Metadados do trabalho

O Oceano Na Educação Brasileira: Conhecimento Fundamental Para Formação De Cidadão Responsável Pelo Presente Sustentável

Priscilla Teixeira Campos; Emanoel Valério; Abdias Dantas

O oceano exerce papel fundamental na regulação climática, na manutenção da biodiversidade e no equilíbrio dos ciclos biogeoquímicos, mas sofre crescente pressão antrópica. No Brasil, o distanciamento histórico entre sociedade e oceano evidencia a fragilidade da cultura oceânica no âmbito educacional. Este estudo analisa o projeto “Cultura oceânica: criação de uma mentalidade marinha para a conservação do oceano" cujos resultados apontam elevado potencial educativo ao integrar ciência, arte e tecnologias digitais, fortalecendo a cultura oceânica. No contexto da Década do Oceano da ONU, o projeto produziu materiais pedagógicos, como o vídeo ecopedagógico “Lulu, a encantadora de aratu” e o e-book interativo “Oceana”, distribuídos digitalmente a educadores. A pesquisa destaca a valorização de manifestações culturais locais como ferramentas de sensibilização ambiental, especialmente sobre os manguezais, concluindo que a arte e a cultura tradicional são essenciais para a conservação marinha e para o desenvolvimento sustentável, em consonância com os ODS 4, 12, 13 e 14.

Palavras‑chave: Cultura oceânica; Educação ambiental; Sustentabilidade  |  DOI: 10.5902/1984644466768

Como citar este trabalho

CAMPOS, Priscilla Teixeira; VALÉRIO, Emanoel; DANTAS, Abdias. O OCEANO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA: CONHECIMENTO FUNDAMENTAL PARA FORMAÇÃO DE CIDADÃO RESPONSÁVEL PELO PRESENTE SUSTENTÁVEL. Anais do Colóquio Internacional Educação e Contemporaneidade, 2026 . ISSN: 1982-3657. DOI: https://doi.org/10.5902/1984644466768. Disponível em: https://www.coloquioeducon.com/hub/anais/1815-o-oceano-na-educac-ao-brasileira-conhecimento-fundamental-para-formac-ao-de-cidad-ao-respons-avel-pelo-presente-sustent-avel-2/. Acesso em: 29 abr. 2026.

O OCEANO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA: CONHECIMENTO FUNDAMENTAL PARA FORMAÇÃO DE CIDADÃO RESPONSÁVEL PELO PRESENTE SUSTENTÁVEL

Palavras-chave

Cultura oceânica; Educação ambiental; Sustentabilidade

Autores

  • Priscilla Teixeira Campos
  • Emanoel Valério
  • Abdias Dantas

O oceano cobre a maior parte da superfície do nosso planeta e exerce um papel central na regulação do clima, na dinâmica biogeoquímica da Terra e na manutenção da vida. Apesar de sua importância, os ambientes marinhos vêm enfrentando uma crise socioambiental caracterizada pela poluição, sobrepesca, aquecimento global, acidificação e degradação de habitats costeiros (IPCC, 2019). 

Isso compromete o equilíbrio do planeta como um todo e torna-se urgente voltar a percepção global para o cuidado com o oceano que é considerado hoje o nosso Sistema de Suporte à Vida. Para tal, foi criado o conceito de Alfabetização Oceânica ou Ocean Literacy (NOAA,2013) traduzido no Brasil como Cultura Oceânica, o qual traduz essa importância da compreensão da sociedade sobre a influência do oceano para os sistemas naturais e para a humanidade. (UNESCO-IOC).

No entanto, não há ainda a difusão necessária para a criação dessa mentalidade marinha no sentido de disseminação científica do conhecimento gerado na Oceanografia em linguagem popular, para promover uma maior percepção ambiental e estimular a participação social na conservação do oceano.

Assim como, não havia até 2025 uma indicação de relevância formal dessa temática na educação. Atualmente, após a implementação do "Currículo Azul" à BNCC foi incluído o oceano no centro de propostas pedagógicas desde a educação básica até o nível superior (MCTI, 2025).  Isto ampliou o diálogo com as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) e com o Referencial Curricular, que orientaram a construção de conteúdos  e competências com ênfase na responsabilidade socioambiental e no cuidado com o oceano. (Pazoto et al., 2024).

