Palavras-chave
recifes de coral; inovação; tecnologias digitais
Autores
O Oceano cobre a maior parte da superfície do planeta, sustenta a teia da vida, influencia o clima e participa de forma decisiva nos ciclos da água, do carbono e de outros elementos fundamentais (Cooley et al., 2022; IPCC, 2022). Ao mesmo tempo, vive uma situação de crise: poluição, sobrepesca, acidificação, aquecimento e perda de habitats costeiros compõem um quadro que compromete tanto a biodiversidade quanto os modos de vida humanos associados aos ambientes marinhos (IPBES, 2019).
No Brasil, apesar da extensa faixa costeira e da importância socioeconômica dos recursos marinhos, temos uma grave problemática: a população em geral sabe pouco sobre o oceano, seu funcionamento e seus vínculos com o cotidiano. Sendo assim, faz-se necessária a criação de uma Cultura Oceânica, advinda do termo Ocean Literacy (NOAA, 2013) através do fortalecimento de uma mentalidade marinha (UNESCO-IOC, 2022).
A educação aparece, nesse cenário, como campo estratégico para a construção de novas formas de relação entre sociedade e oceano. Documentos internacionais, como a Agenda 2030 e a Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021–2030), reforçam a necessidade de integrar o tema do oceano em currículos, práticas de ensino e ações de sensibilização. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) como o 4 (Educação de qualidade), o 13 (Ação contra a mudança global do clima) e o 14 (Vida na água) apontam para a urgência de articular conhecimento científico, engajamento social e inovação pedagógica. Entretanto, educadores e escolas frequentemente relatam dificuldades em trabalhar conteúdos relacionados ao oceano e aos recifes de coral, seja por falta de materiais didáticos adequados, seja por lacunas em sua própria formação.
O projeto "Cultura oceânica: criação de uma mentalidade marinha para a conservação do oceano" surge com o propósito de enfrentar essas lacunas por meio da produção de materiais educacionais acessíveis, esteticamente engajadores e cientificamente fundamentados. Desenvolvido no âmbito do Laboratório de Conservação com a Vida (CONVIDA), da Universidade Federal de Sergipe, e financiado pelo edital INOVEEDU/2024, o projeto teve como foco a realidade dos recifes de coral em Sergipe, integrando resultados de pesquisas recentes com estratégias de comunicação e arte. O vídeo ecopedagógico e o e-book produzidos pretendem apoiar educadores na discussão de temas complexos como Conservação do Oceano inclusa na temática transversal Meio Ambiente.
Este artigo tem por objetivo relatar a concepção, o desenvolvimento e a análise dos produtos educacionais gerados, discutindo suas contribuições para a promoção da cultura oceânica e para a formação de uma mentalidade marinha e os desafios atrelados à conservação marinha.
Referencial teórico
O Oceano é a feição que define o nosso planeta. Tem uma função vital na regulação climática, no depósito de carbono, na teia alimentar e no provimento de toda a vida existente na Terra.
Em tempos de crise socioambiental preservar o Oceano é condição essencial para sustentabilidade, pois a insalubridade em que o mesmo se encontra acarreta uma ameaça à vida; e medidas urgentes para preservá-lo em todos os âmbitos da sociedade surgem como necessárias.
Uma das maneiras de trazer à tona e problematizar essa questão socioambiental é através da Educação, numa abordagem freiriana, humanística, libertadora, dialógica e política.
Na década mundial dedicada ao Oceano pela ONU, devida a sua importância na manutenção e preservação da vida, vemos essa proposta de grande relevância no preenchimento dessa lacuna: a falta de uma educação oceânica e da compreensão de como esse sistema atua em nossas vidas, ou a falta de uma alfabetização oceânica.
Estamos num momento crucial da humanidade, no qual nossos hábitos geraram uma crise mundial do ponto de vista econômico, ecológico e humano. Momento esse em que praticar a sustentabilidade tende a ser o único caminho para manutenção da vida.
