupo estabelecido eram armas poderosas para que este último preservasse sua identidade e afirmasse sua superioridade, mantendo os outros firmemente em seu lugar", Elias e Scotson, 2000, p. 22), aqueles que não pertencem a um grupo determinado de poder. Neste sentido, vale lembrar a análise realizada pelo autor Norbert Elias (2000), quando discute as relações de poder existentes numa pequena comunidade inglesa que produz status para uns, os que são estabelecidos, e a exclusão para os que são considerados de fora. Os ciganos que conheci não possuem este sentimento de pertença, eles se sentem como os de fora, não se sentem representados dentro do que se convencionou chamar de identidade nacional, a ideia hegemônica de identidade nacional deve ser analisada sob rasura. Ferrari (2010) questiona:
(...) o que dizer dos ciganos, que vivem na mesma cidade que eu vivo, falam português, (...) ouçam música sertaneja, compram tecidos no centro da cidade, casam na Igreja Católica (...) as noções de tradição e de autenticidade devem ser descartadas para descrever o fenômeno cultural que temos diante de nós. Eles dizem Calon e eu acredito que sua experiência do mundo é muito diferente da minha (...) (Ferrari, 2010, p. 12).
Os ciganos e ciganas dizem que têm sua própria cultura e suas tradições, mas vivem lado a lado com os não ciganos, chamados por eles de brasileiros, e nesta vivência não passam ilesos, afinal, também recebem influição do meio e certamente deixam suas influências. De acordo com Hall (2006, p. 31), ao citar Mary Louise Pratt, "Através da transculturação grupos subordinados ou marginais selecionam e inventam a partir de materiais a eles transmitidos pelas culturas metropolitanas dominante". Hall também expõe que ontologicamente cultura não é uma questão de ser, mas do que o indivíduo se torna. Nesse sentido, "tornar-se" implica mudança, movimento e negociação contínua de significados, nos quais identidades culturais são constantemente produzidas, reelaboradas e ressignificadas ao longo do tempo, sobretudo a partir das seleções dos materiais transmitidos pela cultura dominante.
Por fim, as reflexões existentes neste artigo demarcam a importância do dinamismo cultural. De acordo com Bhabha (2013), a cultura não se apresenta como um constructo fixo e as relações não são estáticas. As culturas ciganas também não são, e se constituem como processo contínuo de transformação.
Ao longo do texto, destacou-se não apenas o percurso histórico de vivenciado pelos grupos ciganos, marcado por perseguições e preconceito, mas o dinamismo e mudanças estruturais que envolvem mulheres ciganas na atualidade, para além do espaço doméstico, sobretudo, porque a base da estrutura familiar cigana ainda segue princípios com base no patriarcalismo.
Fica evidente que, embora as mulheres ciganas ainda tenham no cuidado da família sua principal ocupação, elas têm desenvolvido, no contexto da vida sedentária outros modos de também obter maior autonomia econômica, conseguindo seu próprio capital e não ficando somente dependente do sustento do seu cônjuge.
Abstract
This article presents the theme: Why study Gypsy cultures? The experiences and lived experiences observed in a Calon group from Chapada Diamantina (Bahia). The reflections presented here are part of the introductory chapter of the doctoral thesis entitled Weaving Borders: Cultural Negotiations surrounding mixed marriages of non-Gypsy women with Gypsy men (2025), presented to the Postgraduate Program in State and Society (PPGES) at the Federal University of Southern Bahia – UFSB. The theoretical discussions are based on authors such as), Hall (2006), Soria (2016), Teixeira (1998), Senna (2005), Hobsbawm (1997), Bhabha (2013), among others. According to contributions from Brazilian gypsy scholars and researchers, it is necessary to deconstruct stereotypical, prejudiced, and reductionist views about the ways of being and living of gypsy groups, as well as to identify the socioeconomic transformations associated with the transition from a nomadic lifestyle to a sedentary one.
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