 

Em se tratando da preservação do oceano e diante da necessidade de manter esse sistema vital em equilíbrio, algumas áreas são consideradas prioritárias para conservação (SNUC, 2000). Principalmente áreas onde existem ecossistemas essenciais como berçários da vida marinha, por exemplo os manguezais.

O estado de Sergipe possui apenas 21,91% de sua área natural preservada, sendo a pior proporção entre todos os estados brasileiros, onde 78% do território sergipano sofreu intervenção antrópica, voltada para a agropecuária. As APAs protegem ecossistemas estuarinos e manguezais que são sumidouros de carbono e berçários de vida marinha, mas que atualmente enfrentam pressões constantes da carcinicultura irregular e da expansão imobiliária que afeta diretamente os estoque pesqueiros (MapBiomas, 2024).

Em 1993, foi criada a Área de Proteção Ambiental (APA) Litoral Sul de Sergipe, na Ilha Mem de Sá. Esta categoria de unidade de conservação, de acordo com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, está no grupo das Unidades de Uso Sustentável, cujo objetivo é compatibilizar a conservação com o uso sustentável dos recursos naturais (Brasil, 2000). 

Sendo assim, é permitida a extração de recursos naturais pelas comunidades tradicionais para sua sobrevivência. Essas comunidades são as guardiãs do território e desenvolvem um papel fundamental na conservação dos ecossistemas. Sendo fundamental o diálogo de saberes com as mesmas para propor um saber ambiental interdisciplinar e com diferentes conhecimentos na busca por uma sociedade mais sustentável. (Leff, 2009).

Destacamos aqui o papel das marisqueiras na Ilha Mem de Sá, no litoral sul de Sergipe. Estas marisqueiras vivem principalmente da pesca do aratu. Mas estão constantemente em luta contra a diminuição dos estoques pesqueiros e a degradação dos manguezais e da cultura local. 

Além disso, temos um grave problema socioambiental no que diz respeito a invisibilidade destas marisqueiras que vivem em isolamento pelas barreiras físicas locais mas também porque não tem voz para denunciar as problemáticas socioambientais que vivem cotidianamente.

Sendo assim, este trabalho através da escolha do seu tema trata sobre criar materiais ecopedagógicos em cultura oceânica, relativos ao cotidiano das marisqueiras da Ilha Mem de Sá, de forma interdisciplinar, no intuito de disponibilizar aos educadores materiais informativos de qualidade, fácil acesso e eficácia.

Na década mundial dedicada ao Oceano pela ONU, devida a sua importância na manutenção e preservação da vida, vemos essa proposta de grande relevância no preenchimento dessa lacuna: a falta de uma educação oceânica e da compreensão de como esse sistema atua em nossas vidas, ou a falta de uma alfabetização oceânica. Além de darmos voz às marisqueiras de Mem de Sá para que possamos aprender com elas sobre um olhar mais cuidadoso aos ecossistemas costeiros.

 

Contextualização

A Ilha Mem de Sá pertence ao município de Itaporanga d’Ajuda, que faz limite com a cidade de Aracaju, capital do Estado. É margeada pelo rio Vaza-Barris e está inserida na Área de Proteção Ambiental, APA, do litoral sul do estado de Sergipe. 

As Unidades de Conservação (UC) no Brasil são regidas pela Lei do SNUC (Nº 9.985/2000). A Área de Proteção Ambiental (APA) é uma categoria de Uso Sustentável que visa proteger a diversidade biológica, ordenar o processo de ocupação humana e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais.

A APA Litoral Sul de Sergipe, instituída pelo Decreto Estadual nº 13.468/1993, é o marco legal que protege a Ilha Mem de Sá, servindo como barreira contra o desmatamento e a ocupação irregular. Em um estado com apenas 20% de vegetação nativa, as APAs são essenciais para a resiliência climática e para a manutenção dos serviços ecossistêmicos.

Atualmente, a ilha se destaca como um enclave de preservação inserido na Área de Proteção Ambiental (APA) do Litoral Sul de Sergipe, uma Unidade de Uso Sustentável que busca conciliar a presença humana com a proteção de biomas como a Mata Atlântica e o manguezal. 