No entanto, devido à complexidade dessa temática, não há um consenso do que é Sustentabilidade ou quais deveriam ser as práticas utilizadas para alcançá-la. Nesse sentido, vemos a Educação Ambiental, EA, aliada à Arte como um dos caminhos viáveis para chegarmos tanto à compreensão quanto à prática da Sustentabilidade.
Porém, grande parte das experiências existentes em Educação Ambiental tem sido um processo falho quanto ao alcance de seus objetivos (Leff, 2001). Um dos motivos do processo falho apontado por Leff (2001) é que a preocupação inicial dos educadores se limitou a objetivos de conservação da natureza, não aprofundando aspectos relacionados à pluralidade, subjetividade e complexidade do ser humano.
Destituiu-se assim, os entendimentos e provocações advindos da percepção contextualizada pelos campos simbólico (razão) e sensível (sentimento), que juntos nos dão o conhecimento e, portanto, a compreensão mais próxima da realidade.
Vemos a arte aqui como uma grande aliada nesse processo, devido ao grande potencial sensibilizador que lhe é inerente. Além de trazer em sua ampla subjetividade, maneiras eficazes de trabalhar de forma plural, diversa e inclusiva.
Assim, pretendemos desenvolver os materiais educativos aliando a arte à Educação Ambiental ao tratarmos da Cultura Oceânica. A integração da Cultura Oceânica à Educação representa uma articulação entre saberes científicos, ambientais e civis que aproxima os estudantes da compreensão crítica e vital da interferência do oceano como elemento essencial para a sustentabilidade planetária.
A adoção do "Currículo Azul" à BNCC em 2025 inclui o mar no centro de propostas pedagógicas desde a educação básica até o nível superior (MCTI, 2025). Amplia o diálogo com as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) e com o Referencial Curricular, que orientam a construção de conteúdos e competências com ênfase na responsabilidade socioambiental e no cuidado com o oceano. (Pazoto et al., 2024).
No nível superior, principalmente nas licenciaturas, é fundamental a formação de professores hábeis na mediação da Cultura Oceânica de forma interdisciplinar em suas respectivas áreas do conhecimento. Dessa forma os futuros educadores podem tornar-se multiplicadores deste conteúdo, tanto na educação formal quanto informal. (Pazoto et al., 2023).
É importante destacar a relevância da formação inicial e continuada de professores como uma estratégia para que a cultura oceânica se consolide como prática pedagógica crítica e contextualizada, principalmente com a cultura local. Pois intervenções de longo prazo produziram mudanças de percepções e perspectivas socioambientais dos estudantes, demonstrando a necessidade de ininterrupção institucional. (Nicola et al. 2025).
Assim, para cristalizar a formação de uma mentalidade marinha, docentes e instituições são convidados a construir experiências educativas contextualizadas com o cenário socioambiental local e global (IO, 2025). Dessa forma, pode-se preparar cidadãos hábeis na compreensão e enfrentamento interdisciplinar de problemáticas coletivas, como por exemplo a Emergência Climática, a qual o oceano tem papel fundamental e ainda desconhecido, mas não menos influente nas alterações globais e nas políticas de Mudança do Clima. (Brasil, MMA, 2025).
São muitos os desafios e vertentes em diferentes níveis para consolidar uma Cultura Oceânica em um país de dimensão continental como o Brasil. Uma das formas de auxiliar esse processo é a criação de materiais eco pedagógicos norteadores para auxiliar essa discussão, de forma crítica e contextualizada e que possa existir em todas as etapas da formação educacional brasileira, seja ela formal ou informal.
Contextualização
Nós, seres humanos, pressionamos o equilíbrio do planeta de diferentes formas. Sobrecarregamos os sistemas pelo uso irracional dos recursos e a geração de resíduos que modificam biogeoquimicamente os ciclos naturais, apontadas por Moran (2011) como a crise socioambiental: perda da biodiversidade, poluição das águas, diminuição da cobertura dos solos, desertificação, perda de florestas tropicais, extinção de espécies, acidez, empobrecimento e envenenamento dos solos e do Oceano.