A ilha localiza-se em região estuarina, composta por ecossistemas de baixada litorânea como mata atlântica, restinga e mangue, o que possibilitou que a comunidade da Ilha se sustentasse por meio da pesca e da mariscagem, ao longo dos anos, demonstrando a interação dos moradores com os ecossistemas locais (Souza, Braghini & Araújo, 2010). Esta interação reflete a relação que a comunidade tem com os recursos naturais, enquanto subsistência.

Historicamente, as atividades econômicas desenvolvidas na comunidade são a pesca e agricultura familiar, produção de farinha e, mais recentemente, o turismo (Silva & Faxina, 2019).

A Ilha Mem de Sá é um território que pulsa entre a herança ancestral e a resistência contemporânea. Embora a região tenha sido palco de eventos históricos cruciais, como a guerra de conquista de Sergipe em 1590 liderada por Cristóvão de Barros contra os povos Tupinambás, a ocupação permanente da ilha é considerada um fenômeno recente, com registros documentais de impostos territoriais datando apenas da década de 1930. 

A origem do seu nome sempre foi envolta em mistério, sem evidências historiográficas definitivas de que o governador-geral Mem de Sá tenha visitado ou possuído terras no local. Durante a maior parte do século XX, a comunidade de aproximadamente 85 famílias viveu em relativo isolamento geográfico, dependendo exclusivamente da pesca artesanal e do extrativismo sustentável do aratu e do caranguejo, cujas técnicas de coleta são heranças diretas dos povos originários que habitavam o litoral. 

O desenvolvimento social da ilha foi consolidado por conquistas tardias, como a fundação da primeira escola em 1987, a chegada da eletricidade em 1999 e o acesso à água encanada apenas em 2012, marcos que permitiram a transição para um modelo de Turismo de Base Comunitária (TBC) gerido pelos próprios moradores.

Outro ponto que vale a pena destacar ao tratar da ilha é a riqueza do Patrimônio Cultural e os Saberes Tradicionais. Como por exemplo, o reconhecimento legal do Ofício das Casas de Farinha (Lei Estadual nº 8.839/2021) e a revitalização do Samba de Coco (patrimônio imaterial) que são as bases da identidade local. 

O Samba de Coco,  manifestação de matriz africana e indígena, historicamente vinculado ao trabalho coletivo de "pilar o barro" e a Casa de Farinha, como espaço de segurança alimentar e agricultura familiar, onde o "saber-fazer" é transmitido oralmente entre gerações. 

A importância da pesca é refletida na cultura local, como é o caso da Festa do Caranguejo, na qual a gastronomia é conhecida pelos pratos de camarão, peixes, aratu e caranguejo-uçá. A cultura local é marcada pelo conhecimento tradicional e pelo seu estilo de vida, caracterizando a identidade desta comunidade.

Além da cultura da comunidade, as paisagens que compõem o cenário da Ilha e os passeios de barco são elementos que agregam o potencial turístico para a comunidade, principalmente turismo de natureza, turismo gastronômico e cultural.

Dessa forma, a Ilha Mem de Sá configura-se como um território extremamente rico e ameaçado por impactos antrópicos que sequer são pensados quando se trata de conservação do oceano. No qual a proteção da biodiversidade é indissociável da valorização da memória e da dignidade das comunidades tradicionais, principalmente das marisqueiras.

Essa é a história que queremos contar.

 

Referencial Teórico

A Alfabetização Oceânica (Ocean Literacy) ou Cultura Oceânica é definida como a compreensão por cidadãos de todas as idades da influência mútua entre o oceano e a humanidade. Este conceito, promovido pela UNESCO e pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI), é fundamental para a "Década do Oceano" (2021-2030) e baseia-se em sete princípios essenciais que guiam a formação de uma mentalidade marinha:

A Terra tem um oceano global e muito diverso.

O oceano e a vida marinha têm uma forte ação na dinâmica da Terra.

O oceano exerce uma influência importante no clima.

O oceano permite que a Terra seja habitável.

O oceano suporta uma imensa diversidade de vida e ecossistemas.

O oceano e a humanidade estão fortemente interligados.

Há muito por descobrir e explorar no oceano.