O que traz consequências diretas ao ser humano como: escassez de recursos, alterações no clima, chuvas torrenciais, secas prolongadas, epidemias, pandemias, êxodo rural, crescente urbanização, violência, fome, desigualdades sociais, crimes e guerras. "Agimos como se estivéssemos acima das regras que regem as demais espécies do planeta." (Moran, 2011, p.30).
Diante desse cenário, diversos autores (Camargo, 2003; Capra, 2001; Leff, 2009; Loureiro, 2006; Morin, 1977) concordam com a urgência em se entender a relação entre o homem e a natureza, as consequências dessas ações para natureza e por conseguinte para o homem.
Para além desse entendimento é urgente praticar uma vida em sociedade mais sustentável, o que significa preservar mais do que extrair, equilibrar mais do que produzir. Para isso é necessário conhecimento de causas e consequências e portanto, de uma educação com uma visão sustentável em sua base (Loureiro, 2006; Santos, 2006).
Além de inserir na mesma uma dimensão estética para que os educandos produzam os próprios sentidos sobre o que estão aprendendo (Campos, 2014). Dessa forma eles poderão alcançar uma compreensão maior da crise socioambiental atual para que possamos refletir coletivamente sobre a mesma em busca de hábitos mais sustentáveis.
Um dos motivos dentre outros pelo qual chegamos a esse ponto de inflexão da história na perspectiva socioambiental é o enorme fosso existente na relação homem-natureza, principalmente homem-oceano. Essa ilusão de separação possui impactos e influências diretas e indiretas sobre ambas as partes com consequências negativas incidindo diretamente sobre o homem.
Algumas características peculiares do sistema Oceano é que este contém 97 % da água existente na Terra, regula o clima e a distribuição de água doce no mundo e mantém a permanência e funcionamento de toda a vida que existe incluindo a nossa (Ross, 1970; Skinner, Turelian, 1988). Logo, preservar o Oceano é condição para preservação da espécie humana.
Assim, trazer a dimensão da Sustentabilidade para a educação e para as artes é fundamental na criação de valores necessários à formação de cidadãos aptos a lidar com as problemáticas socioambientais oriundas da crise em que nos encontramos.
Proporcionar conhecimentos que facilitem a compreensão da relação homem- natureza é essencial para a preservação da vida na Terra em sociedade. Nesse sentido, "[...] o educador tem a função de mediador na construção de referenciais ambientais e deve saber usá-los como instrumentos para o desenvolvimento de uma prática social centrada no conceito da natureza." (Jacobi, 2003, p. 193).
No entanto, há uma grande dificuldade por parte dos educadores em trabalhar o tema transversal Meio Ambiente, que é uma exigência do MEC, em suas atividades. Sendo assim, o presente projeto busca, através da escolha de seu tema, um mergulho transdisciplinar na Arte, para potencializar as vivências de Educação Ambiental, através da união da percepção dos campos simbólico e sensível no entendimento da crise socioambiental que nos encontramos, a fim de criar conteúdos atuais e relevantes como materiais de suporte aos educadores para criação de uma mentalidade marinha que venha fortalecer a Cultura Oceânica voltada a responsabilidade socioambiental individual e coletiva por esse sistema.
Em 2013 foi criado nos EUA o Ocean Literacy – OL (NOAA, 2013),ou Letramento do Oceano ou Alfabetização Oceânica, como sendo a união dos conhecimentos das Ciências do Mar com a Educação em "princípios essenciais e conceitos fundamentais das ciências do mar para aprendizes de todas as idades". Baseando-se na compreensão de que o oceano exerce uma influência sobre o ser humano e vice-versa. O objetivo principal do OL é o de letramento científico do Oceano, ou seja, formar ou adequar um educador em assuntos relacionados com as Ciências do Mar para que este entenda como essas relações funcionam e então possa transmitir esses conhecimentos para seus alunos e cidadãos em geral.
O conceito de Cultura Oceânica, como ficou conhecido no Brasil, está diretamente relacionado às iniciativas internacionais de Letramento do Oceano, que sintetizam conhecimentos essenciais sobre o papel do oceano no sistema Terra e na vida humana em um conjunto de princípios e conceitos fundamentais. Entre esses princípios, destacam-se aqueles que afirmam a forte interdependência entre o oceano e a humanidade e a necessidade de abordagem interdisciplinar para estudar e compreender os sistemas marinhos (NOAA, 2013).
Ao internalizar esses princípios na educação, busca-se que estudantes, comunidades e sociedade em geral reconheçam o oceano como parte de suas próprias vidas, assumindo a responsabilidade por sua conservação. Isto é o que significa a criação de uma mentalidade marinha, que uma vez fomentada irá se demonstrar de forma natural na cultura.
A Educação Ambiental Estética, por sua vez, enfatiza que a compreensão da crise socioambiental não pode ser reduzida a informações técnicas ou a discursos normativos sobre sustentabilidade. É preciso integrar razão e sensibilidade, ciência e arte, para que os sujeitos construam significados próprios a partir de experiências que envolvam o corpo, a emoção e a imaginação. Essa perspectiva se inspira em autores que criticam a fragmentação entre ser humano e natureza e defendem uma educação que reate esses vínculos por meio de vivências estéticas e participativas, abrindo espaço para o diálogo entre saberes e para uma visão complexa dos problemas ambientais (Leff, 2001; Campos, 2014, Campos e Ribeiro, 2015; Campos e Figueira, 2019).
Material e Método
Este trabalho insere-se no Paradigma Emergente (Santos, 2009), com metodologia qualitativa, em uma abordagem interdisciplinar nas Ciências da Sustentabilidade ou o que Moran (2011) denomina de Ciências acopladas Homem-Natureza.
Nosso entendimento caminha pela arte- educação de Read (2001) ou o que Duarte Júnior (1988) chamaria de Educação Estética. Logo, discutindo temáticas ambientais por esse viés, tendo a Educação Ambiental Estética (Campos, 2014), e o Ocean Literacy (NOAA, 2013) como constructo metodológico.
Trouxemos também as tecnologias digitais da informação e comunicação como vídeos educativos, e-books interativos, plataformas on-line e redes sociais podem ampliar o alcance de conteúdos sobre o oceano, facilitar a circulação do conhecimento acadêmico em linguagem popular e favorecer a inclusão de pessoas com diferentes necessidades.
O trabalho de criação dos materiais ecopedagógicos foi realizado na Universidade Federal de Sergipe, no município de São Cristóvão/SE, entre agosto de 2024 e janeiro de 2025. Não houve validação pedagógica inicial ou pré-teste com os usuários (educadores/alunos) antes da versão final dos produtos. O projeto foi vinculado ao Laboratório Interdisciplinar de Conservação com a Vida (CONVIDA), que desenvolve pesquisas sobre Conservação da Vida, principalmente dos recifes de coral e outros ecossistemas marinhos na costa sergipana.
O público beneficiado com os produtos educacionais inclui docentes e discentes da educação básica e do ensino superior, educadores não formais e membros de comunidades costeiras, com ênfase nas redes públicas de ensino que manifestaram interesse na adoção do e-book e do vídeo como materiais de apoio em disciplinas relacionadas ao meio ambiente e ao oceano.
Fontes e instrumentos
As principais fontes de informação para criação dos materiais ecopedagógico foram: resultados de pesquisas do CONVIDA sobre recifes de coral em Sergipe; documentos institucionais relacionados ao projeto INOVEEDU; literatura científica sobre cultura oceânica, Educação Ambiental Estética e conservação marinha; e registros de expedições de campo (fotos, vídeos e dados). Os instrumentos utilizados na produção dos materiais incluíram softwares de edição de vídeo (Adobe Premiere), programas de diagramação (Canva, Microsoft Word) e ferramentas de ilustração digital, além da colaboração de um profissional especializado na edição final do vídeo e na diagramação do e-book.