A Educação Ambiental Estética (EAE) fundamentada por autores como Campos e Ribeiro (2014) propõe uma prática pedagógica que integra a razão à emoção, utilizando a arte como ponte para a sensibilização ambiental. Diferente da educação tradicional, a EAE utiliza o sensível e o artístico para despertar a consciência crítica sobre os problemas ecossociais.

A Educomunicação é um campo interdisciplinar voltado a práticas pedagógicas participativas e democráticas, no qual há a criação de ecossistemas comunicativos em espaços educativos, que favorecem o diálogo, a produção coletiva do conhecimento e a participação ativa dos sujeitos. (Soares, 2011). O que se aproxima dos princípios da educação crítica que enfatiza a comunicação dialógica como elemento central do processo educativo (Freire, 2011). 

A Cultura Oceânica e a Educomunicação juntas trazem um potencial de ampliação do conhecimento e consciência social sobre o oceano e fortalecimento de processos de diálogo e engajamento social para construção de uma cidadania socioambiental crítica no cuidado com o oceano e na construção coletiva de conhecimentos socioambientais complexos.

Além de que, a integração entre comunicação, educação e cultura oceânica é fundamental para ampliar o engajamento social em questões ambientais, fortalecendo a governança e a participação social. (Sartori et. al., 2023).

No entanto, a falta de materiais pedagógicos que sejam didáticos e estruturados para auxiliar reflexões sobre a temática de conservação do oceano dificulta a expansão da Cultura Oceânica, que depende da disponibilidade de recursos educacionais e da formação docente para trabalhar estes conteúdos. (Pazoto et al. 2024).

Por outro lado, a existência de materiais pedagógicos contextualizados auxiliam na compreensão da importância do oceano nas dimensões ecológica, econômica e social. O que favorece o desenvolvimento de habilidades científicas, pensamento crítico e tomada de decisões sobre questões socioambientais dos educandos. (Pazoto et al. 2022).

Paralelamente, algumas pesquisas apontam a importância do contexto local em cultura oceânica, em respeito aos saberes, práticas e realidades culturais distintas. (Sampaio de Pontes et al., 2024; De Toni et al., 2024).

Sendo assim, pretendemos nos debruçar neste trabalho sobre a demonstração do processo de criação de materiais ecopedagógicos em cultura oceânica sobre a realidade socioambiental enfrentada pelas marisqueiras da Ilha Mem de Sá em Sergipe.

 

Material e Método

Este trabalho insere-se no Paradigma Emergente (Santos, 2009), com metodologia qualitativa, em uma abordagem interdisciplinar nas Ciências da Sustentabilidade ou o que Moran (2011) denomina de Ciências acopladas Homem-Natureza.

Nosso entendimento caminha pela arte- educação de Read (2001) ou o que Duarte Júnior (1988) chamaria de Educação Estética. Logo, discutindo temáticas ambientais por esse viés, tendo a Educação Ambiental Estética (Campos, 2014; Campos & Ribeiro 2015; Campos & Figueira 2019), a Estética do Oprimido (Boal, 2009) e o Ocean Literacy (NOAA,2013) ou Cultura Oceânica (UNESCO-IOC) como constructo metodológico.

Trouxemos também as tecnologias digitais da informação e comunicação como vídeos educativos, e-books interativos, plataformas on-line e redes sociais que podem ampliar o alcance de conteúdos sobre o oceano, facilitar a circulação do conhecimento acadêmico em linguagem popular e favorecer a inclusão de pessoas com diferentes necessidades.

O trabalho de criação dos materiais ecopedagógicos foi realizado na Universidade Federal de Sergipe, no município de São Cristóvão/SE, entre junho e dezembro de 2023. Foram envolvidos 3 alunos de graduação em uma equipe interdisciplinar com graduandos do Curso de Cinema e de Engenharia de Pesca da UFS. 

Não houve validação pedagógica inicial ou pré-teste com os usuários (educadores/alunos) antes da versão final dos produtos. 

O projeto foi vinculado ao Laboratório Interdisciplinar de Conservação com a Vida (CONVIDA), que desenvolve pesquisas sobre Conservação da Vida na costa sergipana.