Questões Éticas
Por se tratar de desenvolvimento de produtos educacionais a partir de dados secundários e registros de expedições científicas já concluídas, o projeto não envolveu coleta de dados pessoais sensíveis nem experimentos com seres humanos ou animais em situação de risco. Ainda assim, foram observados princípios éticos, tais como: reconhecimento de autoria de imagens e dados científicos produzidos pelo CONVIDA; formalização do serviço de edição e diagramação; citação adequada das fontes bibliográficas; e cuidado com a representação de comunidades tradicionais, evitando estereótipos e garantindo respeito às suas formas de vida. A equipe buscou, ainda, seguir orientações institucionais da universidade para projetos de extensão e divulgação científica.
Resultados
O desenvolvimento do projeto seguiu um plano de trabalho organizado em objetivos específicos, articulados a um cronograma semestral, cujas etapas foram:(a) suscitar assuntos relevantes à temática socioambiental sobre a relação homem-oceano, de cunho científico, para compor o conteúdo do vídeo e do e-book; (b) desenvolver esse conteúdo em linguagem popular de fácil entendimento, como forma de disseminação científica; (c) realizar a criação artística sobre as temáticas socioambientais elencadas; (d) criar um vídeo unindo o conteúdo socioambiental pesquisado com a criação artística; (e) criar um e-book sobre o conteúdo socioambiental pesquisado, unindo os conteúdos à arte criada; (f) disponibilizar o vídeo e o e-book com instruções aos educadores para discussão em seus espaços educativos; e (g) veicular esses materiais nas redes sociais e em canais institucionais, favorecendo o acesso à sociedade em geral.
Entre os meses de agosto e setembro, foi realizado o levantamento bibliográfico e a sistematização de dados científicos sobre crise socioambiental, recifes de coral em Sergipe e princípios de letramento do Oceano. Em outubro, concentrou-se a etapa de criação artística: elaboração de roteiros, concepção de personagens visuais, ilustração e escolha de trilhas sonoras compatíveis com a proposta estética. Em Novembro foi realizada a produção do vídeo e a escrita do e-book, passando por revisões internas entre os membros da equipe. Em dezembro, os materiais foram finalizados e revisados.
O primeiro produto educacional foi um vídeo ecopedagógico de aproximadamente cinco minutos, que combina imagens de expedições científicas realizadas pelo CONVIDA em ambientes recifais de Sergipe com ilustrações e elementos gráficos criados especificamente para o projeto. O roteiro foi estruturado em três momentos: apresentação da importância do oceano para a vida no planeta; explicitação da crise socioambiental e das ameaças aos recifes de coral (incluindo branqueamento, espécies invasoras como coral-sol, peixe-leão, esponjas perfurantes e poluição); e convite à construção de uma mentalidade marinha comprometida com a conservação.
A narração emprega linguagem simples, metáforas acessíveis e exemplos do cotidiano, de modo a dialogar tanto com estudantes do ensino básico quanto com o público em geral. Do ponto de vista estético, o vídeo explora contrastes entre imagens de recifes saudáveis e cenas de degradação, intercaladas com animações leves e trilha sonora que evoca o ambiente marinho.
O vídeo foi publicado no canal Coraisconvida (YouTube), funcionando como elemento de divulgação científica e ferramenta pedagógica aberta. Esse material associa-se a uma proposta de atividade didática para professores, sugerindo modos de exploração em aulas presenciais, on-line ou híbridas.
O segundo material ecopedagógico foi o e-book intitulado "Eles existem! Há recifes de coral em Sergipe" (Campos, 2025). Organizado em capítulos curtos, o livro apresenta, em linguagem popular, informações sobre a formação dos recifes de coral, a biodiversidade associada, os serviços ecossistêmicos que prestam e as ameaças que enfrentam. Traz também seções dedicadas à relação histórica e cultural das comunidades costeiras com o mar, ao papel das mulheres e dos jovens na pesca artesanal e às possibilidades de participação social na conservação dos ecossistemas recifais.