O público beneficiado com os produtos educacionais inclui docentes e discentes da educação básica e do ensino superior, educadores não formais e membros de comunidades costeiras, com ênfase nas redes públicas de ensino que manifestaram interesse na adoção do e-book e do vídeo como materiais de apoio em disciplinas relacionadas ao meio ambiente e ao oceano.

Este trabalho não acompanhou o uso dos produtos criados em contextos educativos.

 

Fontes e instrumentos

As principais fontes de informação para criação dos materiais ecopedagógico foram: quatro visitas técnicas à comunidade tradicional de marisqueiras da Ilha Mem de Sá; entrevistas abertas com cinco marisqueiras da Ilha Mem de Sá/SE, utilizando câmeras GoPro 11, iPhone XR; documentos institucionais relacionados ao projeto INOVEEDU; literatura científica sobre Cultura Oceânica, Educação Ambiental Estética, Educomunicação e Conservação Marinha; e registros de expedições de campo (fotos, vídeos e dados). A trilha sonora foi gravada com o samba de coco da Ilha Mem de Sá com as marisqueiras e demais membros da comunidade no estúdio da Rádio UFS em novembro de 2023. 

Os instrumentos utilizados na produção dos materiais incluíram softwares de edição de vídeo (Adobe Premiere), programas de diagramação (Canva, Microsoft Word) e ferramentas de ilustração digital, além da colaboração de um profissional especializado na edição final do vídeo e na diagramação do e-book.

 

Questões Éticas

O projeto não envolveu coleta de dados pessoais sensíveis nem experimentos com seres humanos ou animais em situação de risco. Ainda assim, foram observados princípios éticos, tais como: reconhecimento de autoria de imagens e dados científicos produzidos pelo CONVIDA; formalização do serviço de edição e diagramação; citação adequada das fontes bibliográficas; e cuidado com a representação de comunidades tradicionais, evitando estereótipos e garantindo respeito às suas formas de vida. A equipe buscou, ainda, seguir orientações institucionais da universidade para projetos de extensão e divulgação científica.

 

Resultados e Discussão

O desenvolvimento do projeto seguiu um plano de trabalho organizado em objetivos específicos, articulados a um cronograma semestral, com encontros semanais de 2 horas de duração com os alunos cujas etapas foram: 

- Levantamento de assuntos relevantes à temática socioambiental sobre a relação homem-oceano, de cunho científico, para compor o conteúdo do vídeo e do e-book. Neste momento foi elencado o tema das marisqueiras da Ilha Mem de Sá, principalmente pela discussão suscitada na disciplina de Conservação de Ecossistemas Costeiros sobre a invisibilização das comunidades tradicionais que são as principais guardiãs dos recursos naturais e as que primeiro sofrem com os desequilíbrios ecossistêmicos. (Öllerer et al. , 2026).   Foram realizadas 4 visitas a Ilha Mem de Sá com os discentes, nas quais foi possível se inteirar das problemáticas socioambientais existentes na ilha, principalmente em relação ao desmatamento dos manguezais e a depleção dos recursos pesqueiros, por exemplo o aratu. Foram entrevistadas cinco marisqueiras que falaram sobre seu cotidiano, lutas e desafios, cujos relatos encontram-se no ebook publicado abaixo. Como o objetivo deste trabalho foi trazer o processo de criação dos materiais ecopedagógicos em Cultura Oceânica, essas entrevistas não foram analisadas nesta comunicação.

- Desenvolvimento do conteúdo levantado em linguagem popular de fácil entendimento, como forma de disseminação científica. Foram debatidos e explicitados os temas e diferentes formas de abordagem ao mesmo para que apesar da complexidade do conteúdo relativo a conservação marinha, o mesmo fosse compreendido por pessoas não acadêmicas e de diferentes idades, segundo a Cultura Oceânica. (UNESCO-IOC). Neste momento o grupo foi dividido em três para criação nos diferentes canais estéticos: Palavra, Som e Imagem (Boal, 2009). Essa divisão foi realizada por afinidade e habilidade artísticas, na qual cada estudante ficou responsável pela criação estética do Roteiro, relativo ao grupo da Palavra- trilha sonora, relativa ao grupo do Som, e ilustrações relativas ao grupo da Imagem que iriam auxiliar na composição dos produtos ecopedagógicos. Dessa forma, realizamos um processo de criação unindo a percepção dos campos simbólico e sensível dos discentes envolvidos.