A diagramação do e-book segue as normas acadêmicas básicas, ao mesmo tempo em que incorpora ilustrações autorais, fotografias das expedições e boxes explicativos que traduzem conceitos científicos complexos em metáforas e exemplos do dia a dia.
O material produzido já está sendo utilizado na Disciplina 02 intitulada "Mergulhando no Oceano: nossas relações com esse ecossistema" do curso de formação de professores gratuito na modalidade EAD sobre Cultura Oceânica e sustentabilidade na Educação Básica, que será ofertado em 2026 para 1250 educadores em todo o Brasil. Esta iniciativa integra a Década do Oceano da ONU, e dialoga com o Projeto de Lei 5160/2023, que propõe incluir a Cultura Oceânica nos currículos do Ensino Fundamental e Médio. (IO, 2025).
Desdobramentos e continuidade da pesquisa
A visibilidade do vídeo e do e-book, articulada à descoberta de novos recifes de coral na costa sergipana, contribuiu para que o grupo de pesquisa do laboratório submetesse projetos e fosse contemplado em novos editais de fomento, incluindo chamadas de instituições nacionais voltadas a projetos de conservação marinha e economia azul. Entre as instituições financiadoras aprovadas encontram-se o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a PETROBRAS, o que garante a continuidade de monitoramentos, estudos de mapeamento dos fundos carbonáticos e ações formativas junto às comunidades costeiras.
5. Discussão
Os resultados apontam que a combinação de vídeo ecopedagógico e e-book digital, ancorada na Educação Ambiental Estética e no Letramento do Oceano, constitui um caminho promissor para enfrentar o fosso entre sociedade e oceano. Ao transformar dados científicos sobre recifes de coral em narrativas visuais e textuais acessíveis, o projeto aproxima o público de um tema frequentemente percebido como distante, apesar de sua importância direta para o clima, a pesca e a qualidade de vida nas regiões costeiras. A escolha por uma linguagem popular, sem abandonar a precisão conceitual, responde à necessidade de democratizar o acesso ao conhecimento, sobretudo em redes públicas de ensino.
Esses resultados indicam que a produção de materiais educacionais de qualidade pode funcionar não apenas como estratégia de extensão e divulgação científica, mas também como evidência da relevância social da pesquisa, fortalecendo candidaturas a financiamentos de maior porte.
Do ponto de vista da formação docente, os produtos criados funcionam como mediadores entre teorias ambientais complexas e práticas pedagógicas concretas. Educadores que relatam dificuldades para trabalhar o tema transversal Meio Ambiente dispõe, agora, de um conjunto integrado de recursos que pode ser adaptado a diferentes séries e modalidades de ensino. A própria metodologia de criação transdisciplinar, envolvendo ciência, arte e participação discente, configura um exemplo de inovação pedagógica que pode inspirar outros projetos.
Ao mesmo tempo, permanece o desafio de ampliar processos sistemáticos de formação continuada, para que o uso desses materiais vá além da exibição pontual de um vídeo ou da leitura superficial de um capítulo. A consolidação de parcerias com políticas públicas de educação e meio ambiente mostrou-se fundamental para garantir a sustentabilidade das ações. Nesse sentido, a aprovação da pesquisa em editais de BNDES e Petrobras não apenas consolida a investigação científica, mas também cria condições para que as estratégias educacionais funcionem de forma contínua e integrada a planos de manejo e conservação dos recifes em Sergipe.
O projeto "Cultura oceânica: criação de uma mentalidade marinha para a conservação do oceano" demonstra que a articulação entre pesquisa científica, produção artística e tecnologias digitais pode gerar materiais educacionais potentes para promover a cultura oceânica e estimular a construção de uma mentalidade marinha voltada à conservação. O vídeo ecopedagógico e o e-book sobre os recifes de coral em Sergipe apresentam, de maneira integrada, conhecimentos sobre a crise socioambiental, a importância dos ecossistemas recifais e as possibilidades de ação cidadã como contribuição para que estudantes e comunidades se reconheçam como parte de um mesmo sistema em que o oceano tem papel central e grande influência em suas vidas. Da mesma forma em que sofre também as influências dos impactos antrópicos sob seu funcionamento.
Entre as principais implicações educacionais, destacam-se: (a) o fortalecimento de práticas de Educação Ambiental Estética, que valoriza a sensibilidade, a imaginação e a experiência vivida; (b) a oferta de recursos inclusivos para a rede pública de ensino, alinhados aos ODS e à Década do Oceano; (c) a inspiração para que outras instituições de pesquisa e escolas desenvolvam produtos educacionais semelhantes, adaptados a seus contextos socioambientais; e (d) a indicação de que a divulgação científica feita em linguagem popular pode reforçar a legitimidade social da pesquisa e favorecer a captação de novos recursos.
Os materiais eco pedagógicos produzidos neste trabalho já estão preenchendo a lacuna de materiais educacionais acessíveis, esteticamente engajadores e cientificamente fundamentados em cultura oceânica. Visto sua utilização como material didático no curso de Especialização para formação de professores em Cultura Oceânica e Sustentabilidade.
Diante da crise socioambiental e do cenário de Emergências Climáticas em que nos encontramos, é fundamental para nossa sobrevivência que nos responsabilizemos coletivamente pelo cuidado com o oceano.
Sem um processo educativo para criação de uma mentalidade marinha mundial esse desafio torna-se ainda mais dificultoso. Vemos como necessário para o êxito desse processo, que a introdução dessa temática ocorra através do "Currículo Azul" já nos anos iniciais, na educação básica e continue até o nível superior. Além de haver uma formação continuada de professores neste tema. Assim, pode ser possível que a Cultura Oceânica ultrapasse ações pontuais e se consolide como prática pedagógica crítica e contextualizada.
Para tal, faz-se necessário um alinhamento entre políticas públicas, universidades, escolas, instituições de fomento e sociedade em geral para o desenvolvimento de uma governança participativa envolvendo os desafios reais de trazer este tema para a cultura local.
É importante destacar também o papel articulador das universidades, centros de pesquisa e extensão, na produção de materiais didáticos voltados à educação marinha.
Para trabalhos futuros, recomenda-se aprofundar a avaliação do impacto dos materiais em contextos escolares concretos, por meio de pesquisas de campo com estudantes e docentes, e explorar a criação de novas mídias (como podcasts, jogos digitais e exposições interativas) que ampliem ainda mais as formas de vivenciar e compreender o oceano.
Também se considera relevante consolidar parcerias com políticas públicas de educação e meio ambiente, de modo que iniciativas como esta não dependam apenas de editais pontuais, mas integrem estratégias de longo prazo para a conservação marinha e a formação cidadã.
Abstract
The Ocean plays a central role in climate regulation, Earth system dynamics, and the maintenance of life, but it is under strong anthropogenic pressure, with impacts that lead to biodiversity loss and the impairment of ecosystem services. In addition, there is a wide gap between society and the ocean, in which Ocean Literacy remains underdeveloped. This article presents the experience of the project “Ocean Literacy: creating a marine mindset for ocean conservation,” which developed an ecopedagogical video and a digital e-book as educational products aimed at socio-environmental awareness of the coral reefs of Sergipe. Based on a qualitative and transdisciplinary approach, grounded in Aesthetic Environmental Education and Ocean Literacy, materials were produced in accessible, inclusive, and popular language, designed for use by formal and non-formal educators. The methodological process, the main results, including the continuity of the research, and the potential of these digital resources to strengthen ocean literacy and the education of citizens committed to marine conservation are presented.
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