- Realização da criação artística sobre as temáticas socioambientais elencadas. Neste momento foram trabalhados os desenhos em formato digital da discente Thais Oliveira Cerqueira sobre a personagem que deu nome ao ebook- Oceana e ilustrou a capa do mesmo, através de princípios da oceanografia como vórtices e correntes marinhas, zonas fóticas e afóticas (Skinner & Turelian, 1988). Foi trabalhado também o estudo de luz e sombra e de diferentes tonalidades na cor azul representando as profundidades do oceano. Foi trabalhada também a musicalidade trazida pelas marisqueiras através do Samba de Coco da Ilha Mem de Sá, com composições autorais cuja gravação pelos membros da comunidade dos sambas originais na Rádio UFS deu origem a trilha sonora do vídeo criado também como produto ecopedagógico.

- Criação de um vídeo unindo o conteúdo socioambiental pesquisado com a criação artística, a cargo do discente Igor Coutinho, a partir das imagens de campo coletadas na Ilha Mem de Sá, das entrevistas e da trilha sonora com o samba de coco original gravado pela própria comunidade na Rádio UFS. Este produto pedagógico teve duração de 3 minutos e é narrado por Lulu, uma marisqueira da Ilha Mem de Sá, intitulado "Lulu, a encantadora de aratu". O vídeo está disponível no canal do Laboratório Convida no YouTube e já foi utilizado em diversas exposições de Cine Ambiental promovidas pelo laboratório: 

https://youtu.be/1SJGHTOHSNM?si=L68pl9H-ERsjW9l2 

- Criação de um e-book sobre o conteúdo socioambiental pesquisado, unindo os conteúdos pesquisados à arte criada. Este produto pedagógico intitulado "Oceana: As mulheres da ilha do sal ou O cuidado como um princípio da Natureza" está disponível em: Oceana: As mulheres da Ilha do Sal ou O cuidado como um princípio da Natureza – Editora Criação. Optamos em trazer o gênero feminino no título tanto como uma homenagem às marisqueiras da ilha, como uma menção a Teoria de Gaia, na qual a Terra é um único organismo vivo. (Lovelock & Margulis, 2007). A Ilha do Sal trazida no título refere-se a história contada por uma das marisqueiras sobre a origem do nome da Ilha Mem de Sá. Segundo ela, como a ilha tem uma forte influência de maré, fica coberta de sal ao seu redor. Por essa razão, os moradores mais antigos a chamavam de "Ilha Bem de Sár" , trocando a palavra sal por "sár", como se falava antigamente. Com o tempo, a transmissão oral e a modificação dos termos pela cultura, o nome da ilha ficou conhecido como Ilha Mem de Sá, ao invés de Ilha Bem de Sár. 

- Veiculação dos materiais produzidos nas redes sociais e em canais institucionais, favorecendo o acesso à sociedade em geral. Todos os materiais foram vinculados ao canal do Laboratório Convida no YouTube e no instagram @coraisconvida; nos quais estão disponíveis gratuitamente.

Além disso, foi criada a Exposição Fotográfica e o Cine Ambiental do CONVIDA durante a X SEMAC (Semana Acadêmica e Cultural) da UFS cujo material exposto ilustra a relação das marisqueiras com o mangue e sua cultura, como o Samba de Coco, ambos ameaçados por impactos antrópicos. 

O impacto do projeto se deu na disseminação científica do conhecimento de forma acessível e inclusiva das problemáticas socioambientais enfrentadas pelas marisqueiras da Ilha Mem de Sá, SE.  Como o objetivo deste trabalho foi a criação de materiais pedagógicos em cultura oceânica, o material das entrevistas foi utilizado apenas para a criação destes conteúdos.

Diante da crise socioambiental em que nos encontramos (Moran, 2011) é urgente aprofundarmos a relação homem-natureza, principalmente Homem-oceano na compreensão desta relação em busca de maior harmonização, preservação da vida e cuidado com o Oceano. (Pazoto et al. 2022).

Na ausência de publicações sobre o tema, principalmente em linguagem popular, intencionamos compreender como sensibilizar a sociedade para diminuir o distanciamento na relação homem-natureza, principalmente homem-oceano, suscitando temáticas que tradicionalmente não são discutidas. 

Além de criar materiais disponíveis temáticos a educadores para desenvolvê-los em seus espaços educativos. A cultura oceânica é um campo essencial para a formação de cidadãos responsáveis, promovendo um olhar crítico sobre a conservação dos ecossistemas marinhos e da biodiversidade. (Pazoto et al. 2024).

O projeto "Cultura oceânica: criação de uma mentalidade marinha para a conservação do oceano" contribuiu para a sensibilização ambiental e fortalecimento da cultura oceânica, através da criação de materiais ecopedagógicos sobre conservação do oceano através do olhar das marisqueiras de Mem de Sá, SE. Isso favoreceu o fortalecimento da criação de uma mentalidade marinha com o aprofundamento da reflexão sobre as relações da humanidade com o oceano, estimulando práticas sustentáveis e ampliando a discussão sobre a importância das comunidades tradicionais, principalmente das marisqueiras da Ilha Mem de Sá, SE, na preservação dos ecossistemas costeiros. 

Os materiais ecopedagógicos desenvolvidos, tanto o vídeo educativo quanto o e-book digital, demonstraram um elevado potencial educativo ao traduzirem conteúdos científicos complexos em narrativas visuais e textuais compreensíveis para o público, inclusivas e contextualizadas. 

Essa estratégia amplia o acesso ao conhecimento científico, que podem ser utilizados em contextos educacionais formais e não formais. Oferece suporte a educadores que enfrentam dificuldades na abordagem do tema transversal Meio Ambiente e de conteúdos relacionados ao oceano. 

Além disso, a utilização da Educação Ambiental Estética, da Alfabetização oceânica ou Cultura Oceânica e da Educomunicação se mostrou um caminho norteador singular ao unir razão e sensibilidade, ciência e experiência, informação e significado na disseminação do conhecimento produzido para formação de cidadãos comprometidos com a conservação ambiental. 

Apesar dos resultados positivos, o estudo aponta a necessidade de aprofundar a avaliação do impacto educacional dos materiais produzidos, de modo a mensurar de forma sistemática mudanças cognitivas e comportamentais nos públicos envolvidos. 

A adoção de instrumentos avaliativos, bem como a delimitação mais precisa dos contextos de aplicação, tende a fortalecer a dimensão científica do projeto e a ampliar sua contribuição para o campo da Educação e da Cultura Oceânica. 

Além disso, a integração dos materiais ecopedagógicos com políticas públicas de educação e meio ambiente mostra-se fundamental para garantir a continuidade e a institucionalização das ações, superando a dependência de editais pontuais.

Este projeto atuou como forma de disseminação científica do conhecimento produzido em linguagem popular, de forma plural, diversa e acessível. Esperamos com essa proposta divulgar para sociedade, informações relevantes sobre esse sistema tão importante e desconhecido para criação e manutenção da vida, o Oceano. 

Bem como trouxe à tona a discussão sobre a invisibilidade das comunidades tradicionais, principalmente das marisqueiras da Ilha Mem de Sá em Sergipe. Buscamos assim suscitar uma reflexão sobre conhecimentos fundamentais para a formação de um cidadão responsável pelo presente sustentável.

 

Abstract

The ocean plays a fundamental role in climate regulation, the maintenance of biodiversity, and the balance of biogeochemical cycles, but it is under increasing anthropogenic pressure. In Brazil, the historical distance between society and the ocean highlights the fragility of ocean literacy within the educational sphere. This study analyzes the project “Ocean Literacy: the creation of a marine mindset for ocean conservation,” whose results indicate high educational potential by integrating science, art, and digital technologies, thereby strengthening ocean literacy. Within the context of the UN Ocean Decade, the project produced pedagogical materials, such as the ecopedagogical video “Lulu, the Enchantress of Aratu” and the interactive e-book “Oceana,” which were digitally distributed to educators. The research emphasizes the appreciation of local cultural expressions as tools for environmental awareness, particularly regarding mangrove ecosystems, concluding that art and traditional culture are essential for marine conservation and sustainable development, in alignment with SDGs 4, 12, 13, and 14.

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